Elon Musk pode mudar a internet no Brasil com a Starlink

Após revolucionar a indústria automobilística e o mercado de exploração espacial, Elon Musk quer agitar o mercado das telecomunicações. Sua empresa, a Starlink, promete fornecer internet de alta qualidade via satélite em qualquer lugar do mundo. Por esse motivo, ela pode mudar o acesso à web no Brasil.

O empreendimento é uma spin-off da SpaceX, e busca ser uma alternativa a fornecedores de serviço de internet tradicionais. Ela é promissora especialmente para regiões mal servidas de acesso banda larga e àquelas ainda totalmente offline.

Em longo prazo, Musk espera que a empresa arrecade fundos para financiar as ambiciosas expedições a Marte. Mas ela também avançará uma inovadora tecnologia que, segundo a Gartner, tem um dos maiores potenciais de disrupção, podendo levar a web a 48% das casas que atualmente estão desconectadas.

Atualmente, a Starlink já conta com meio milhão de pedidos de entrada registrados e 1500 satélites em órbita, enviados a bordo de foguetes da SpaceX em lançamentos recorrentes. A Federal Communications Commission (FCC) já autorizou a instalação de 12 mil satélites, mas o plano é ter mais 30 mil deles ao redor do globo.

O Brasil pode se beneficiar profundamente dessa iniciativa. Especialmente porque o mercado de telecomunicações nacional é tecnologicamente defasado e muitas vezes hostil à inovação. Hoje, 56 milhões de brasileiros não têm acesso à internet. Somente nas áreas rurais, isso representa 48% dos domicílios.

Nesse sentido, a empresa de Elon Musk pode ser um meio para preencher essa lacuna. Principalmente porque requer relativamente pouca infraestrutura e porque satélites são um meio de acesso à rede ainda pouco explorado no Brasil.

Meios de acesso à internet

O diferencial da internet da Starlink

A ideia de comunicação de dados feita por satélites não é nova. Curiosamente, o primeiro a propô-la foi Arthur Clarke, autor de “2001: Uma Odisséia no Espaço”, em 1945. Entretanto, é comum associarmos comunicação via satélite a um tipo de transmissão com alta latência (coloquialmente chamado de ping), o que impossibilita tarefas como videochamadas e jogos online.

Isso acontece porque pensamos em sistemas que operam em órbitas distantes da Terra, que não dependem de tanta rapidez. Exemplos disso são os sistemas de geolocalização, como o GPS e o GLONASS, de meteorologia ou de televisão (sistemas geoestacionários ou GEO).

Os satélites da Starlink, por sua vez, são de baixa órbita (LEO). Por estarem bem próximos da superfície terrestre, eles têm uma área de cobertura muito limitada e necessitam estar organizados em constelações. Por isso os planos da empresa envolvem tantos lançamentos.

A vantagem desse esquema é a baixa latência que alcança (em média 30 ms), competindo com a internet cabeada. Os GEO, por comparação, entregam 600 ms, o que mostra que a tecnologia empregada pela empresa de Musk é um grande avanço em relação àquela dos satélites tradicionais.

A Starlink pode conectar áreas remotas e rurais à Internet

Hoje, a Starlink já opera sua fase Beta, restrita a mais de 10 mil usuários ao redor do mundo.

Em termos de infraestrutura, o setup proposto é bem simples e prático. O kit vem com a antena, um tripé, o roteador WiFi e a fonte. Sobre isso, já existem vários vídeos online mostrando a instalação e realizando testes, como este.

Kit Starlink

O preço praticado na fase Beta é de US$499 pelo kit e US$99 para a mensalidade. Ele é alto para aquelas regiões já servidas de internet a cabo ou a fibra óptica, sobretudo se considerarmos a desvalorização do real frente ao dólar.

Todavia, para aquelas onde não há outra opção à conexão via satélite, os preços se justificam. A concorrência no Brasil, nesse sentido, é de empresas que, por vezes, cobram pouco mais barato, mas cujos planos são bem limitados e com alta latência.

