Por que decidi criar minha filha com educação domiciliar?

//Por que decidi criar minha filha com educação domiciliar?

Por que decidi criar minha filha com educação domiciliar?

Por Cypriano

muitos motivos que podem levar famílias a optarem por instruírem seus filhos a partir da educação domiciliar: insatisfação com o ambiente predominante nas escolas, insegurança, baixo nível de aprendizagem ou falta de estrutura, entre outras razões possíveis.

Você pode ler este texto para compreender mais sobre educação domiciliar]. Mas este é o relato pessoal, da minha família: Alana — minha esposa — e eu jamais nos portamos como pais que desejavam construir o futuro de seus filhos.

Não somos daqueles que sonham com carreiras e vidas ideais para os seus rebentos. Queremos que sejam felizes e sigam os caminhos traçados por suas escolhas, e não pelas nossas.

O que nos inspirou ao adotar o homeschooling como forma de instrução foi o fato de se tratar de um modelo de ensino que privilegia o indivíduo e sua individualidade.

Por que criar minha filha com educação domiciliar?

No desfile apoteótico do indivíduo, características como autonomia e autodidatismo emergem das sombras e tornam-se parte da parada rumo a individuação.

Mas é importante explicar: o indivíduo e sua individualidade não despertaram assim que optamos pela educação domiciliar.

Ainda que a individualidade tenha sido algo extremamente cara para nós, carregávamos um modelo mental que nos fazia pensar ligados à antiga forma, a do ensino a partir da escolarização.

Inicialmente, pensávamos que educar em casa seria apenas adaptar o conteúdo da escola para o nosso lar. Tal conclusão era potencializada pelo fato de a Alana ser pedagoga da rede pública de ensino. Portanto, tudo o que empreendemos no início foi uma cópia do modelo educacional: conteúdos, avaliações e projetos.

Nos esforçamos para implementar tal forma e modelo. Mas, com o passar dos dias, percebemos a irrelevância do que fazíamos. E percebemos da forma mais desgastante possível: errando, falhando, percebendo nossa impotência. Em nossas mentes, naquele momento, havia o interesse de validar diante do estado o que fazíamos. Porém, ainda que timidamente, passamos a entender que a autonomia e o autodidatismo precisavam estar presentes antes da fórmula: apenas assim a estratégia de ensino seria efetiva.

Quando fomos processados pelo estado por abandono intelectual, não nos permitiram nem mesmo mostrar o que fazíamos. Naquele momento compreendemos que autonomia e o autodidatismo não precisavam de fórmulas estritas e restritivas que impedem o indivíduo de dar vazão a si mesmo.

O que tivemos de superar ao longo do caminho – e ainda precisamos continuar superando – é a ilusão de que temos controle. Nós não controlamos nossos filhos: não controlamos seus interesses, não controlamos a forma como irão reagir a tudo o que ocorre, não controlamos suas escolhas.

Nós, pais, somos apenas – na falta de uma palavra melhor – tutores. Atenção: não estou reduzindo o papel dos pais, pelo contrário, quero deixar claro que ao compreenderem que são guias para seus filhos, a responsabilidade dos pais apenas aumenta.

Ao buscarmos superar a ilusão de que temos controle, passamos a aprender que nossos filhos possuem interesses que jamais poderíamos nos dar conta caso tentássemos planificar suas vidas. Enquanto um gosta de aprender idiomas e deseja aprender coreano, outro quer aprender sobre o funcionamento do corpo, pois deseja seguir alguma carreira na saúde. Mas há uma lição ainda maior que precisa ser aprendida e trazida à memória sempre que possível: educação domiciliar não é um método fechado, sua regra é a flexibilidade e o que melhor se adapta de acordo com a individualidade de cada um.

A educação domiciliar na prática

Educação domiciliar não é método ou conjunto deles: um programa que se compra, uma abordagem clássica, um esquema moderno. Na realidade, educação domiciliar é uma possibilidade.

