Objetivismo: origem, argumentos e princípios

Nos dias atuais, é muito disseminada a crença de que nossas alternativas morais, culturais e políticas estão limitadas às ideias da esquerda secular e relativista; ou às ideias da direita religiosa e absolutista; ou ainda a uma mistura condescendente das duas. A partir da filósofa Ayn Rand, o objetivismo veio para rejeitar esse falso cenário de alternativas pré-fixado oferecer uma visão inteiramente diferente do mundo.

O objetivismo é totalmente secular e absolutista; não sendo de esquerda, nem conservador e tampouco uma mescla destes dois vieses. Ao invés disso, ele reconhece e ressalta a origem e a natureza dos princípios e fundamentos morais de uma sociedade livre e plenamente civilizada.

Do ponto de vista moral, o objetivismo defende as virtudes do auto interesse racional. Entre algumas destas estão: o pensamento independente e a produtividade; a justiça, a honestidade e a auto responsabilidade.

Já do ponto de vista cultural, o objetivismo defende o avanço científico e o progresso industrial; a educação objetiva, oposta à “progressista” ou à baseada na fé; a arte romântica; e, acima de tudo, a reverência pela faculdade que torna todos esses valores possíveis: a razão.

Do ponto de vista político, o objetivismo defende o puro capitalismo laissez-faire – o sistema social dos direitos individuais e do governo estritamente limitado – junto com toda a estrutura moral e filosófica da qual ele depende.

As origens do objetivismo

Rand descreveu o objetivismo como “uma filosofia para viver na Terra.” A razão pela qual ela é uma filosofia para viver na Terra é porque o seu princípio-base é derivado dos fatos observáveis da realidade e dos requerimentos demonstráveis da vida e da felicidade humanas.

Enquanto sistema filosófico, o objetivismo inclui uma visão da natureza da realidade e dos meios de conhecimento e sobrevivência do homem; de uma moralidade adequada e de um sistema social adequado; assim como, da natureza e do valor da arte.

Ayn Rand apresentou esta filosofia em suas muitas obras de ficção e não ficção, tais como A NascenteA Revolta de Atlas e Philosophy: Who Needs It, por exemplo.

Há um amplo leque de assuntos tratados no objetivismo, muito mais do que poderia ser abordado em um único livro, quiçá em um único artigo. Além disso, nem eu nem ninguém – a não ser Rand – poderia falar plenamente pelo objetivismo.

Portanto, o que se segue é uma condensação dos pontos essenciais desta vertente tal como eu a entendo. Logo, qualquer erro nesta apresentação é de inteira responsabilidade minha.

A natureza da realidade

O objetivismo defende que a realidade é um dado absoluto – que os fatos independem das esperanças de alguém. Nesse sentido, existe um mundo desvinculado de nossas mentes ao qual devemos comparar nossas ideias para descobrir se são verdadeiras. E também, para viver, perseguir valores e proteger direitos.

Assim, o objetivismo rejeita a ideia de que a realidade é, em última análise, determinada pela opinião pessoal, convenção social ou “decreto divino”. As ideias ou crenças de um indivíduo não fazem da realidade aquilo que ela é, nem podem alterar diretamente qualquer coisa a respeito dela.

Na prática, ou as ideias correspondem aos fatos da realidade, ou não. Uma pessoa pode pensar que o Sol gira ao redor da Terra (como algumas, de fato, pensam); mas isso não faz com que seja verdade.

Sobre a cultura

Da mesma forma, ideias ou normas aceitas por uma sociedade ou cultura não têm efeito sobre a natureza da realidade. Algumas culturas defendem que a Terra é plana, que a escravidão é boa e que as mulheres são mentalmente inferiores aos homens. Tais crenças não alteram a natureza como ela é; elas a contradizem; são falsas.

Quanto à alegada existência de um ser “sobrenatural” que cria e controla a realidade, não há evidência ou argumento racional em apoio a tal alegação. As coisas na natureza podem ser evidência apenas da existência de coisas na natureza. Por exemplo, o registro fóssil é evidência para a evolução; não para coisas “fora da natureza”, “acima da natureza” ou “além da natureza”.

Visto que a natureza é tudo o que há; é a soma daquilo que existe; qualquer coisa “fora da natureza” seria alguma coisa “fora da existência”. Então, a natureza não é evidência da existência de uma “sobrenatural”.

Não há evidência para a existência de um ser “sobrenatural”; existem apenas livros, tradições e pessoas que dizem que ele existe. Afirmações livres de evidência, apelos à tradição e à autoridade não são argumentos racionais; são falácias nos livros-texto de lógica.

Em suma, nem crenças individuais, nem consenso generalizado, nem a vontade de um ser “sobrenatural” têm qualquer efeito sobre a natureza real do mundo. A realidade não é criada ou controlada por consciências.

Vivendo a realidade

A realidade simplesmente é. A existência simplesmente existe – e tudo nela é algo específico; tudo é aquilo que se é e pode agir apenas de acordo com a sua identidade.

Logo, uma rosa é uma rosa; ela pode florescer; ela não pode falar. Uma ditadura é uma ditadura; ela destrói a vida; ela não pode promover a vida. Fé é fé; leva a crenças sem fundamento e não pode fornecer conhecimento.

O significado prático desse ponto é que se as pessoas querem atingir seus objetivos, elas devem reconhecer e abraçar a natureza da realidade.

