Quem está ajudando as praias no Nordeste são as pessoas, não o governo

//Quem está ajudando as praias no Nordeste são as pessoas, não o governo

Quem está ajudando as praias no Nordeste são as pessoas, não o governo

Por Karla Falcão*

A contaminação por óleo nas praias do Nordeste deixará sequelas no ecossistema marinho, na saúde e economia local. O desastre ambiental ganhou maior repercussão nacional nos últimos dias, mas o problema se arrasta por quase dois meses. E se algo algo efetivo está sendo feito, são as pessoas que se voluntariaram para ajudar, não o governo.

É essa a minha opinião após passar vários dias colaborando com outros voluntários nas praias. Posso falar que a situação é caótica: a sensação é a de que quanto mais óleo se tira, mais óleo aparece.

Os locais atingidos são verdadeiros paraísos, com rica biodiversidade e roteiros turísticos procuradíssimos, o que gera muita riqueza na região. Eles foram tomados por uma substância tóxica não apenas para o ecossistema marinho, mas para a saúde humana. Os danos são tão grandes que ainda é difícil mensurar o impacto em longo prazo.

É isso que está acontecendo enquanto muitas pessoas — inclusive ministros de estado — perdem tempo no debate público com narrativas, especulações e boataria. Cada grupo político acusa os adversários de ser o responsável. Para a direita, “a culpa é do comunismo venezuelano”; para a esquerda, “a culpa é da Shell e do capitalismo predatório”. Defensores do governo questionam onde estão as ONGs ambientalistas, opositores afirmam que o governo nada fez para conter a situação.

Eu estou vendo, cheirando e sentindo na pele a catástrofe. Foi assim em Paiva, em Itapuama e no Janga, regiões de Pernambuco onde aproveitei bons momentos de minha infância.

Fui lá ajudar a tirar óleo pesado na superfície que a gente segurava no braço para que a correnteza não levasse. Já tirei óleo que vinha como “bolas” com as ondas, que estava despedaçado na areia, que estava no fundo da água.

Tirei óleo de pedra, grudado nos corais, usando gravetos: era o que tinha.

Vi gente da Marinha, do Exército e do IBAMA fazendo o que poderiam, mas o efetivo era sempre pequeno e, via de regra, essas pessoas trabalhavam sem a proteção adequada. Havia também agentes do governo estadual e das prefeituras dando algum suporte com materiais, como sacos, baldes e equipamentos de proteção individual (EPI). Contudo, até o momento, nem de longe o trabalho desses órgãos é o que está fazendo a real diferença.

O que está salvando as praias do Nordeste não vem do estado: quem está salvando as praias do Nordeste são pessoas comuns. Elas se organizaram em grupos de amigos, algumas por meio de suas empresas e há ainda algumas pequenas ONGs atuando na região.

Muitos indivíduos ali arrecadam dinheiro para compra de protetor solar e EPI, auxiliando os voluntários em contato direto com o óleo. Eles ajudam levando comida e água para quem está colocando a mão na massa. Há quem esteja viabilizando bugs, engates e até tratores; muitas pessoas estão divulgando nas redes sociais e ajudando mobilizar mais pessoas e dinheiro para executar esse trabalho.

Pessoas comuns estão fazendo a diferença em meio a esse desastre ambiental. E, apesar de preocupante, há algo de belo em ver essa concretização da livre iniciativa, a base de todo o discurso liberal.

*Karla Falcão é historiadora, professora e empreendedora, integrando o Livres, o RenovaBR e a RAPS.

Por | 2019-10-28T15:31:32-03:00 28/10/2019|Libertarianismo|Comentários desativados em Quem está ajudando as praias no Nordeste são as pessoas, não o governo