Por que as universidades federais deveriam adotar o ensino à distância

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Por que as universidades federais deveriam adotar o ensino à distância

Apesar do Ministério de Educação (MEC) ter autorizado aulas a distância para o ensino superior há dois meses durante o período de coronavírus, apenas seis das 69 universidades federais adotaram ensino a distância. São 960 mil alunos sem aulas, com cada um custando quase R$ 40 mil por ano.

Além de não aderirem, ao menos três universidades públicas se manifestaram contra a educação a distância como forma de substituir as aulas presenciais, alegando que nem todos os alunos têm acesso à internet de qualidade. Sim, como se não houvesse tecnologia para resolver esse problema.

Embora a educação a distância não seja uma solução para todos os problemas da educação brasileira, é a melhor forma para diminuir o prejuízo para os alunos. Mas em um ambiente em que até os estudantes fazem, não admira que muitos sejam a favor de cruzar os braços ao invés de estudar.

Paralisar as aulas prejudica justamente os mais pobres

Assim como no Brasil, diversas universidades dos Estados Unidos cancelaram suas aulas presenciais devido ao surto de coronavírus no país. Entre as universidades, estão a de Stanford, Berkeley, Harvard e Columbia.

No entanto, a recomendação na maioria das instituições é utilizar o ensino à distância como uma ferramenta para que o período não seja perdido, de forma que não haja interrupção no processo de aprendizagem. Assim, professores e estudantes devem trabalhar juntos e de forma remota por meio de ambientes virtuais.

A alegação de que não há estrutura para implementação de tal modelo aqui no Brasil é controversa: afinal, a maioria das universidades já têm programas próprios para educação remota, tais como as plataformas utilizadas no seio do Programa Nacional de Educação do Campo (Pronacampo).

A Universidade Federal do Espírito Santo, por exemplo, utiliza a Plataforma Moodle para ministrar seu curso de educação no campo. Ou seja: não seria uma novidade.

As universidades federais abocanham boa parte dos recursos da educação em comparação a outras fases do ensino. Os países da OCDE, por exemplo, gastam, em média, 1,5 vezes a mais do que o gasto do Brasil com o ensino médio. Assim, o orçamento pode se adaptar à nova realidade.

Em outras palavras, o custo de paralisar as aulas e não aproveitar boa parte dessa orçamento tende a ser menor do que aplicar políticas pontuais e auxiliar os alunos que não tem acesso às tecnologias. 

Além disso, com menos acesso à educação formal e com menos pessoas próximas com instrução, tendo em vista alto grau de abandono escolar entre classes de baixa renda, a ausência das aulas gera uma cisão na formação que precisa ser continuada. O que deve acarretar em prejuízos ao aprendizado e na perda de todo um ano letivo.

Dessa forma, apesar do vírus proporcionar uma situação diferente para as empresas, escolas e órgãos do governo, é importante que os serviços não parem. Muitas empresas vem liberando seus funcionários para fazer home office, por exemplo. As universidades deveriam fazer o mesmo.

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Universidades públicas em todo o país não adotaram o ensino à distância como forma de lidar com a paralisação do coronavírus.

O custo de não adotar o ensino à distância

Além do prejuízo para a educação continuada, a paralisação das aulas representa um prejuízo do ponto de vista financeiro. Isso acontece porque os custos com a folha de pagamento, com servidores ativos e inativos, representam 86% do orçamento das universidades federais brasileiras.

Contudo, além do gasto ser alto, ele é crescente. Em 2014, a despesa representava R$ 29 bilhões do orçamento, mas atingiu R$ 42 bilhões em 2019. Na prática, o pagador de impostos continua arcando com os custos das instituições federais se os alunos estiverem em sala de aula ou não. 

Estudantes de graduação tem maior autonomia pedagógica do que estudantes de ensino fundamental e médio para adotar a educação a distância. Além disso, alunos vulneráveis socialmente poderiam receber acréscimos nos auxílios recebidos para ter acesso a equipamentos para assistir as aulas.

Embora algumas disciplinas práticas, feitas em laboratório, não possam ser implementadas de forma eficaz a distância, isso não deveria impedir disciplinas e cursos mais teóricos, especialmente os de humanas, de manter as aulas nesta modalidade.

Sem isso, a sociedade está bancando altos salários para um funcionalismo que nem sequer está cumprimento metas pré-estabelecidas de entregas e resultados. Algo muito diferente do que ocorre nas instituições de ensino superior da iniciativa privada, que em sua maioria mantiveram as atividades mesmo que remotas.

Quanto mais tempo a pandemia e o isolamento durarem, mais importante se tornará adotar o ensino a distância. Mas enquanto nada é feito, a população continua arcando com os custos de manter profissionais que possuem estabilidade e rendimentos acima da média da população brasileira em geral. Sem ninguém estar em aula.

Breno Panetto é Líder RenovaBR Cidades. Foi Conselheiro Universitário da Ufes e atualmente é Conselheiro Estadual de Juventude.

Por | 2020-05-16T16:20:46-03:00 15/05/2020|Educação|Comentários desativados em Por que as universidades federais deveriam adotar o ensino à distância