Os ataques de Trump contra a China provam: ele não acredita na Liberdade

//Os ataques de Trump contra a China provam: ele não acredita na Liberdade

Os ataques de Trump contra a China provam: ele não acredita na Liberdade

Há o que políticos falam, o que as pessoas acham que eles falam e acreditam, e, acima de tudo, há o que os políticos efetivamente fazem.

O que o presidente dos Estados Unidos Donald Trump faz na sua guerra comercial contra a China, e agora erguendo tarifas em cima do aço e alumínio do Brasil e da Argentina, demonstram claramente: ele não acredita na liberdade, e sim na mão pesada do estado.

Vamos começar pelo óbvio: Sim, a China é uma ameaça. Trata-se de uma ditadura comunista que espiona pesadamente sua população, exigindo até mesmo reconhecimento facial para que você tenha acesso à internet.

O país também mantém campos de concentração para os Uigures, que podem chegar a 1 milhão de presos. E não podemos deixar passar a repressão violenta que a China está impondo nas manifestações em Hong Kong, incluindo prisões arbitrárias, tortura e espancamentos.

Quanto maior o poder econômico chinês, maior seu poder para manter sua ditadura e repressão. Conter seu poder econômico é fundamental para a manutenção da liberdade no mundo.

Um exemplo simples disso é a “Política de Uma China”. Taiwan é uma ilha independente, com um governo independente e que foi o abrigo de vários dissidentes políticos que fugiram de Mao Tsé-Tung durante a revolução comunista.

Para evitar que esse país seja legitimado e reconhecido oficialmente, a China pressiona duramente todos os países do mundo para que não reconheçam Taiwan, e afirmem positivamente que a China é um país, e que Taiwan é parte dele. Caso um país não faça isso, a China quebrará relações diplomáticas com ele. Funciona.

Isso posto, como então podemos enfrentar esse problema? A “solução” proposta por Trump é uma guerra comercial. Pesadas tarifas contra produtos chineses que querem entrar nos EUA, protegendo a indústria americana contra “invasores”, e assim prejudicando a economia chinesa.

O problema é que essa estratégia falha em reconhecer como esse problema começou em primeiro lugar. E é por isso que ela jamais funcionará.

Precisamos nos perguntar: por que tantas empresas, e especialmente os parques industriais, foram para a China em primeiro lugar? Por que não se transferem para os Estados Unidos, a Europa, África ou América Latina?

Se não entendermos isso, nenhuma quantia de berros, esperneios e sanções poderá resolver o problema.

E, em última análise, essas empresas e indústrias estão na China porque outros países, em especial os mais desenvolvidos, as expulsaram para lá. Isso pode ter sido feito com altos impostos, burocracias de todos os tipos, e barreiras contra a imigração.

Sim, barreiras contra imigração. Veja bem, o mundo está cheio de pessoas que adorariam se mudar para os Estados , Europa ou Japão.

Muitas dessas pessoas estariam dispostas a trabalhar por um salário comparativamente baixo para onde estão, mas muito maior do que de onde vieram.

Ao recusar essas pessoas e ao exigir que sejam pagos no mesmo salário que um local via leis de salário mínimo, esses países privam o mercado de mão de obra.

Ou seja, se você quer um ambiente regulatório mais simples, legislação mais simples, menos impostos e uma mão-de-obra mais barata, a grande jogada era ir para alguma Zona Econômica Especial da China.

Digo “era” porque com o grande crescimento econômico da China os salários subiram muito, tendo passado o salário médio na indústria brasileira.

Agora indústrias estão começando a sair da China, procurando outros lugares com mão-de-obra barata. Estão indo para países como o Vietnã, Malásia, Indonésia e Bangladesh. Isso nem sequer é novidade, já estava sendo discutido no começo da década.

Enquanto isso, o que os países desenvolvidos fizeram? No geral, nada. Continuam não sendo tão atrativos quanto poderiam ser, perdendo a oportunidade de trazer os centros de produção de volta para seu território.

Países subdesenvolvidos também fizeram muito pouco. Vários países na África e na América Latina poderiam instalar várias reformas pró-crescimento e pró-mercado, atraindo uma gigantesca leva de empresas, empregos e desenvolvimento. Pedalaram.

Aí que está a grande oportunidade para Trump, caso ele realmente acreditasse no poder da liberdade. Se acreditasse, reduziria burocracias e regulações violentamente.

