Revolução econômica: será que os robôs tomarão seu emprego?

Cada revolução econômica histórica — agrícola, industrial e digital — alterou profundamente os padrões de trabalho até então estabelecidos, mas não eliminaram a necessidade pela mão de obra humana. Com os robôs pode ser diferente. Afinal, em muitos aspectos, eles substituem a necessidade de utilizar braços e cérebros humanos.

Porém, caso aconteça, o que essa obsolescência da mão de obra humana vai significar para o tecido social e para a percepção do que somos?

As primeiras organizações do trabalho

Há dez milênios nossos ancestrais que viviam da prática da caça e coleta descobriram a agricultura. Antes dela, pequenos grupos de Homo sapiens andavam pela terra à procura de comida e abrigo.

Logo, qualquer animal que eles matassem ou qualquer fruta, raiz ou planta que encontrassem tinha de ser dividida entre eles. Por esse motivo, surgiu a mentalidade igualitária de nossa natureza “humana”.

A partir da agricultura, deixamos de ser nômades e adotamos um estilo de vida mais estacionário. Fazer um planejamento voltado para o longo prazo tornou-se uma prática comum, assim como a noção de poupança e de investimento.

Nós adotamos uma compreensão mais ampla e sofisticada dos direitos de propriedade e passamos a acumular riqueza. Paralelamente, os humanos desenvolveram hierarquias, desde monarcas que protegiam a vida e a propriedade, passando por juízes que resolviam rixas e estipulavam punições, e chegando a sacerdotes que tinham a tarefa de garantir que haveria chuvas e que a colheita seria farta.

Assim, a agricultura e o feudalismo substituíram a caça e a coleta, e a humanidade se adaptou.

A revolução econômica a partir da industrialização

Há 250 anos, a Revolução Industrial contribuiu para o desenvolvimento de novos materiais, como o vidro e o aço e novas fontes de energia, como a eletricidade e o petróleo. Bem como, de novos meios de transporte, como o motor a vapor e o motor de combustão interna e novas máquinas, como a máquina de fiar e o tear mecânico.

Consequentemente, o sistema fabril levou a um aumento da divisão do trabalho e gerou a especialização. Além disso, houve a elevação maciça da produção de bens manufaturados e do comércio internacional.

Não à toa, o aumento da urbanização gerou melhorias profundas nas condições sanitárias e na educação, além de despertar a consciência política entre os cidadãos comuns, que não mais tolerariam viver sob déspotas feudais.

Simultaneamente houve o colapso no emprego agrícola: por exemplo, enquanto 40% da população estava empregada no campo em 1900 nos Estados Unidos, atualmente o número é de apenas 1,5%. Isso gerou alertas apocalípticos sobre uma iminente falta de comida para o mundo e que não haveria empregos para todos. 

No entanto, a renda real per capita mundial aumentou de US$ 3,50 por dia em 1820 para US$ 33 em 2010. Na prática, a revolução econômica agrícola e o feudalismo possibilitaram o desenvolvimento do capitalismo, e a humanidade se adaptou e prosperou.

O advento da revolução econômica digital

Durante a década de 1970, a humanidade vivenciou o início da digitalização dos meios, que continua até os dias de hoje. Logo, os rápidos avanços na ciência e na tecnologia aumentaram de sobremaneira a velocidade e reduziram o tamanho – e os custos – dos microprocessadores.

Por esse motivo, computadores pessoais, celulares e a internet — todos eles ferramentas de trabalho — se tornaram onipresentes em nossos lares, ambientes de trabalho e nas universidades. A computação, fotografia, cinematografia, televisão e rádio analógicos se converteram em tecnologias digitais.

Nesse sentido, correios, telex, telegramas, máquinas de escrever, telefones públicos – os “orelhões” – , fitas cassetes e VHS desapareceram ou estão prestes a desaparecer.

Assim como ocorreu com as revoluções agrícola e industrial, a revolução digital também gerou grandes alterações econômicas, mas não resultou em desemprego em massa. Mesmo com a população global ainda em crescimento, o emprego geral continuou a se expandir

Em vez de ser substituídos pelos computadores, os humanos passaram a fornecer a infraestrutura que dá sustentação à computação digital. Apenas pense em quão frustrante seria se você não pudesse “chamar alguém” para consertar o seu computador. Em outras palavras, a humanidade se adaptou.

Os benefícios da revolução robótica

A partir desse panorama, é válido dizer que os temores de economistas, políticos e trabalhadores de que os robôs irão destruir os empregos não apenas são exagerados, como ainda revelam um desconhecimento da história.

A crescente robotização é propícia à criação de novos empregos. Uma abundante criação de empregos sempre foi, em todo lugar e em qualquer período histórico, o resultado de avanços tecnológicos que gradativamente levaram à destruição de trabalhos obsoletos.

Afinal, uma automação agressiva liberta o ser humano do fardo de ter de fazer trabalhos pesados — até então essenciais — e o libera para se aventurar em novos empreendimentos mais produtivos. Tudo isso permite a criação de novos empregos em diferentes áreas e maior produtividade.

