Serviços do mercado privado não são mais caros

Imagine que você seja um excelente mecânico e queira abrir uma nova oficina no seu bairro. O seu objetivo é atuar no âmbito de serviços do mercado privado, ofertando manutenção e conserto de carros para pessoas de baixa renda. E, sua intenção é cobrar preços realmente bem acessíveis.

Para isso, você iria cobrar o mínimo possível por sua mão-de-obra, e utilizaria peças de reposição de segunda mão (mas decentes). Na prática, você almeja um público-alvo de menor poder aquisitivo.

Esse seu serviço seria excelente àquelas pessoas que querem apenas manter seus automóveis funcionando por alguns anos a mais — ou seja, seu empreendimento não seria nada muito chique, apenas funcional.

Imagine agora que o seu vizinho, vendo que o seu modelo foi bem-sucedido, também decida abrir uma oficina mecânica. Porém, ele tem em mente um modelo diferente de negócios.

Por meio de um insistente lobby, seu vizinho quer persuadir o governo local de que o acesso a serviços básicos de oficina mecânica é um “direito humano natural”. Desse modo, tal serviço deve ser ofertado gratuitamente a todos os cidadãos.

Apesar de suas boas intenções, essa medida tem consequências negativas. Uma delas é a falsa impressão de que os serviços privados são inerentemente mais caros. Para explicar esse efeito, aprofundaremos nosso exemplo.

As consequências do oferecimento de serviços públicos

Dado que ninguém é capaz de ter lucro ofertando serviços mecânicos gratuitos, torna-se necessário alguma maneira de financiar o serviço. Afinal, escrever em um pedaço de papel que “consertos mecânicos são um direito” não remove os custos e despesas para que seja realizado.

Assim, ambos criam o seguinte esquema: o governo irá criar a “taxa da manutenção automotiva” e irá cobrá-la de todas as pessoas que têm carros em seu bairro, mesmo que elas não queiram utilizar a oficina do seu vizinho.

Enquanto isso, ele abrirá a oficina e anunciará a todos que está ofertando serviços básicos de manutenção e conserto de carros gratuitamente a todos que queiram.

Agora, você tem um problema: mesmo que você esteja cobrando o mínimo por sua mão-de-obra e esteja utilizando as mais acessíveis peças de reposição, você ainda estará cobrando muito mais caro do que seu vizinho. Afinal, o serviço dele é subsidiado pelo governo.

Isto é, você pode tentar baratear ainda mais seu serviço não cobrando nada por sua mão-de-obra. Mas, ainda precisa pagar pelas peças de reposição que você compra no mercado de usados. Esse é um custo que você tem, e você precisa repô-lo, caso contrário irá à falência.

No longo prazo, você terá que buscar alguma outra fonte de renda, pois não é possível ofertar sua mão-de-obra gratuitamente para sempre. 

Portanto, reduzir o preço do seu serviço não irá torná-lo mais competitivo perante o do seu vizinho. Nesse sentido, você tem de ofertar algo diferenciado, algo que atraia aquelas pessoas que estejam dispostas a pagar por melhores serviços no mercado privado.

O surgimento de serviços superiores

Por exemplo, você pode tentar ser mais educado e mais cortês do que seu vizinho; você pode ofertar serviços mais rápidos; você pode dar algumas garantias a mais por seus serviços, etc.

Porém, uma questão permanece: será que seus clientes valorizariam tanto esses benefícios extras a ponto de estarem dispostos a pagar, digamos, $50 por eles? Talvez, alguns até estejam, mas é mais provável que a maioria prefira receber um serviço inferior, mas gratuito.

Lembre-se de que seus clientes são pessoas que querem apenas funcionalidade, e não coisas de primeira. Ou seja, elas não ligam muito para os “penduricalhos” extras que você está disposto a oferecer.

Nesse ponto, você irá perceber que tem de mudar o enfoque. Afinal, há um outro nicho de clientes, composto por aqueles que não estão satisfeitos com os serviços do seu vizinho.

Logo, seu objetivo será cortejar pessoas com carros mais luxuosos ou que queiram peças novas instaladas. Assim como, aquelas que valorizam coisas como cortesia, pontualidade e conveniência a ponto de estarem dispostas a pagar por elas.

Consequentemente, esses novos serviços no mercado privado serão mais caros do que aquele simples e austero que você planejou inicialmente. Para tanto, você irá abandonar seus planos de ofertar serviços básicos. Ao invés disso, irá abrir uma oficina sofisticada e avançada, que ofereça serviços de alta qualidade a clientes dispostos a pagar mais caro.

O cenário final dos serviços no mercado privado

Por fim, agora existem duas oficinas mecânicas no seu bairro: a do seu vizinho, que oferece serviços básicos a preço zero, mas que é sustentada com o dinheiro da “taxa da manutenção automotiva” criada pelo governo e a sua.

Na ausência de uma análise sobre o processo que promoveu o surgimento desse novo mercado, sua oficina privada aparentemente é mais cara por puro motivo de ganância. E, dessa forma, você é um elitista que se recusa a ofertar serviços a clientes mais pobres.

No entanto, é claro que essa é uma interpretação incorreta. Conhecer as etapas que antecederam a tomada de decisão, nos ajuda a entender que o surgimento da oficina sustentada por impostos obrigou a oficina privada a abandonar seus planos de ofertar serviços baratos. Mais ainda: empurrou a oficina privada para o mercado de serviços mais caros. 

Nesse exemplo, a oficina privada não era inerentemente cara. Na verdade, sua capacidade de ofertar serviços baratos é que foi inviabilizada pelo surgimento da oficina financiada por impostos.

Esse raciocínio pode ser aplicado a absolutamente todos os produtos e serviços disponíveis no mercado atual, que os resultados serão similares.

A existência de serviços básicos financiados por impostos expulsa a oferta privada destes, e estimula os empreendedores privados a se concentrarem em uma clientela de mais alta renda.

Em suma, entender a lógica das escolhas humanas que levam a esse resultado nos faz entender por que não podemos nos deixar enganar por essa impressão superficial.

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Head de Conteúdo do Ideias Radicais, além de atuar no mercado financeiro na Apex Partners e assinar na Folha Vitória uma coluna diária com cenários da política e economia brasileira.

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