Quem foi Nikita Khrushchev?

Quem foi Nikita Khrushchev?

Você tem, ou teve, vontade de dominar o mundo? Já quis que todos “explodissem”? Se sim, bem-vindo ao time. Se não, espere a sua vez; vai acontecer, garanto. O sentimento de dominação, raiva extrema, e momentânea, talvez seja um ponto em comum de todos os seres humanos. O que difere a espécie, no entanto, é que alguns podem por suas emoções em prática; outros não. 

Na segunda metade do século XX, mais precisamente no ano de 1962, o futuro da humanidade esteve nas mãos de dois homens: Nikita Khrushchev, primeiro-ministro da União Soviética (URSS), e John Kennedy, presidente dos Estados Unidos (EUA), em um episódio histórico que ficou conhecido como “crise dos mísseis”. Na ocasião, tanto o líder sovietico quanto Kennedy tinham poder de, literalmente, explodir grande parte (se não toda) da população humana. Sim, nós poderíamos nem existir caso uma dessas lideranças tivesse apertado um botão “explosivo”.  

Durante a cena, Nikita tinha o intuito do menino com sentimento de dominação e raiva extrema que comentamos acima. Já John, pelo menos na ocasião, foi um apaziguador. 

Mas como um líder com comportamento explosivo e raivoso, e, diferente de nós, com real capacidade de destruição, chegou ao poder de uma das nações mais poderosas do século? 

Calma! Vamos por partes. 

Nasce Nikita Khrushchev

Filho de camponeses, Nikita Serguêievitch Khrushchov, conhecido no Ocidente por Nikita Kruschev, nasceu em 15 de abril de 1894, em Kalinovka, uma pequena aldeia russa perto da fronteira com a Ucrânia. Aos 14 anos, Nikita em 1909, se mudou com sua família para a cidade mineira ucraniana de Yuzovka, onde se tornou aprendiz de metalúrgico e realizou outros trabalhos temporários.

Filho de camponeses, Nikita Serguêievitch Khrushchov, conhecido no Ocidente por Nikita Kruschev, nasceu em 15 de abril de 1894, em Kalinovka, uma pequena aldeia russa perto da fronteira com a Ucrânia. Aos 14 anos, Nikita em 1909, se mudou com sua família para a cidade mineira ucraniana de Yuzovka, onde se tornou aprendiz de metalúrgico e realizou outros trabalhos temporários. 

Krushev ingressou no exército do imperador russo, czar, durante a participação russa na Primeira Guerra Mundial, lutado no conflito. Mudando de lado, ligou-se aos comunistas apenas em 1917, quando ingressou nas fileiras da Guarda Vermelha, mas não participou efetivamente da Revolução Russa, que derrubou o Império. 

Em 1918, Nikita se envolveu em atividades sindicais e ingressou no Partido Bolchevique (ala mais radical da revolução e que daria origem ao partido comunista da União Soviética anos depois), cuja liderança foi de Vladmir Lenin — trabalhando em várias funções políticas em Donbass e Kiev, na Ucrânia, e organizando uma sede partido comunista na Ucrânia. 

No ano de 1929, Kruschev se mudou para Moscou, atual capital da Rússia, onde ascendeu na hierarquia do partido comunista. Foi na mudança que Nikita passou a se aproximar de Josef Stalin, ditador soviético. Em 1935 foi nomeado pelo ditador primeiro secretário do comitê do partido da cidade de Moscou. Três anos depois alcançou o cargo de líder do Partido Comunista na Ucrânia; em 1939 chegou ao comitê executivo do partido comunista soviético. 

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), Kruschev mobilizou tropas para lutar contra a Alemanha nazista na Ucrânia e em Stalingrado (cidade que, atualmente, se chama Volvogrado). Após a guerra, ajudou a reconstruir o campo devastado ao mesmo tempo em que combateu a dissidência nacionalista ucraniana. 

Cada vez mais próximo da linha de frente do partido, Kruschev, com o passar dos anos, foi atuando para ser o próximo líder da sigla. O russo, no entanto, não fazia ideia de que seus planos virariam realidade em tão pouco tempo. 

