Teoria Whig: a história da ciência compartilhada por Kuhn e Rothbard

A Estrutura das Revoluções Científicas (1962), de Thomas Kuhn, teve uma grande influência na perspectiva austríaca de Murray Rothbard sobre a história da ciência e do pensamento econômico. A princípio isso parece surpreendente, mas a explicação está na Teoria Whig.

Embora as pessoas discordem do que Kuhn quis dizer, muitos o usam para negar que a ciência dá acesso ao mundo real. Ou seja, a verdade seria relativa a um “paradigma”.

O que é a Teoria Whig da História

Nesse sentido, Rothbard não apenas aceita o realismo científico, como também diz que a economia austríaca fornece conhecimento necessariamente verdadeiro.

Assim, ele expõe a influência de Kuhn sobre sua obra da seguinte forma:

A abordagem de progresso contínuo, foi demolida para mim, e deveria ter sido para todos, pela famosa Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn.

Kuhn não prestou atenção à economia, mas, ao contrário, da maneira padrão dos filósofos e historiadores da ciência, focado em áreas das ciências como física, química e astronomia.

Trazendo a palavra “paradigma” ao discurso intelectual, Kuhn demoliu o que eu gosto de chamar de “Teoria Whig da História da Ciência”.

A Teoria Whig, adotada por quase todos os historiadores da ciência, incluindo a economia, é que o pensamento científico progride pacientemente, ano após ano, desenvolvendo, analisando e testando teorias, de modo que a ciência avança e passa a possuir teorias científicas cada vez mais corretas com o tempo.

Essa ideia é análoga à Teoria Whig da História, cunhada na Inglaterra do meio do século XIX. Ao sustentar que as coisas estão sempre ficando – e, portanto, devem ficar – cada vez melhores, o historiador Whig da ciência, afirma implícita ou explicitamente que “mais tarde é sempre melhor” em qualquer disciplina científica em particular.

Os historiadores Whigs – sejam da ciência ou da história – sustentam que, em qualquer ponto do tempo histórico, “o que quer que fosse, estava certo”, ou pelo menos era melhor do que “o que era antes”.

O resultado inevitável é um otimismo inocente, complacente e irritante. Na historiografia do pensamento econômico, a consequência é a posição firme, embora implícita, de que todo economista individual, ou pelo menos toda escola de economistas, contribuiu em algo na inexorável marcha da ciência.

Não pode haver, portanto, erro grosseiro do sistema que tenha danificado profundamente, ou até invalidado, toda uma escola de pensamento econômico, e muito menos enviado ao mundo da economia permanentemente.

An Austrian Perspective, vol. 1

O impacto da filosofia de Thomas Kuhn

Kuhn, no entanto, chocou o mundo filosófico ao demonstrar que simplesmente não é assim que a ciência se desenvolve. Depois que um paradigma central é selecionado, não há testes ou checagens.

Além disso, testes de suposições básicas só ocorrem após uma série de falhas e anomalias do paradigma dominante mergulha na ciência, em uma “situação de crise”.

Não é necessário adotar a perspectiva filosófica niilista de Kuhn para perceber que sua visão menos do que estrelada da ciência soa verdadeira tanto na história quanto na sociologia. Assim como, não precisa aderir à sua implicação de que nenhum paradigma é ou pode ser melhor que qualquer outro.

Mas, se a visão padrão, romântica e inocente, não funciona mesmo nas ciências exatas, certamente deve estar totalmente errada em uma “ciência branda” como a economia. Afinal, esta é uma disciplina em que não pode haver testes de laboratório, como outras numerosas disciplinas ainda mais brandas: política, religião e ética, que necessariamente afetam a perspectiva econômica de alguém.

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O desenvolvimento científico pela Teoria Whig

Porém, durante uma palestra ministrada em 1986, Rothbard elabora com força característica o que ele aceita de Kuhn e o que ele rejeita:

Kuhn chamou muita atenção em sua filosofia da ciência, que ele afirma realmente não ter. Eu acho que ele não é interessante como filósofo, mas sim como historiador e sociólogo da ciência, perguntando: como a ciência realmente se desenvolveu?

E, essencialmente, o que ele diz é que essa linearidade do conhecimento, esse passo a passo, não é o caso.

