Os pontos negativos do governo Donald Trump

Este texto é a segunda parte de três artigos em que se analisa os 42 primeiros meses de mandato de Donald Trump. No primeiro abordamos os pontos mais positivos da administração, e neste falaremos dos pontos negativos. Vocês também já podem conferir a pior parte do Governo Trump neste artigo. Para compreender as regras das eleições presidenciais, clique aqui. Confira ainda nossa análise preliminar do concorrente democrata Joe Biden.

Tanto a agenda de Donald Trump quanto os Estados Unidos foram prejudicados em diversos momentos por sua persona e por seu estilo errático de administração.

As escolhas políticas e retóricas do presidente também levaram a problemas grandes para o seu partido que estão sendo sentidos desde o começo de 2017, mas que podem ter impacto significativo no médio e longo prazos.

Além disso, Trump colocou o país em uma trajetória fiscal que pode se tornar ainda pior nas mãos de futuros presidentes Democratas, diminuindo o poder aquisitivo e a possibilidade de prosperidade de futuras gerações de americanos.

Estes são os principais pontos negativos do governo Trump.

Entre os pontos negativos do governo Trump, se destaca o aumento do déficit fiscal

Se por um lado a reforma tributária foi boa por, além de simplificar parte do código, ter reduzido o peso de impostos sobre as pessoas, por outro foi péssima haja vista que não veio acompanhada de um elemento essencial: um profundo corte de gastos.

E aqui não entram apenas as questões relacionadas a problemas e ineficiências de gestão Trump, mas principalmente os gastos obrigatórios com programas “sociais” como o Social Security (aposentadorias) e Medicare (programa de saúde estatal para pessoas acima de 65 anos de idade, independente da renda). Somados ao Medicaid, programa de saúde estatal para pessoas pobres, essas três despesas do governo federal correspondem a algo na casa de 50% do orçamento federale são os maiores elementos dos gastos obrigatórios do governo federal.

Eles têm em geral desenhos péssimos que desconsideram elementos relacionados à arrecadação, à expectativa de sobrevida da população ou mesmo à suposta justiça redistributiva de renda (que pode ser considerada como um elemento essencial para várias pessoas quando do desenho de políticas públicas).

O déficit fiscal de 2019 foi o maior em sete anos, tendo aumentado 26%.

A guerra tarifária com a China

Além do aumento do déficit fiscal, Trump protagonizou uma guerra tarifária com a China, que trouxe grandes impactos negativos em regiões dependentes de exportações como os estados do Meio-Oeste americano.

Além disso, leva o governo federal a despender verbas para “acalmar o ânimo” de fazendeiros que não conseguem exportar seus produtos (a.k.a. comprar votos deles). Aliado ambos, temos um cenário preocupante.

Mesmo antes da crise causada pelo coronavírus e a resposta estatal a pandemia, o governo federal americano acumulava déficits de níveis elevados, chegando a quase 1 trilhão de dólares em 2019, levando a dívida acumulada americana a quase 26 trilhões de dólares (aproximadamente 107% do PIB americano).

Só para dar uma perspectiva, o PIB brasileiro em 2019 foi pouco acima de 1,8 trilhão de dólares, ou seja, o governo federal americano em um ano conseguiu se endividar em quase “metade de um Brasil”.

E não há nenhum indicativo de que Trump se preocupe com essa trajetória fiscal do país. Apesar de ter nomeado algumas pessoas como Mick Mulvaney que originalmente consideravam os problemas fiscais como algo importante, o executivo pouco atuou para alterar as políticas de gastos junto ao congresso. Pelo contrário, em geral o presidente fazia lobby por expansões orçamentárias e maior endividamento.

Um segundo mandato possivelmente deve ser ainda pior nesse sentido, visto que haverá menos pressões dentro da base para que o presidente mude a trajetória fiscalmente irresponsável de administrações anteriores — um discurso que fazia parte do apelo de alguns eleitores por Trump, ou pelo menos por um Republicano genérico quando da campanha de 2016.

Um cenário fiscal preocupante para o futuro próximo

Muito além dos gastos provocados pela pandemia, há graves problemas orçamentários nos Estados Unidos para o futuro próximo.

Programas como Social Security e Medicare irão à falência: o valor que eles arrecadam será não apenas menor do que o distribuído, mas os fundos que foram acumulados ao longo dos anos de “boom demográfico” estarão completamente vazios.

