O que podemos aprender com um século de comunismo

Há mais de um século, os bolcheviques tomaram o poder, o que levou ao estabelecimento de um regime baseado nos ideais do comunismo na Rússia. Mais tarde, isso se espalharia para muitas outras nações, trazendo outra onda de opressão e tirania ao mundo.

Embora historiadores e outros tenham documentado inúmeras atrocidades comunistas, grande parte do público permanece inconsciente de sua enorme escala. Por esse motivo, devemos lembrar as lições que podemos aprender com a história do comunismo.

Assassinatos em massa, fome e opressão

Juntos, os estados comunistas mataram cerca de 100 milhões de pessoas, mais do que todos os outros regimes repressivos combinados durante o mesmo período. De longe, a maior perda veio dos esforços comunistas para coletivizar a agricultura e eliminar os camponeses proprietários independentes.

Só na China, o “Grande Salto para a Frente” de Mao Zedong levou a uma fome na qual morreram cerca de 45 milhões de pessoas. Esse foi o maior episódio de assassinato em massa em toda a história mundial. Na União Soviética, a coletivização de Joseph Stalin — que serviu de modelo para esforços semelhantes na China e em outros lugares — custou de 6 a 10 milhões de vidas.

A fome em massa ocorreu em muitos outros regimes comunistas, desde a Coreia do Norte até a Etiópia. Mesmo sabendo dessas mortes em massa, todos os governantes comunistas continuaram com suas políticas.

Embora a coletivização possa ser considerado o maior assassino, os regimes comunistas também se envolveram em outras formas de assassinatos em uma escala épica.

Milhões morreram em campos de trabalho escravo, como os Gulags da URSS e seus equivalentes em outros lugares. Muitos outros foram mortos em execuções em massa mais convencionais, como as das Grandes Purgas de Stalin e os “Campos de Matança” do Camboja.

As injustiças comunistas, porém, não se limitaram apenas ao genocídio. Os que sobreviveram, enfrentaram e ainda enfrentam violações quanto à liberdades de expressão, de religião, direitos de propriedade, etc.

Embora os comunistas tenham prometido uma sociedade utópica e com prosperidade sem precedentes, na realidade, eles geraram pobreza massiva. Onde quer que existam estados comunistas e não comunistas próximos, há muros e ameaças para que cidadãos destes primeiros não fujam.

As razões para o fracasso do comunismo

Como uma ideologia de libertação levou a tanta opressão, tirania e morte? Suas falhas eram intrínsecas ao projeto comunista ou surgiam de falhas evitáveis ​​de governantes ou nações específicas?

Assim como, qualquer grande desenvolvimento histórico, os fracassos do comunismo não podem ser reduzidos a uma única causa. Mas, em geral, eles eram de fato inerentes.

Dois fatores principais foram as causas mais importantes das atrocidades infligidas pelos regimes comunistas: incentivos perversos e conhecimento inadequado.

O estabelecimento de uma economia e sociedade centralmente planejadas são exigências da ideologia socialista e demandam enorme concentração de poder.

Os comunistas ansiavam por uma sociedade utópica na qual o estado pudesse eventualmente “definhar”. Antes porém, se fazia necessário o estabelecimento de uma economia controlada pelo estado a fim de administrar a produção de acordo com o interesse do povo. Nesse aspecto, eles tinham muito em comum com outros socialistas.

Para fazer o socialismo funcionar, os planejadores do governo precisavam ter autoridade para dirigir a produção e distribuição de virtualmente todos os bens produzidos pela sociedade. Além disso, uma grande coerção foi necessária para forçar as pessoas a desistir de sua propriedade privada e fazer o trabalho que o estado exigia.

Fome e genocídio foram provavelmente as únicas maneiras dos comunistas obrigarem os camponeses a desistir de suas posses e aceitar a servidão nas fazendas coletivas. Fazendas estas em que as pessoas eram proibidas de sair sem permissão, para evitar o risco de elas procurarem uma vida mais fácil em outro lugar.