Segundo a PC Magazine, o serviço de Musk entrega em média três vezes mais velocidade de download, entre 50 e 150 Mbps. Alguns beta-testers, ademais, reportaram velocidades de até 300 Mbps.

Já temos, inclusive, exemplos de como esse serviço pode ser utilizado comunitariamente.

Os três mil indígenas da tribo Pikangikum, no interior do Canadá, foram conectados à rede de Elon Musk. Se antes eles tinham uma conexão de apenas 3 Mbps, hoje desfrutam de velocidades superiores a 100 Mbps. Segundo relatos dos residentes, a internet da Starlink ajudou-os muito a acessar serviços de educação e saúde; fora a conexão com amigos e família online.

Há ainda outros projetos de ajuda de custo, como o de uma comunidade de 45 famílias em um distrito escolar na zona rural do Texas. Nesse rumo, muitas comunidades hoje desamparadas poderão conectar-se à web e ter acesso a uma infinidade de novos serviços.

A Starlink superará as barreiras da Anatel?

Oficialmente, a Starlink não confirma que cidades brasileiras já estejam aptas a receber os sinais dos satélites. Entretanto, ela já registrou dois CNPJs no país. Resta agora a chancela da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

A autarquia já autorizou a instalação das antenas que comporão as estações terrenas, que têm a função de rastrear e corrigir a órbita dos satélites. Elas também conectá-los-ão à infraestrutura de internet. Entretanto, planeja-se equipá-los com módulos de comunicação a laser, para que comuniquem-se entre si no espaço, o que reduz a necessidade dessas estações.

O pedido pelo direito de exploração de satélites foi feito no dia 7 de maio e aguarda resposta da agência reguladora. Para ser aprovada, a documentação deve estar de acordo com uma série de exigências, em especial as resoluções nº 220 de 2000 e a nº 386 de 2004.

Se concedido, a empresa de Elon Musk deve ainda solicitar a licença para tornar-se provedora de internet. Essa licença, entretanto, não costuma ser difícil de se conseguir.

O ponto positivo é que a Anatel está dando sinais de evoluir seu quadro regulatório. Segundo Agostinho Linhares, Gerente de Órbita, Espectro e Radiofrequências da autarquia, um novo regulamento para satélites não-geoestacionários será publicado ainda no segundo semestre de 2021.

É esperado que, no novo modelo, sejam extintas as licitações pelo direito de exploração satelital. No lugar delas, serão feitas outorgas, buscando reduzir os ônus regulatórios e administrativos.

Do lado técnico, a proposta buscará simplificar várias resoluções, incluindo a nº 220. Essas revisões terão como base as recomendações da União Internacional de Telecomunicações, que evoluiu nos últimos anos para melhor se adaptar aos novos satélites LEO.

O progresso tecnológico não pode ser freado pelo estado

Quem sabe a Starlink seja o empurrão para a iniciativa privada solucionar o problema de acesso à web. Problema esse que o governo brasileiro não apenas nunca conseguiu resolver, mas também foi incapaz de fornecer as condições necessárias para que empresas pudessem fazê-lo.

Mesmo com o lançamento de iniciativas como o Internet Para Todos do Ministério da Ciência e Tecnologia, o boom na indústria de satélites dá a entender que será o setor privado o responsável por essa transformação. E, em certa medida, isso está acontecendo mais rápido do que o imaginado: até a Amazon anunciou a sua própria constelação de satélites.

A disposição da Anatel em desregular também é um indício de que o plano é dar mais protagonismo às empresas, sejam elas nacionais ou do exterior. Tomara que esse seja um recomeço para a telecomunicação brasileira, finalmente abraçando a inovação do livre mercado.

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Estuda e trabalha com Engenharia Eletrônica e de Telecomunicações em Belo Horizonte.

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