Se o capitalismo é tão bom, por que ele é odiado por tanta gente?

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Se o capitalismo é tão bom, por que ele é odiado por tanta gente?

Por Luan Sperandio*

Uma das contradições mais instigantes na política é o ódio e desdém ao sistema capitalista, cuja utilidade social é pautada em um conjunto descentralizado de tomada de decisões baseada na propriedade privada. Assim, todas as mazelas da sociedade contemporânea são reiteradamente atribuídas aos negócios, o lucro é demonizado e a propriedade privada desprezada, mesmo que o mercado seja responsável pela redução da pobreza e desigualdade em níveis jamais vistos na história.

De acordo com uma pesquisa de 2018, realizada pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação, para o brasileiro a economia deve ser regulada mais pelo Estado do que pelo mercado. Os entrevistados disseram ainda que as principais empresas devem pertencer ao Estado, considerado o principal agente de redução de desigualdades e de provimento de serviços básicos.

Em contrapartida ao pensamento médio dos brasileiros, o economista George Stigler argumentava que “o estudo da economia nos torna politicamente conservadores”. Para ele, conservador seria “aquele indivíduo que deseja que a maior parte das atividades econômicas seja conduzida pela iniciativa privada, que acredita que eventuais abusos do poder privado serão, em geral, colocados em xeque e que incentivos à eficiência e ao progresso, com frequência, serão proporcionados pelas forças de competição”.

Porém, há fatores que contribuem para haver essa visão negativa de uma economia de mercado. Economistas tem se mostrado incapazes de influenciarem a opinião pública no sentido de apreciarem o funcionamento de um mercado competitivo. Dessa forma, há a pavimentação de uma mentalidade anticapitalista reproduzida no pensamento das massas, de acadêmicos, artistas e intelectuais.

Nesse sentido, a antipatia de muitos indivíduos em relação ao livre mercado foi objeto de uma investigação de Israel Kizner, em 1974. O aluno de Ludwig von Mises publicou um ensaio denominado “A feiura do mercado: por que o capitalismo é odiado, temido e desprezado?”. A produção elenca algumas razões pelas quais há esse paradoxo. Assim, selecionamos os 7 principais e que vale a pena analisarmos no intuito de termos um melhor diagnóstico a respeito dessa contradição.

1. A crença de que o ganho de uma pessoa deve corresponder à perda de outra

Quem é contra o comércio se recusa a compreender que os intercâmbios livres devem ser considerados benéficos para ambas as partes de um contrato. Ao considerar que uma parte sempre levará vantagem sobre a outra, cria-se a base teórica para acusações de exploração dos vendedores por parte dos compradores. A partir disso, criam-se demandas por intervenções legais em trocas em que uma das partes recebe benefícios exagerados segundo uma arbitrária régua determinada pelo legislador.

Há quem acredite que o comércio entre duas partes se resume a um jogo de Banco Imobiliário: a economia “é um jogo de soma zero”, em que um indivíduo precisa empobrecer para outro enriquecer. Isso cria um dos fundamentos para a condenação dos lucros em geral. Por conseguinte, desaprova-se todo o sistema de mercado, haja vista o resultado da prestação de serviços e venda de bens ser o lucro.

Vale ressaltar que, conforme escreveu Kizner na obra Competição e Atividade Empreendedora, a ética por trás dos lucros é justificada. Para ele, o lucro é nada mais que a remuneração ao empreendedor quando este descobre uma oportunidade inexplorada. O indicador de que ele foi bem sucedido ao satisfazer voluntariamente os consumidores daquele produto ou serviço é, justamente, o lucro.

A vida, como se sabe, não é um jogo de banco imobiliário, e é consenso entre economistas que o comércio enriquece a todos.

2. O ato de culpar “o garçom pela obesidade”

Não raramente o sistema de mercado é condenado pela eficiência e abundância que são oferecidas aos consumidores, com gostos dos quais o crítico anticapitalista não compartilha.

Assim, se condenam alguns negócios por produzirem bens tidos como “perigosos” ou de “má qualidade”. Isso reflete a incapacidade de compreender que nem sempre os consumidores estão propensos a sacrificar o que seria necessário para desfrutar de um nível mais elevado de qualidade e segurança. Um exemplo é a opção por adquirir uma moto para se deslocar em vez de um veículo mais seguro, porém mais caro.

“Culpar o garçom pela obesidade” foi um termo utilizado por Stigler no sentido de quem critica a propaganda e os esforços de venda em geral. A partir daí, surgem iniciativas como proibir saleiros na mesa de restaurantesproibir o refil de refrigerantes e tributar produtos com mais açúcar. Não se recomenda o consumo em excesso de sal, refrigerantes e nem açúcar, mas não é culpa do capitalismo se indivíduos são irresponsáveis com a própria saúde.

3. O costume em negligenciar custos e alternativas

Eventualmente características indesejadas do panorama econômico são tidas como “evidências do fracasso do mercado”.