Nikita Kruschev: potência comunista  

Com a morte do ditador, Nikita Kruschev não perdeu tempo: participou e venceu a disputa interna pela sucessão de Stalin, tornando-se secretário-geral do partido comunista, cargo de liderança da sigla.
Foto: Stalin – Superinteressante

Pouco mais de uma década após o fim da Segunda Guerra, e alguns anos após o início da Guerra Fria, que teve início no ano de 1947 e durou até 1991, em 1953, Josef Stalin, figura histórica para os soviéticos por ter atuado na Revolução Russa, vencido o nazismo no segundo conflito global e articulado no fortalecimento da União Soviética como uma potência mundial na primeira metade do século XX, morre.

Com a morte do ditador, Nikita Kruschev não perdeu tempo: participou e venceu a disputa interna pela sucessão de Stalin, tornando-se secretário-geral do partido comunista, cargo de liderança da sigla. 

No início, Kruschev e outros oficiais de alto escalão governaram por meio de uma forma de liderança coletiva. Contudo, em 1955, Nikita organizou a destituição do primeiro-ministro Georgi Malenkov e substituiu-o por um aliado, Nikolai Bulganin. Com a manobra, Nikita Kruschev ascendeu ao posto líder da União Soviética (governando, diferente dos primeiros anos após a morte de Josef, de forma autônoma). 

Ao contrário do que os soviéticos e membros da agremiação pensavam, no entanto, ao assumir, Nikita não atuou para a continuação do trabalho de seu antecessor. Muito pelo contrário, Kruschev enterrou a história de Stalin, causando uma ruptura histórica na União Soviética.  

Os anos de liderança Kruschev foram responsáveis pela ruptura histórica da União Soviética. Conhecido por sua ‘desestalinização’, Nikita fez de tudo para tirar Stalin da mentalidade dos russos. Durante o 20° congresso do partido comunista, realizado em 1956, por exemplo, Kruschev acabou com a figura, já em memória, de Josef. 

Durante quatro horas, que foram transcritas em mais de 57 páginas, Kruschev surpreendeu o mundo comunista ao denunciar seu antecessor, Stalin, como um torturador e assassino, falando sobre as grandes purgas, holodomor, entre outras ações criminosas promovidas pelo ditador. Batizado de “O culto à personalidade e suas consequências”, o discurso da então atual liderança soviética criticou a idolatria em torno dos líderes soviéticos, denunciou Stalin e condenou as práticas autoritárias soviéticas de anos anteriores.  

Kruschev também denunciou Joseph Stalin como um criminoso brutal. De acordo com o secretário, o governo de seu antecessor havia praticado, por meio de uma ditadura totalitária, “medo e terror” sobre os soviéticos. 

Em decorrência da imagem heroica construída pelos soviéticos sobre Stalin, a recepção do discurso de Nikita foi impactante. Há relatos de casos de infarto e desmaios entre os espectadores enquanto o então secretário-geral discursava, por exemplo.  

A partir do discurso de Nikita, a imagem de Stalin começou a ser transformada radicalmente no ideário popular soviético. Além do discurso, por exemplo, o governo Kruschev atuou de outras formas para “desestalinizar” a União Soviética.  Cidades mudaram de nome, como Stalingrado (hoje Volgogrado), imagens foram retiradas e, entre tantas mudanças, o corpo do líder soviético foi removido do Mausoléu de Lenin. 

O discurso foi a primeira grande polêmica de Nikita Kruschev como uma liderança soviética. 

Governo Nikita Kruschev 

No ano de 1958, Nikita Kruschev, já líder da União Soviética, depôs Nikolai Bulganin e assumiu o cargo de primeiro-ministro da União Soviética, posto diplomático da nação.

No ano de 1958, Nikita Kruschev, já líder da União Soviética, depôs Nikolai Bulganin e assumiu o cargo de primeiro-ministro da União Soviética, posto diplomático da nação. 