Corrupção e a destruição do mercado

O vasto poder necessário para estabelecer e manter o sistema comunista naturalmente atraiu pessoas inescrupulosas e corruptas.

Enquanto criava oportunidades para grandes atrocidades pelos governantes, o sistema socialista também destruía os incentivos à produção para as pessoas comuns. Na ausência de mercados (pelo menos os legais), havia pouco incentivo para os trabalhadores serem produtivos ou se concentrarem em fazer bens que pudessem realmente ser úteis aos consumidores.

Muitas pessoas tentavam trabalhar o mínimo possível em seus empregos oficiais e, quando possível, reservavam seus esforços reais para atuar no mercado negro. Como diz o velho ditado soviético: os trabalhadores tinham a atitude de que “fingimos trabalhar e eles fingem pagar”.

O fim do sistema de preços

Mesmo quando os planejadores socialistas buscavam genuinamente produzir prosperidade e atender às demandas dos consumidores, muitas vezes careciam de informação para fazê-lo.

Como descreveu o economista ganhador do Prêmio Nobel F.A. Hayek em um artigo famoso, uma economia de mercado transmite informações vitais para produtores e consumidores por meio do sistema de preços.

Os preços de mercado permitem que os produtores conheçam o valor relativo de diferentes bens e serviços e determinem quanto os consumidores valorizam seus produtos. Em contraste, sob o planejamento central socialista, não há substituto para esse conhecimento vital.

Como resultado, os planejadores socialistas muitas vezes não tinham como saber o que produzir, por quais métodos ou em quais quantidades. Esta é uma das razões pelas quais os estados comunistas sofriam rotineiramente com a escassez de bens básicos, ao mesmo tempo em que produziam grandes quantidades de produtos de baixa qualidade para os quais havia pouca demanda.

As falhas do comunismo são inerentes e injustificáveis

Até hoje, os defensores do planejamento central socialista argumentam que o comunismo falhou por razões evitáveis, ao invés de razões intrínsecas à natureza do sistema.

Talvez, a afirmação mais popular desse tipo seja a de que uma economia planejada pode funcionar bem, desde que seja “democrática”. A União Soviética e outros estados comunistas eram todos ditaduras. Logo, “caso fossem democráticos, havia a possibilidade de os líderes terem incentivos para fazerem o sistema funcionar em benefício do povo”. Se não o fizessem, os eleitores poderiam “expulsar os bastardos” na próxima eleição.

Contudo, é improvável que um estado comunista possa permanecer com pluralidade de ideias por muito tempo, mesmo que tenha seu início desta forma. Isso requer partidos de oposição eficazes, que sabem mobilizar eleitores, o que exige recursos.

Em um sistema econômico em que todos ou quase todos os recursos valiosos são controlados pelo estado, o governo em exercício pode facilmente estrangular a oposição negando-lhes o acesso a esses recursos.

No socialismo, a oposição só pode ir contra os veículos e posses estatais. Não é por acaso que, praticamente todos os regimes comunistas suprimiram o pluripartidarismo logo após chegarem ao poder.

Mesmo se um estado comunista pudesse de alguma forma permanecer democrático no longo prazo, é difícil ver como ele poderiam resolver o problema duplo de conhecimento e incentivos.

Democrática ou não, uma economia socialista ainda exigiria enorme concentração de poder e ampla coerção. E os planejadores socialistas democráticos enfrentariam praticamente os mesmos problemas de informação que seus colegas autoritários.

Além disso, em uma sociedade onde o governo controla toda ou a maior parte da economia, seria virtualmente impossível para os eleitores adquirirem conhecimento suficiente para monitorar as muitas atividades do estado. Isso exacerbaria muito o já grave problema de ignorância do eleitor que assola a democracia moderna. Ou seja, se com partidos de oposição, imprensa livre e livre mercado de ideias a ignorância já tende a assolar a população, as coisas pioram em um regime autocrático.

Lideranças cruéis

Outra possível explicação para as falhas do comunismo é de que o problema era a má liderança. “Se ao menos os regimes comunistas não fossem liderados por monstros como Stalin ou Mao, eles poderiam ter se saído melhor”.