Outros gastos obrigatórios continuarão a aumentar o seu peso no orçamento e os Democratas, que fazem parte da oposição, ainda pedem por maiores expansões de programas sociais, de gastos em saúde e de gastos para supostamente combater mudanças climáticas como o Green New Deal — algo que sozinho pode custar US$ 93 trilhões.

Ou seja, a pressão está toda para uma deterioração fiscal ainda maior no segundo mandato de Trump ou em eventual presidência de Joe Biden.

Escândalos do governo Trump

Em 2019 Donald Trump se tornou o segundo presidente americano nos últimos 25 anos e o terceiro na história do país a enfrentar um processo de impeachment.

Entretanto há uma diferença importante entre o caso dele e de Bill Clinton, que sofreu impeachment em 1998: nenhum senador Democrata votou contrário ao impeachment, enquanto um senador Republicano votou favoravelmente à remoção de Trump do cargo de presidente.

Já no caso de Clinton, cinco senadores Republicanos votaram contrários a um dos artigos do impeachment, enquanto o segundo artigo teve a oposição de dez Republicanos, além de todos os senadores Democratas. É importante ressaltar, todavia, que se o presidente fosse Democrata e as acusações fossem exatamente as mesmas, provavelmente os votos teriam sido revertidos (todos Democratas votando por mantê-lo no cargo e todos os Republicanos por removê-lo).

Tirando a questão do partidarismo político que explica o resultado no Senado, por que houve um processo de impeachment contra Donald Trump?

A tentativa de impeachment à Donald Trump

Trump assumiu a Casa Branca em meio a escândalos sobre uma potencial interferência do governo russo no processo eleitoral americano. Isso levou a abertura de um processo de investigação com um procurador especial do Departamento de Justiça, Robert Mueller. Durante as investigações, descobriu-se que tanto o governo federal sob a administração de Barack Obama quanto pessoas associadas à Trump tinham cometido diversos impropérios com relação às relações entre Estados Unidos e Rússia.

As ações de ambos os lados não necessariamente foram ilegais, mas em geral eram antiéticas e/ou imorais para pessoas em cargos de poder. Todavia, como nenhum crime foi identificado, o processo ficou na esfera política e não foi o responsável pela abertura do impeachment contra Donald Trump.

Entretanto, logo após o fechamento das investigações de Mueller, o presidente americano participou de uma ligação com o presidente ucraniano em que Trump pediu a abertura de investigações do governo ucraniano sobre uma possível interferência de Joe Biden, então pré-candidato Democrata à presidência americana, em nomeações e investigações de corrupção no país europeu. Uma das alegações é que Trump condicionou o envio de verbas a Ucrânia, que já haviam sido autorizadas e apropriadas pelo Congresso, a abertura dessas investigações. Ou seja, ele estaria usando o poder da presidência americana para, antieticamente, comprometer as perspectivas eleitorais de um de seus adversários, o que caracterizaria abuso do poder da presidência. Essa acusação foi levantada numa denúncia ao Senado em Agosto de 2019. 

Abuso de poder de Trump e o processo de impeachment

Como Democratas já estavam insatisfeitos de terem perdido a eleição de 2016 e não terem conseguido elementos suficientes para o afastamento do presidente devido a suas relações com o governo russo, decidiram usar esses elementos para iniciar os procedimentos e tentar conseguir o impedimento e a remoção de Donald Trump da presidência.

No entanto, Trump, por sua vez, não se ajudou: não reconhecer seus erros de conduta (na verdade, se vangloriou deles), e não buscou tornar os processos mais transparentes. Assim, em setembro, a Câmara dos Deputados abriu um processo de investigação formal das denúncias de abuso de poder da presidência.

Durante as investigações, Trump tentou bloquear os seus subordinados no governo federal a prestarem depoimentos a comitês na Câmara e no Senado, o que foi caracterizado como obstrução ao Congresso. Em dezembro, a Câmara dos Deputados aprovou dois artigos do impeachment contra Trump, que foram mandados ao Senado para julgamento.

Em fevereiro de 2020, o Senado votou pelo encerramento do julgamento, e o absolveu. Logo em seguida, o presidente demitiu dois funcionários que testemunharam contra ele no processo, sendo um embaixador e um dos membros do conselho de segurança nacional.

Em abril, o presidente demitiu o inspetor geral da área de inteligência por ter preparado o relatório sobre a conversa com o presidente ucraniano que foi utilizado durante o processo de impeachment.