Reduziria gastos estatais e impostos, não apenas impostos, o que fez com com que o déficit explodisse para um trilhão de dólares por ano e o governo esteja agora canibalizando capital privado para se sustentar.

Abriria os mercados americanos, tornando-os ainda mais competitivos. Reduziria encargos trabalhistas, aboliria o salário mínimo.

Por fim, abriria o país para a imigração dos milhões de pessoas que lá querem trabalhar e residir.

O que a China poderia possivelmente fazer contra isso? Nada. Não importa o que ela faça, ainda será uma ditadura comunista e os EUA ainda serão um país com maior liberdade, mesmo que em vias de redução.

Isso não poderia ser feito apenas pelos EUA. A Europa poderia fazer o mesmo, porém se recusa terminantemente a adotar reformas pró-mercado. Alguns países do bloco entenderam isso, em especial a Irlanda e Estônia.

A Geórgia pode entrar na conta, se você a considerar como parte da Europa. Mas os países centrais como França, Espanha e Itália, insistem num modelo de intervenção pesada, grande gasto estatal, e de culpar o capitalismo por apresentarem alto desemprego, estagnação em salários e um crescimento pífio.

Mas voltando aos Estados Unidos, o fato de que Trump não usa essa via de mercado e de liberdade para combater a China demonstra claramente que ele não acredita na efetividade da liberdade. O fato de usar a bota pesada do estado no pescoço de quem produz mostra qual é sua ferramenta preferida.

Não podemos dizer que ele quer liberdade, porém não consegue isso por conta de sua oposição. Trump é extremamente vocal sobre o que quer e nunca deixou um politicamente correto ou boas relações com os Democratas interferirem no que ele fala.

Não, Trump insiste em sua rota de protecionismo, insistindo inclusive no absurdo de que as tarifas são pagas pelos chineses, e não pelos americanos. Isso já foi respondido inúmeras vezes, com o adicional de que as tarifas sequer subiram a arrecadação do governo.

O resultado disso é óbvio. A economia mundial se descoordena, todas as cadeias produtivas, não só da China, Estados Unidos ou Brasil, ficam mais ineficientes, e todo o mundo sofre como consequência disso.

É como se Trump tivesse desafiado a China para uma competição de quem bate a cabeça na parede mais forte sem desmaiar, apostando que tem um queixo mais forte. Quem ganha alguma coisa com isso? Talvez o médico dos dois, e quem conseguir vender ingressos para o show.

Mesmo que a China desista, fazendo seja lá qual forem as concessões que Trump venha a exigir, o que ele terá conseguido é um mundo mais pobre até lá, e mais pobre depois.

Isso porque seja lá quais forem as concessões, elas devem ter o efeito de enviar empresas para fora da China, para países onde não querem ir pois não serão tão eficientes. Novamente, todos perdem.

Adicionalmente, Trump terá que pagar o preço político de uma população empobrecida, de um conflito global, mesmo que apenas no comércio, e a consequência eleitoral que isso pode trazer.

Eleitores revoltados podem decidir eleger algum dos malucos à disposição na corrida eleitoral pelos Democratas, o que novamente faria com que todas as pessoas no mundo ficassem mais pobres do que estariam caso contrário.

Finalmente, o leitor pode imaginar que existe outra alternativa para a lógica de Trump: ele entende que sim, a liberdade venceria a guerra contra a China e faria os Estados Unidos voltarem a crescer fortemente.

Só que isso faria com que o estado tivesse menos poder, e Trump pode não gostar disso. Como muitos políticos, mas também muitos aristocratas no geral e empresários grandes, ele pode ter repulsa a noção de um livre-mercado decidindo as coisas, sem o controle de uma pessoa guiando o navio. Assim sendo, Trump rejeita o uso da liberdade.

Mas na prática isso significa a mesma coisa: ele não acredita em liberdade. Ele não acredita que as pessoas devem ter o direito de viver suas vidas em paz, contanto que não agridam ninguém. Ele acredita que a nação deve ser guiada, arrastada se necessário, para a direção que o grande e genial líder acha melhor.

Já vimos essa história antes.

Por | 2019-12-04T15:09:35-03:00 02/12/2019|Política|Comentários desativados em Os ataques de Trump contra a China provam: ele não acredita na Liberdade