Não há dúvida de que os governos comunistas tiveram mais do que sua cota de líderes cruéis e até sociopatas. Mas é improvável que esse tenha sido o fator decisivo para seu fracasso. Resultados muito semelhantes surgiram em regimes comunistas com líderes que tinham uma ampla gama de personalidades.

Na União Soviética, é importante lembrar que as principais instituições de repressão (incluindo os gulags e a polícia secreta) foram estabelecidas não por Stalin, mas por Vladimir Lenin, uma pessoa muito mais “normal”.

Após a morte de Lenin, o principal rival de Stalin pelo poder — Leon Trotsky — defendeu políticas que eram em alguns aspectos ainda mais opressivas do que as de Stalin.

É difícil evitar a conclusão de que ou a personalidade do líder não era o fator principal, ou — alternativamente — regimes comunistas tendiam a colocar pessoas horríveis em posições de poder. Ou talvez um pouco de ambos.

Não foi por causa da cultura

É igualmente difícil creditar as alegações de que o comunismo falhou apenas por causa de defeitos na cultura dos países que o adotaram. É verdade que a Rússia, a primeira nação comunista, teve uma longa história de corrupção, autoritarismo e opressão.

Mas também é verdade que os comunistas se engajaram na opressão e assassinato em massa em uma escala muito maior do que os governos russos anteriores. E o comunismo também falhou em muitas outras nações com culturas muito diferentes.

Nos casos de Coreia, China e Alemanha, pessoas com origens culturais iniciais muito semelhantes sofreram privações terríveis sob o comunismo, mas foram muito mais bem-sucedidas nas economias de mercado.

Em geral, as atrocidades e fracassos do comunismo foram os resultados naturais de um esforço para estabelecer uma economia socialista em que toda ou quase toda a produção é controlada pelo estado. Se nem sempre totalmente inevitável, a opressão resultante era pelo menos altamente provável.

Assim como as atrocidades do nazismo são lições abjetas sobre os perigos do nacionalismo, racismo e anti-semitismo, a história dos crimes comunistas ensina os perigos do socialismo.

Uma das lições da história do comunismo destaca os perigos de permitir que o estado assuma o controle da economia e da propriedade privada.

Além disso, os problemas de conhecimento e incentivos que surgem sob o socialismo também atormentam os esforços de planejamento econômico em grande escala, que ficam aquém do controle governamental completo da produção.

Considerações finais

Infelizmente, essas lições após mais de um século de comunismo permanecem relevantes hoje. Vivemos em uma época na qual o socialismo voltou a atrair adeptos em várias partes do mundo.

Na Venezuela, o governo está tentando estabelecer uma nova ditadura socialista que segue muitas das mesmas políticas da antiga, incluindo até o uso da escassez de alimentos para quebrar a oposição.

Mesmo em algumas democracias estabelecidas há muito tempo, os recentes problemas econômicos e sociais aumentaram a popularidade de socialistas declarados à moda antiga. Vejam o exemplo de Bernie Sanders nos Estados Unidos e Jeremy Corbyn na Grã-Bretanha, admiradores de longa data dos brutais regimes comunistas.

Mesmo que quisessem, é improvável que Sanders ou Corbyn consigam estabelecer um socialismo completo em seus respectivos países. Mesmo assim, eles podem causar danos consideráveis.

Do outro lado do espectro político, existem semelhanças perturbadoras entre o comunismo e vários movimentos nacionalistas de extrema direita recentemente populares. Ambos combinam tendências autoritárias com desdém pelos valores liberais e um desejo de estender o controle do governo sobre grandes partes da economia.

As tendências perigosas de hoje, tanto à direita quanto à esquerda, ainda não são tão ameaçadoras quanto as de um século atrás e não precisam causar mais tanto dano. Contudo, quanto mais aprendermos sobre as dolorosas lições da história do comunismo, melhor poderemos evitar qualquer repetição de seus horrores.

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Ilya Somin

Por:

Professor de Direito na George Mason University.

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