No front doméstico, Nikita reduziu o poder da polícia secreta da União Soviética (órgão público cujo objetivo era exterminar opositores do governo), libertou prisioneiros políticos, relaxou a censura artística, abriu mais o país para visitantes estrangeiros. 

Kruschev, mesmo ainda sem assumir como primeiro-ministro, inaugurou, em 1957, a era espacial russa com o lançamento do satélite Sputnik. Já em 1959, atuou na campanha russa que alçou um foguete soviético à lua e, em 1961, trabalhou no histórico lançamento que levou o astronauta soviético Yuri A. Gagarin a se tornar o primeiro homem a ir para o espaço em toda a história na humanidade. 

Na esfera internacional, Nikita tinha um relacionamento complicado com outros chefes de estado. Durante uma viagem aos Estados Unidos em 1959, por exemplo, cujo objetivo era uma reunião de cúpula com o presidente americano Dwight D. Eisenhower, Nikita protagonizou um dos momentos mais “diferentes” de seu governo e da Guerra Fria. 

Nikita Khrushchov na Disney 

Até aí tudo bem. No entanto, a situação começou a esquentar quando o então presidente da Fox, Spyros Skouras, cutucou Nikita Krushev. Ao dizer que a União Soviética iria “enterrar” o capitalismo, Skouras, um anticomunista, declarou que Hollywood não estava particularmente interessada em acabar com o sistema econômico.
Nikita Khrushchov, então chanceler da União Soviética

Na ocasião, ao chegar em solo americano, o líder soviético, além do encontro com o chefe dos EUA, manifestou o desejo de conhecer Hollywood; e uma visita foi agendada. O passeio começou nos estúdios da Twentieth Century Fox Studios. O primeiro-ministro da União Soviética foi levado à cabine de som que gravava a trilha sonora do filme Can Can de autoria de Cole Porter.

Ao saberem de sua presença, o elenco do filme rapidamente o cercou. A visita de Kruschev sobrou até para Frank Sinatra, que era o protagonista da produção, e que foi chamado para servir como um não oficial mestre de cerimônias da visita.  

Até aí tudo bem. No entanto, a situação começou a esquentar quando o então presidente da Fox, Spyros Skouras, cutucou Nikita Krushev. Ao dizer que a União Soviética iria “enterrar” o capitalismo, Skouras, um anticomunista, declarou que Hollywood não estava particularmente interessada em acabar com o sistema econômico. 

Kruschev, cujo temperamento era sabidamente inflamado, explodiu. Considerou que os comentários de Skouras faziam parte de uma campanha de provocações com o fim de importuná-lo durante sua visita ao país. O plano, sugeriu Kruschev, era de alfinetá-lo.  

“Se você quer prosseguir com a corrida armamentista, muito bem. Eu aceito o desafio. Com relação ao lançamento dos mísseis, bem, eles estão alinhados na rampa. Esta é a questão mais séria. É questão de vida ou morte, senhoras e senhores, é questão de guerra e paz”, disse Kruschev a Skouras. 

A irritação de Nikita cresceu quando ele soube que não teria permissão de visitar a Disneylândia. As autoridades do governo americano, de acordo com historiadores, temiam que eventuais multidões pudessem pôr em risco a segurança pessoal do primeiro-ministro. Kruschev, ainda enfurecido pela discussão com Skouras, explodiu. “E digo, gostaria muito de visitar a Disneylândia. Mas não podemos garantir sua segurança, dizem. Então o que eu devo fazer? Cometer suicídio?”, disse o líder soviético. 

 O clima esquentou! Mas, calma: os ânimos iriam se acirrar ainda mais entre Estados Unidos e União Soviética.  

A discussão entre Skouras e Kruschev havia sido só o começo. 

Explosão 

John F. Kennedy e Nikita Khrushchev, em 1961 

Nikita Khrushchev não tinha laços “saudáveis” com o Ocidente. Por ser um fervoroso comunista, o primeiro-ministro soviético não digeria bem suas relações com países capitalistas (especialmente com os Estados Unidos).  Os primeiros anos de governo Khrushchev, todavia, não foram muito quentes do ponto de vista da geopolítica.  