Houve uma época em que praticamente todos os seres humanos tinham de trabalhar no campo — querendo ou não — apenas para sobreviver. A tecnologia acabou com a necessidade de os utilizar em trabalhos agrícolas pesados, e os liberou para buscar outras vocações fora do campo.  Foi assim que começou nosso processo de enriquecimento e de melhora no padrão de vida.

A massificação do uso de robôs como mão de obra permitirá que descubramos novas aptidões e novos trabalhos, os quais, no futuro, nos deixarão atônitos ao percebermos o tanto de energia que gastamos com trabalhos monótonos e repetitivos no passado. 

Quais as consequências da atual revolução econômica

Isto é, os “destruidores de emprego” do passado — como o automóvel (que destruiu empregos no setor de carroças), o computador (que destruiu empregos no setor de máquinas de escrever), a luz elétrica (que destruiu empregos no setor de vela) — parecerão ínfimos em comparação.

Sempre tenhamos isso em mente: tudo o que é poupado no processo de produção, inclusive com mão de obra, se transforma em mais capital disponível para novas ideias. 

A robótica gera eficiências que aumentam os lucros, e isso permitirá um enorme surto de investimentos. Estes, por sua vez, nos brindarão com todos os tipos de novas empresas e de avanços tecnológicos.

É impossível haver empresas e empregos sem que antes tenha havido investimentos. E investidores cujo capital cria empresas e empregos são atraídos por lucros.

Se os processos produtivos atuais forem automatizados, e com isso pouparem mão de obra e reduzirem custos operacionais, essa automação irá gerar lucros maciços, os quais poderão ser direcionados e investidos nas empresas e nas ideias do futuro.

Para além da geração de empregos

Essa realidade é frequentemente ignorada por economistas, políticas e comentaristas.  Quase todos analisam o crescimento econômico por meio do prisma da criação de empregos, cuja existência é o pilar do crescimento econômico. 

Porém, é o contrário: se a criação de empregos por si só gerasse crescimento econômico, então a solução seria simples: abolir todos os tratores, carros, lâmpadas, serviços bancários e a internet. Se isso fosse feito, todos nós teríamos de trabalhar. Por outro lado, nossas vidas seriam também muito mais miseráveis.

A realidade é que o crescimento econômico é resultado da produção.  Logo, o crescimento ocorre quando se produz mais com menos. Apenas pense nos países mais pobres e mais atrasados do mundo. Ali, praticamente todo mundo trabalha muito, o dia todo e todos os dias.

Já nos países mais ricos e avançados, e que adotaram as automações do passado, as crianças são livres para usufruir sua infância, os mais velhos são mais saudáveis e capazes de desfrutar sua aposentadoria, e os pais podem dedicar mais tempo à criação de seus filhos.

Tudo isso se deve aos avanços tecnológicos ocorridos ao longo de décadas e que reduziram a necessidade de trabalho braçal. Essa mecanização inundou o mundo com mais abundância em troca de menos trabalho. A robótica fará o mesmo.

Há 20 anos, a maioria de nós praticamente desconsiderava a invenção da internet. Atualmente, milhões de pessoas ao redor do globo trabalham diretamente com ela. E outros milhões têm um emprego relacionado ao crescimento da internet.

Além disso, a produção em abundância possibilitada pelo trabalho mecanizado permitirá que os recursos poupados sejam direcionados à medicina, aos sistemas de transporte e a novos conceitos empresariais, gerando.

Em suma, a tecnologia de hoje, que já é impressionante, parecerá arcaica em comparação.

Expectativas para o futuro do trabalho

Estamos testemunhando a alvorada da revolução robótica. No futuro próximo, os robôs passarão por um crescimento exponencial em termos de suas capacidades e aplicações. 

Dessa forma, a mudança que nos espera também nos oferece um incrível conjunto de oportunidades. Eliminaremos trabalhos perigosos, sujos, insalubres, improdutivos e degradantes, ao mesmo tempo em que poderemos explorar os dois terços da terra inóspitos aos seres humanos.

Os desejos do ser humano são, por definição, ilimitados. Logo, enquanto o capitalismo ainda não houver encontrado uma maneira de satisfazer todos os desejos e de curar todas as doenças, sempre haverá capital buscando novas possibilidades de investimentos e soluções. 

Ou seja, com a automação, a genialidade do ser humano será liberada para se concentrar em uma infinidade de novos hábitos – como o vegetarianismo, por exemplo – e necessidades ainda não atendidos pelo mercado.

Entre as maiores enfermidades, aquele flagelo que é o câncer será atacado por investimentos exponenciais, em conjunto com as mentes bem remuneradas por esses investimentos.

Portanto, não devemos temer a revolução econômica da robótica, mas nos prepararmos para lidar com ela, e aproveitarmos o aumento de bem estar que ela nos proporcionará.

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John Tamny

Por:

Editor do site Real Clear Markets e autor do livro Popular Economics: What the Rolling Stones, Downton Abbey, and LeBron James Can Teach You about Economics.

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