Por mais que o processo tenha apresentado um grau de polarização além do normal para o cenário norte-americano, as acusações contra Trump, em especial o seu abuso do poder da presidência, eram válidas e suficientes para justificar o processo de impeachment. Inclusive, diferentes senadores Republicanos, como Ben Sasse (Nebraska) e Lamar Alexander (Tennessee), atestaram que o presidente era culpado desse abuso, por mais que isso não fosse o suficiente para justificar a sua remoção do cargo.

Os pontos negativos do governo Trump no comércio internacional

Desde os anos 1980, quando a notoriedade pública de Trump começou a aumentar, ele já se dizia contrário a comércio exterior e acordos de livre comércio.

Nas últimas quatro décadas, o atual presidente não aprendeu nada sobre os problemas do protecionismo, evidenciando que Trump não acredita na liberdade.

Todas as falácias direcionadas a Japão e Alemanha foram revertidas para a China — e aqui não entro no tópico de espionagem corporativa, sabotagem ou violações aos direitos humanos. Ele acredita que déficit comercial é algo ruim porque os americanos “estão sendo roubados” e “isso reduz empregos nos EUA”.

Todavia, ele não enxerga o que realmente acontece: se os EUA compram um celular feito na China que custa 1/10 do que custaria se feito na América, agora eles têm 9/10 do valor “original” para investir em outras coisas — em geral mais produtivas ou mais valorizadas pela população, por mais que não o sejam pela elite. Essa diferença de preço por causa de benefícios do comércio é o que permite a um caixa de supermercado gastar apenas duas semanas de seu salário para comprar um celular que no Brasil custaria pelo menos quatro meses de trabalho para uma pessoa em uma posição de emprego equivalente.

Isso também permite que carros como um Toyota Corolla sejam produtos acessíveis para jovens no começo de sua carreira profissional, enquanto no Brasil são “sonhos” da crise de meia idade da maior parte dos trabalhadores.

Como o dinheiro não fica preso em “sobre pagar” por produtos, há mais possibilidades de investimento e risco como no caso das milhões de pessoas que investem no mercado de ações, nos milhões de empreendedores que trabalham construindo negócios que podem virar — em uma década — empresas multibilionárias, ou mesmo em investir muito mais em caridade do que Europeus e Asiáticos.

Os problemas econômicos da política anti-imigração

O mesmo vale para os benefícios da imigração: ela complementa a distribuição de habilidades da população nativa, permitindo que serviços nos dois extremos da distribuição (sub e sobrequalificados) tenham preços competitivos.

Um americano médio é “qualificado e produtivo” demais para aceitar, por exemplo, receber algo em torno de $7/hora para colher milho no Nebraska, e se aumentássemos o valor pago para $15/hora (algo sugerido por pessoas contrárias à imigração), tornaríamos toda a cadeia produtiva mais cara, deixando o produto final inacessível para parte dos consumidores mais pobres.

Quando se amplia essa visão para outros setores da economia, percebe-se como o cenário seria improdutivo. Mais pessoas teriam de trabalhar mais horas para ter menos retorno final, reduzindo a qualidade de vida da população e tendo um impacto no cenário global como um todo devido às cadeias globais de produção e consumo.

Obviamente que a pessoa que passou a ganhar $15/hora talvez esteja melhor agora do que antes, mas muito mais pessoas ficariam pior na distribuição dos custos e benefícios, gerando uma sociedade improdutiva, cara e com mais divisões.

Os pontos negativos do governo Trump com imigrantes

Outro fator importante: com o comércio e a imigração, pessoas passam a ver os “outros” (grupos externos) como parceiros e não competidores. Quando você coopera com um indivíduo diferente a fim de ambos atingirem seus propósitos e fazendo-o de forma voluntária, os dois saem ganhando. Mas quando o governo coloca regras de que “para A ganhar, B tem de perder”, a rivalidade passa a ser a diretriz master do processo e conflitos ficam instaurados.

Não à toa, políticas de subsídios que levam a realocação de empresas geram muito mais dano a curto e médio prazo do que processos naturais de mudança — até porque vale à pena para companhias manter empregados bons, inclusive bancando sua realocação.

As trocas de favores políticos, nesse processo, com restrições a transações voluntárias para beneficiar o grupo X ou Y, pioram as divisões no país e precisam ser “justificadas” por forças culturais que acabam sendo propelidas para “racionalizar” a escolha política.