Até que, na década de 1960, a situação mudou. 

No ano de 1960, durante uma conferência na Organização das Nações Unidas (ONU), Nikita foi protagonista de um incidente que mostrava como o líder agia quando contrariado. Discordando do pronunciamento do delegado das Filipinas, que acusava a União Soviética de ter “engolido” os países da Europa Oriental e de ter despojado estes países de seus direitos, Khrushchev interrompeu-o com insultos e tirou o sapato para bater na mesa para ser ouvido. Sim, o líder da URSS tirou o sapato para chamar a atenção.  

Em 1961, o chanceler soviético aprovou a construção do Muro de Berlim, símbolo do mundo bipolar, e da Guerra Fria, para impedir que os alemães orientais fugissem para a Alemanha Ocidental capitalista.  

Um ano depois, em 1962, com a divisão entre Estados Unidos e União soviética já representada por uma barreira física, as tensões da Guerra Fria chegaram no ápice. No mês de outubro do ano, os Estados Unidos descobriram que havia mísseis nucleares soviéticos estacionados em Cuba, uma ilha do Caribe muito próxima do estado americano da Flórida (cerca de 150km de distância). Lembra da discussão entre Khrushchev e Skouras? Pois é, parece que o primeiro-ministro soviético não estava brincando. 

O episódio da descoberta dos mísseis ficou conhecido como “a crise dos mísseis”. Na ocasião, se quisesse, Nikita Khrushchev poderia ter começado uma guerra nuclear. Ou seja, o futuro da humanidade estava nas mãos do sucessor de Josef Stalin.  

O mundo parecia estar à beira de um conflito nuclear, mas, após um clima de tensão que durou 13 dias, o líder soviético concordou em remover as armas. Em troca, o presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy , que um ano antes havia autorizado a invasão fracassada da Baía dos Porcos, consentiu publicamente em não atacar Cuba. 

Kennedy também concordou em retirar as armas nucleares americanas da Turquia (uma das bases nucleares americanas mais próximas da União Soviética). Em julho de 1963, os Estados Unidos, o Reino Unido e a União Soviética negociaram uma proibição parcial de testes nucleares. 

Do ápice à queda de Nikita Khrushchev

O plano era claro: a União Soviética queria pressionar os Estados Unidos com os mísseis estacionados em Cuba. Quase deu certo, mas os americanos, como discutimos anteriormente, acabaram com a estratégia – e com a liderança da União Soviética. 

O governo Nikita Kruschev não sobreviveu à derrota. Em outubro de 1964, Nikita foi chamado de volta das férias em Pitsunda, Geórgia , e forçado a renunciar ao cargo de primeiro-ministro e chefe do Partido Comunista. Apesar da explicação oficial da saída de Khrushchev ter sido em decorrência de sua saúde (que estava debilitada por transtornos cardíados), tempos depois se soube que, entre outros problemas de sua gestão, a considerada derrota soviética na Crise dos Mísseis foi a mais determinante para sua destituição. 

A saída de Khrushchev da liderança soviética também representou sua morte política. Nikita não conseguiu nem sequer se reeleger membro da Comissão Central do Partido Comunista e viveu seus últimos anos isolado, morando em uma casa de campo em Ptrovo-Dalneye, Rússia.   

No ano de 1971, ele faleceu, vítima de problemas cardíacos após se tratar no Hospital do Kremlin. 

Símbolo soviético 

Foto: Kruschev – The Guardin

Ainda que Nikita Khrushchev não tenha sido um dos líderes mais memoráveis da União Soviética, nação cuja liderança já foi de Vladimir Lenin e Josef Stalin, esquecê-lo é um desserviço histórico.  

Foi Kruschev quem iniciou a corrida espacial na Guerra Fria, ordenou a construção do Muro de Berlim, negociou a crise dos mísseis e comandou uma das maiores potências do século XX, sendo um dos personagens mais importantes da história contemporânea.  

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Pedro Costa

Por:

Estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Participou da fundação da CNN no Brasil. Atualmente, direto da capital federal, cobre política e economia em O Brasilianista e na Arko Advice.

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