Alguns dos aspectos criticados no capitalismo, como a “alienação dos trabalhadores” ou “a ansiedade e insegurança” sentidas pelos participantes do mercado, seriam apreciadas de maneira distinta caso se entendesse que são custos inevitáveis da divisão do trabalho. O livre mercado é um sistema social no qual a liberdade de entrada para os competidores é a principal força motriz, na medida que estimula a concorrência. O resultado são custos cada vez menores e qualidade de bens e serviços melhores.

4. O temor do surgimento de uma sociedade anárquica

Hayek dizia que um dos maiores problemas contemporâneos — que por sua vez acabava justificando maiores intervenções governamentais — era o entendimento social de que qualquer coisa que não fosse “conscientemente dirigida por completo” e tida como descentralizada era uma “prova de irracionalidade”. Assim, seria necessária uma “imediata substituição por um mecanismo elaborado deliberadamente”. Segundo ele, em The Counter-Revolution of Science:

Isso se dá pela incapacidade de entender como as ações independentes de muitos homens podem produzir totalidades coerentes, estruturas de relacionamentos persistentes que servem a importantes propósitos humanos, sem terem sido projetadas para tal finalidade.

Assim, os anticapitalistas assumem a equivocada posição de que uma sociedade não planejada de cima para baixo necessariamente gerará caos, por não compreenderem a cataláxia e o fenômeno de mercado.

5. O medo das consequências e da ganância

O mercado permite a indivíduos agirem com ganância ou egoísmo. Tratando essa liberdade como regra, os anticapitalistas acreditam que o laissez-faire deve inevitavelmente tender a ser “sórdido, brutal e selvagem”.

É verdade que o mercado permite que seus players ajam de forma egoística. Todavia, não se pode negar a capacidade do processo de mercado para restringir a cobiça de seus participantes: o sistema de concorrência acaba servindo como ferramenta para servir aos desejos de outros agentes presentes no mercado.

Não à toa, tem-se tornado um fenômeno no mercado um modelo de negócios que se convencionou chamar de “capitalismo consciente”. A ideia consiste em incorporar na gestão da empresa alguns aspectos tidos como construtivos pelo seu público-alvo (os consumidores). Isso significa transmitir os valores da empresa a partir de ações sociais e publicitárias a fim de seus produtos serem melhor apreciados pelos clientes.

6. A prática de culpar o mercado pelas consequências de uma intervenção

É comum o fracasso analítico em atribuir ao mercado a culpa por uma intervenção anteriormente realizada pelo Estado. Nesse sentido, segundo Mises a intervenção é toda norma restritiva imposta por um órgão governamental. Ela força os indivíduos a agirem de uma forma diferente da que fariam não fosse a imposição desta norma.

Nesse ambiente, na evolução do processo intervencionista, o fator ideológico exerce papel preponderante. Na presença de uma ideologia estatista, cada fracasso de uma intervenção acaba por gerar demandas por novas. Assim, “a culpa dos problemas nunca é a intervenção em si, mas a falha em aplicar a lei e o egoísmo dos agentes econômicos”. Logo, exigem-se novas e mais rigorosas leis, que Sanford Ikeda teorizou como “Ciclo do Intervencionismo”.

Um exemplo clássico de crítica ao capitalismo é a ausência de competição provocada por barreiras à entrada impostas justamente pelo governo. Outra crítica comum se dá em casos de desajustes cíclicos gerados pela expansão monetária provocada inicialmente pelo Estado.

Portanto, os críticos argumentam contra características indesejáveis que são atribuídas não ao distanciamento do mercado, mas ao funcionamento irrestrito do próprio processo de mercado.

7. A falácia do Nirvana

Harold Demsetz cunhou essa expressão ao se referir a quem adota o ponto de vista do Nirvana para criticar o mundo real. Em outras palavras, muitos críticos ao capitalismo julgam sua eficiência ou moralidade em comparação a alguma norma ideal que apresenta pouca relevância para os problemas reais.

Para melhorar um mundo imperfeito deve ocorrer proposições em relação a esse próprio mundo imperfeito. Além disso, é simplesmente impossível reformar sistemas inteiros em sua integralidade e de uma única vez. Segundo Kizner, mesmo que isso fosse possível, o custo pode tornar as imperfeições do status quo comparativamente atraentes e eficientes.

Por conseguinte, se critica o capitalismo com base em um mundo ideal sem apontar soluções viáveis como alternativas.

O que fazer para tornar o capitalismo mais atraente?

Kizner conclui em seu paper que apenas por meio do “ensino paciente e dos debates” será possível dissipar o ódio e a ignorância que cercam o livre mercado. Portanto, é preciso fomentar think tanks a fim de se construir uma cultura que aprecie melhor uma sociedade de mercado.

*Luan Sperandio é editor-chefe do Ideias Radicais

Por | 2019-07-03T00:01:13-03:00 03/07/2019|Filosofia|Comentários desativados em Se o capitalismo é tão bom, por que ele é odiado por tanta gente?