Quem foi Thomas Hobbes: ideias, erros e importância

Thomas Hobbes foi um filósofo e teórico político inglês fortemente influenciado pelas Guerras Civis inglesas, pela decapitação de Carlos I e pelo crescente interesse quanto à ciência da época. Ele esperava estabelecer a filosofia social em uma base científica sólida, a qual, segundo suas teorias, também mostraria que toda rebelião contra a autoridade estava errada.

A adoção da ciência por Hobbes consistiu em tentar descrever as pessoas como elas realmente eram, em vez de como os pensadores gostariam que fossem. Para tanto, Hobbes começou sua investigação tentando determinar como os humanos se comportariam na ausência de instituições políticas.

Hobbes chamou esse estado hipotético da sociedade, no qual não existem instituições políticas, de condição natural da humanidade ou o estado da natureza. Assim, caso ele conseguisse demonstrar qual era a condição do homem no estado de natureza, oferecendo provas de que as instituições políticas melhoravam esta condição, Hobbes teria uma forte justificativa para o governo.

Essa demonstração é exatamente o que Hobbes tenta fazer em sua obra-prima, Leviatã, publicada em 1649.

O Leviatã de Thomas Hobbes

A análise de Hobbes do estado de natureza o levou a uma série de conclusões. Em primeiro lugar, a racionalidade prática consiste em aplicar a capacidade de pensamento de uma pessoa à situação em que se encontra com o objetivo de realizar seus interesses, quaisquer que sejam.

Via de regra, os homens buscam a melhor vida possível, mas nossos pontos de vista sobre o que é melhor variam enormemente. Apesar dessa variação, é lógico presumir que todos desejamos evitar a morte.

Em segundo lugar, todos os homens são iguais no sentido de que “o mais fraco tem força suficiente para matar o mais forte”. Somos, portanto, todos igualmente vulneráveis. Assim, ninguém pode pretender superioridade social apenas em virtude de ser quem ou o que é.

No terceiro ponto, embora o estado natural do homem seja de escassez, esta situação é corrigível. Por outro lado, a natureza não é generosa. Os homens devem trabalhar, na verdade trabalhar em cooperação com outros, para aumentar o suprimento de riqueza à sua disposição.

Infelizmente, um atalho para a riqueza está disponível; podemos simplesmente pegar o que outros produziram por meio de seu trabalho, em vez de trabalharmos nós mesmos. Essa capacidade de ganhar às custas dos outros, não a agressão inata, prepara o terreno para o conflito entre os homens.

Quarto, somos capazes de amar, pelo menos de maneira limitada. Hobbes é amplamente considerado como adepto do egoísmo, no sentido de que as únicas coisas que desejamos são aquelas que conduzem ao nosso bem privado. Ainda assim, Hobbes sabe que o amor une as famílias, apesar de termos pouca afeição geral por estranhos. Em uma competição entre o eu e estranhos, as pessoas tendem a agir de forma egoísta.

Finalmente, não somos naturalmente morais. Hobbes argumentou que, na ausência de restrição moral ou afetiva, as oportunidades de ganhar com a violência frequentemente prevalecerão. Ao mesmo tempo, as pessoas se moverão para se defender, inclusive engajando-se em uma guerra preventiva.

Portanto, uma vez que ninguém confia em ninguém, a atividade cooperativa é impossível, há “medo contínuo e a vida do homem torna-se solitária, pobre, desagradável, brutal e curta.”

Moralidade

O método pelo qual os homens se livram desse estado terrível é a moralidade. Hobbes forneceu uma lista de leis da natureza, leis baseadas exclusivamente no uso de nosso raciocínio a partir de nossos interesses gerais e não na intuição ou religião.

A primeira e mais fundamental lei da moralidade exige que nos limitemos a um intercâmbio pacífico com os outros, exceto quando atacados; nesse ponto, podemos nos defender. Essa lei moral leva a várias outras, entre elas está a de que possamos reivindicar apenas tanta liberdade para nós mesmos quanto estamos dispostos a conceder aos outros, e que honremos nossos acordos.

Essas leis da natureza, afirma Thomas Hobbes, são “eternas e imutáveis”. Em caso afirmativo, por que, então, é necessário que o estado faça cumprir essas leis?

Nesse sentido, Hobbes argumentou que essas leis da natureza são fracas e não podem ser invocadas para se fazer cumprir. Deve-se evitar fazer guerra aos outros, mas somente se eles não se envolverem na guerra primeiro.

No entanto, se alguém pode ganhar com uma ação agressiva desse tipo, não há realmente nada que nos impeça. Os contratos, Thomas Hobbes observou, são “meras palavras” e “sem força para amarrar um homem”.

O que o homem precisa é de segurança, sem a qual permanecemos no mais terrível dos mundos, o estado da natureza. Somente obtém-se essa segurança, concluiu Hobbes, por meio da criação de um estado, ao qual cada um de nós concede seu poder.

Erros de Thomas Hobbes

É aqui que Hobbes comete erros e erros graves. Em primeiro lugar, muitos são os dispositivos que podem conduzir à segurança necessária à convivência pacífica, entre eles a formação dos filhos pelos pais. Além disso, há pressão dos pares, reputação e a formação de agências defensivas voluntárias, como empresas de segurança.

Em segundo lugar, a ideia de governo por consentimento geral era, nas próprias suposições de Thomas Hobbes, impossível. O consentimento é significado por palavras. Logo, se as palavras não ligam, o acordo para a criação do governo é impossível e estamos presos ao estado de natureza.

Este problema dá origem à disputa mais difundida entre os que defendem a liberdade — se é de nosso interesse ter um estado, embora limitado em sua extensão, ou anarquismo de mercado.

O primeiro pensa que o estado é necessário para prevenir o caos, mas suas atividades podem e devem ser confinadas a uma faixa estreita — o estado mínimo (minarquismo). Já os anarquistas de mercado argumentam que o mercado livre é capaz de fazer tudo, incluindo proteger o mercado livre.

No entanto, ambos os lados concordam que as conclusões políticas de Hobbes estão erradas. Na verdade, se ele estivesse certo, todos os governos, incluindo os piores da história — Stalin, Hitler, Nero — seriam legítimos porque, por piores que tenham sido, são melhores do que o estado de natureza.

Considerações finais

A contribuição singular de Thomas Hobbes para o desenvolvimento da teoria política é a clareza de sua discussão sobre a natureza geral da moralidade. Com esta ele mostra o que um estado adequado – se é que pode haver tal – faria: proibir a agressão interpessoal e nada mais.

Em suma, Hobbes viu que paz, prosperidade e a possibilidade de cada um de nós viver a melhor vida como cada um de nós a entende reside exclusivamente na prevenção da violência. Assim, ele merece um lugar de destaque como um dos fundadores do liberalismo.

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Jan Narveson

Por:

Jan Naverson é professor emérito de filosofia na Universidade de Waterloo, no Canadá.

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