Ou seja, o homeschooling compreende em si métodos, programas, abordagens, mas não apenas isso. Nas práticas diárias descobrimos que a educação domiciliar está relacionada com perceber o mundo. E tal percepção pode se dar usando um programa, um método, uma abordagem. Estas são ferramentas que nos aproximam do objetivo último: conhecimento e compreensão. Mas não há uma única forma de nos aproximarmos do conhecimento e da compreensão.

Vale aqui diferenciar a educação do ensino para melhor explicar meu ponto:

A educação é o que resulta do ato de educar. Educar, portanto, é desenvolver a capacidade intelectual, moral e motora do indivíduo. Dar os subsídios necessários para que ele (se) conheça, (se) compreenda, (se) desenvolva e (se) relacione.

Já o ensino se refere ao resultado da transmissão de técnicas, conteúdos e informações. Ou seja, ensinar para realizar algo específico.

Dessa forma, educação domiciliar não é ensinar. Deixamos de ensinar. Paramos de ensinar matemática, português e biologia. Passamos a mostrar a vida, a existência que muitas vezes está permeada por dores, desilusões e respostas inconclusivas. Passamos a mostrar que é necessário expressar tal existência com todas as suas idiossincrasias. Passamos a mostrar a existência tomando nossa própria realidade como ponto de partida.

Um exemplo de como isso funciona ocorreu quando em uma de nossas viagens para divulgar a causa da educação domiciliar nossa filha Sophia, de 12 anos, decidiu engajar-se por ela própria: ao ver o que conversávamos em uma rádio e experimentar na pele os efeitos do processo por Educação Domiciliar, ela gostou do ambiente e da proposta. Decidiu juntar seu interesse pelo assunto da interferência do estado nas nossas vidas com o ambiente de uma rádio e criou seu próprio podcast.

Ela pesquisou história grega para referenciar um nome de acordo com o que achava mais adequado. Depois, precisou se organizar para pesquisar assuntos que lhe chamaram atenção a fim de criar conteúdo do seu podcast. Então aprendeu técnicas de criar roteiro, teve de compreender os números e as porcentagens, baixar software para gravar e editar áudio, viu diversos tutoriais de como fazer podcasts, e etc.

O programa de Sophia durou algumas semanas e episódios, mas todas essas lições ficaram: ela aprendeu a produzir conteúdo, explorou suas habilidades de alfabetização digital (algo por alguns apontado como um skill já tão importante quanto o inglês), trabalhou o básico da edição de áudios, entre outras coisas.

Educação Domiciliar ou Educação Familiar? O nosso futuro

A partir da adoção da educação domiciliar, uma chave foi virada em nossa família. As transformações têm sido graduais, mas passamos a encarar o homeschooling sob um novo prisma: a gente chama de educação familiar.

Queremos continuar rompendo ainda mais com o modelo educacional que se apropria de nossas percepções de mundo e pelo qual tendemos a analisar e julgar todas as coisas.

Nosso objetivo é fazer com que a Sophia aprimore suas próprias características, bem como o seu autodidatismo e a sua autonomia. Nosso desejo é que ela se torne um indivíduo que exerça sua individualidade com responsabilidade e consciência. Desejamos estabelecer condições para o conhecimento e compreensão.

Quanto ao que empreendemos na educação familiar, espero que possa inspirar as pessoas a seguir suas percepções de mundo. Sabemos que educar os filhos em casa, tirá-los da escola e colocar em um outro arranjo pode não ser alternativa viável para todos, por essa razão defendemos que a educação seja sem o estado, que a interferência estatal saia dos conteúdos, dos programas e dos métodos. Acreditamos que indivíduos, e apenas eles, podem escolher o que melhor lhes convém.

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Por | 2019-12-20T14:04:27-03:00 10/12/2019|Homeschooling|Comentários desativados em Por que decidi criar minha filha com educação domiciliar?