Antes de tudo, ninguém nunca testa seus axiomas básicos. Obviamente, isso é verdade. Depois que um axioma – ou um “paradigma”, como ele colocou – é adotado em uma teoria, as pessoas simplesmente o aplicam.

A partir daí, vários assuntos periféricos surgem, mas quem desafia os paradigmas básicos não é considerado cientista.

Então, isso permanece por um tempo até que várias anomalias surjam e essa teoria comece obviamente a falhar em explicar muitas coisas.

Consequentemente, nasce uma situação de crise, como ele chama, onde surgem confusão e paradigmas concorrentes.

Porém, se algum novo paradigma pode resolver melhor os mesmos problemas e dúvidas, este começa a assumir o controle e estabelece um novo paradigma, e eles esquecem todo o resto.

Agora, Kuhn teria dito que nenhum paradigma é melhor que o outro. Não acho que seja verdade. Mas, de qualquer forma, o interessante é que você perde conhecimento. Mesmo que esse paradigma seja melhor que isso, muitas vezes, as coisas se perdem ao longo do caminho.

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Como Rothbard explica o pensamento de Kuhn

Um exemplo é, obviamente, o fogo grego. Até pouco tempo, não sabíamos o que isso era. Agora, sabemos que são como lança-chamas, mas só descobrimos isso quando inventamos esse equipamento. Em 1900, ninguém sabia o que era o fogo grego.

Outro exemplo, é claro, foi o verniz para violino Stradivarius, que ninguém pode duplicar, porque você não pode testar tudo, mas não consegue descobrir a composição – fórmulas secretas, em outras palavras, que se perdem. Estes são exemplos óbvios e flagrantes.

Um amigo meu na história da ciência diz que existem certas leis da ótica do século XVIII que esquecemos. De qualquer forma, quando chegamos às ciências sociais e à filosofia, isso é muito mais verdadeiro.

A propósito, outra coisa que devo dizer é que os pessoas velhas nunca mudam para os novos paradigmas. Pessoas velhas permanecerão nos paradigmas q acreditam até morrerem. Logo, quem adota os novos paradigmas são os mais jovens — como estudantes de graduação, universitários que não estão intelectualmente presos aos paradigmas antigos.

Um exemplo famoso disso é Joseph Priestley, o libertário e físico do final do século XVIII, que descobriu o oxigênio e se recusou a acreditar que era realmente oxigênio. Ele estava tão preso à teoria do flogisto que afirmou ser apenas um “ar deflogistado”.

Isto é, ele se recusou a reconhecer a implicação de sua própria invenção, sua própria descoberta. Incrível, no entanto, também muito típico.

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A visão relativista de Kuhn

Em seus trabalhos, Thomas Kuhn apoiou uma versão forte do “significado holista“, segundo a qual os termos teóricos de uma ciência não podem ser definidos fora de uma teoria específica.

Por exemplo, “massa” na física newtoniana significa algo diferente de “massa” na Relatividade de Einstein. Dessa forma, pela carga teórica dessa observação, defensores de diferentes vertentes, necessariamente, enxergariam o mundo de maneira diversa.

Assim, nenhuma descrição neutra do mundo permite dizer que uma teoria está mais próxima da verdade do que a teoria anterior. No entanto, parece contra-intuitivo dizer que, como Newton e Einstein tinham diferentes teorias sobre espaço e tempo, eles literalmente viam mundos diferentes.

Duas boas críticas aos pontos de vista de Kuhn são Popper and After: Four Modern Irrationalists, de D.C. Stove e Science and Subjectivity, de Israel Scheffler.

Inclusive, é possível imaginar que há uma objeção de Kuhn às opiniões de Rothbard no que tange ao desenvolvimento da ciência. Afinal, se o processo ocorre mesmo quando uma ideia nova vence sem convencer os pensadores anteriores, a verdade na ciência, por fim, torna-se relativa.

Porém, isso não acontece, pois verdade e acordo universal não são a mesma coisa. Por exemplo, quando outras pessoas rejeitam o que você tem como verdade, é uma boa ideia verificar o seu raciocínio. Daí, caso o seu raciocínio persista, deve-se manter sua ideia.

David Gordon é editor do The Mises Review e integrante do Mises Institute

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Head de Conteúdo do Ideias Radicais.

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