Nesse aspecto, Trump tem errado desde a campanha. Há diversas medidas a exemplificar:

  • ele abrir mão da Parceria Transpacífica (TPP) ao invés de tentar reformá-la;
  • a reformulação do NAFTA;
  • a criação de acordos protecionistas com a China; a postergação de qualquer reforma imigratória sensata;
  • a criação de diretrizes anti-imigração em meio à pandemia para acenar para sua base política;

Como resultado dessas políticas, foi gerado um ambiente de instabilidade institucional que, em geral, tem tido consequências negativas para o país e que podem levar a prejuízos muito graves em eventual segundo mandato e mesmo posteriormente a sua administração.

Trump enfraqueceu o Partido Republicano

Assim como Barack Obama viu o seu partido perder cerca de mil assentos entre assembleias legislativas estaduais, cargos de governador, cargos de deputados e senadores, Trump presidiu durante um período de perda de influência Republicana.

Essa perda de poder está diretamente ligada ao presidente: Trump é impopular e incapaz de promover tanto a sua agenda, como de atuar como cabo eleitoral de outros candidatos.

Desde a época da eleição para presidente, em geral ele apresentou desempenho pior do que outros Republicanos concorrendo a nível estadual nos mesmos pleitos. A figura abaixo mostra a comparação dos votos de Trump e dos candidatos Republicanos ao Senado: apenas na Pensilvânia, o presidente conseguiu “virar um estado que tinha ido para Obama” e ter mais votos que o candidato Republicano ao senado.

Essas perdas eleitorais ficaram mais claras e consolidadas a partir do primeiro ano de mandato em que Trump viu os Democratas capturarem uma vaga no Senado que pertencia a Jeff Sessions, o primeiro político de peso que apoiou Trump na corrida presidencial e que havia se tornado Advogado Geral do governo americano, uma especie de Ministro da Justiça.

As posições de Trump levaram a sua base a selecionar como candidato à vaga do senado o ex-juiz chefe da Suprema Corte do Alabama Roy Moore, enquanto Trump tacitamente apoiou o oponente de Moore nas primárias e perdeu. Quando da campanha para a eleição especial em Dezembro daquele ano, o presidente endossou a candidatura de Roy Moore, mas ele foi derrotado porque Republicanos decidiram ignorar o presidente e se abstiveram de votar devido aos escândalos que cercavam o candidato e a suas posições extremistas.

Trump contribuiu para derrotas eleitorais dos Republicanos

Já nas eleições de 2018, apesar de um ciclo político muito favorável aos Republicanos em nível federal, houve uma nova sequência de derrotas.

Originalmente, Democratas defendiam dez assentos no Senado em estados que votaram para Donald Trump nas eleições de 2016, mas quando os resultados foram contabilizados, Republicanos ganharam apenas dois assentos, tendo “capturado” quatro que eram Democratas (Flórida, Dakota do Norte, Indiana e Missouri) e perdido outros dois (Nevada e Arizona).

Além disso, Democratas tiveram resultados expressivos nas votações nos subúrbios (que correspondem a cerca de 50% do eleitorado americano) e capturaram a Câmara dos Deputados (que estava sob controle Republicano desde 2010) na maior “virada” eleitoral pró-Democratas desde o escândalo de Watergate (41 assentos).

Nas eleições de governadores, os Republicanos também perderam seis cadeiras, inclusive de estados fortemente Republicanos como Kansas. Vale lembrar que em 2016 os Republicanos perderam seis assentos na Câmara dos Deputados, mas Trump começou a sua presidência com 241 deputados membros de seu partido (uma maioria confortável de 23 cadeiras). Agora em 2020, o GOP tem apenas 197 deputados, contra 233 Democratas e 1 Libertário (Justin Amash).

Adiciona-se a isso o fato de que, em 2017, Republicanos já haviam perdido Nova Jérsei e em 2019 perderam Kentucky, o GOP viu o seu número de governadores cair de 34 em 2016 — uma maioria histórica — para 26 em 2020.

Davi Lyra Leite é doutor em Engenharia Biomédica pela Universidade do Sul da Califórnia, pesquisador do Instituto Mercado Popular e especialista em políticas públicas de saúde. É residente dos Estados Unidos desde 2012.

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Davi Lyra

Por:

Davi Lyra é doutor em Engenharia Biomédica pela Universidade do Sul da Califórnia, pesquisador do Instituto Mercado Popular e especialista em políticas públicas de saúde.

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