A realidade não se curva aos nossos desejos; nós é que devemos nos conformar às suas leis. Se quisermos conhecimento, devemos observar a realidade e pensar; caso almejemos riqueza, devemos produzi-la; se desejamos aproveitar a vida, devemos pensar, planejar e agir de forma apropriada.

Por fim, se quisermos liberdade, devemos identificar e lutar por ela. Pois não podemos atingir tais objetivos desejando, votando ou rezando.

O meio de conhecimento do homem

O objetivismo sustenta que a razão – a faculdade que opera por meio da observação e da lógica – é a maneira de os seres humanos obterem conhecimento. Isto é, ao percebermos a realidade com nossos cinco sentidos, nós formamos conceitos e princípios. Depois, verificamos em nossas ideias a consistência destes com a realidade, e corrigimos quaisquer contradições que descobrimos em nossos pensamentos.

Essa é a forma como cientistas descobrem fatos em vários campos de estudo, desde os princípios da agricultura e a existência dos átomos, à estrutura do DNA. É também como inventores e engenheiros projetam máquinas e dispositivos que facilitam nossas vidas.

A razão é o meio pelo qual todos os seres humanos, independente da idade, aprendem sobre o mundo, sobre si mesmos e sobre suas necessidades. Assim, todo o conhecimento humano é um produto da observação perceptual e da inferência lógica a partir dela.

Por esse motivo, o Objetivismo rejeita todas as formas de misticismo – a ideia de que o conhecimento pode ser adquirido por meios não sensoriais e não racionais. Em contrapartida, o objetivismo igualmente rejeita o ceticismo – a ideia de que algum conhecimento não pode ser adquirido por nenhum meio.

Afinal, o ser humano claramente pode adquirir os mais diversos tipos de conhecimento. Ele já o adquiriu antes e continuará a adquiri-lo; isso é evidente pelo fato de tudo o que o homem já realizou até aqui. Basta que utilize a lógica para saber o que é verdadeiro e correto.

A natureza e o meio de sobrevivência do homem

O objetivismo defende que o ser humano tem livre-arbítrio – a capacidade de pensar ou não pensar; de usar a razão ou não usá-la; de seguir os fatos ou seguir os sentimentos.

Portanto, uma pessoa não tem a obrigação de usar a razão; essa escolha cabe a ela fazer. Entretanto, seja qual for a escolha de um indivíduo, mantém-se o fato de que ele é um animal racional, sendo a razão seu meio básico de sobrevivência. Logo, uma pessoa que se recusa a usar a razão não pode viver e progredir.

Na prática, o ser humano sobrevive pela observação da realidade, identificando a natureza das coisas, descobrindo relações causais e fazendo as conexões lógicas necessárias para produzir as coisas das quais ele necessita para viver.

À medida que uma pessoa escolhe usar a razão, ela é capaz de identificar e perseguir aquilo de que precisa para a sua sobrevivência e à sua felicidade. Entre estas “coisas” estão: conhecimento, alimento, abrigo, cuidados médicos, arte, recreação, romance e liberdade.

Por outro lado, ao passo em que uma pessoa opta por não usar a razão, ela é incapaz de identificar ou perseguir esses requisitos. Então, ou ela morrerá ou sobreviverá parasitariamente das mentes daqueles que optaram usar a razão. Em qualquer caso, a razão é o meio básico de sobrevivência do ser humano e o livre arbítrio é a essência da sua natureza.

A corrupção

O objetivismo rejeita a noção de que a natureza do ser humano é inerentemente corrupta. Ideia que tem base tanto no “pecado original” quanto na visão hobbesiana, que trata o caráter das pessoas necessariamente como depravado ou bárbaro.

No entanto, o objetivismo também rejeita a ideia de que o ser humano não tem qualquer natureza. Por exemplo, a interpretação distorcida, moderna, do homem como uma “folha em branco”. Isso porque tal ideia faz do caráter uma consequência de forças sociais como, por exemplo, a criação familiar e as condições econômicas.

Na verdade, o caráter de uma pessoa não é inerentemente ruim, nem o produto de forças sociais. Pelo contrário, é uma consequência de suas escolhas. Se um indivíduo escolhe encarar os fatos, pensar racionalmente, ser produtivo e, dessa forma, desenvolver um bom caráter, isso será sua realização.

Assim, caso um indivíduo escolha não encarar os fatos, não pensar, não produzir e assim por diante, a construção de um mau caráter será inteiramente sua culpa.

Por fim, todos os seres humanos têm livre-arbítrio. E esse fato é o que dá origem à sua necessidade da moralidade: um código de valores para guiar suas escolhas e ações.

A moralidade adequada

O objetivismo defende que o propósito da moralidade é fornecer às pessoas orientação, por meio de princípios, para a vida e a realização da felicidade na Terra. O padrão de valor moral adequado, portanto, é a vida do homem. Isso significa que os requerimentos factuais de sua vida são estabelecidos pela sua natureza.

Os seres humanos são indivíduos, cada um com seu próprio corpo, sua própria mente e sua própria vida. Esse padrão diz respeito a todos os seres humanos enquanto indivíduos. Logo, uma pessoa não é uma engrenagem em um aparelho coletivo.

De acordo com esse princípio, o bem é aquilo que sustenta ou promove a vida de um indivíduo. Já o mal é aquilo que a retarda ou destrói. Assim, ser moral consiste em tomar as ações necessárias para sustentar e promover a própria vida.

Ações tais como pensar racionalmente e planejar o futuro, ser honesto e ter integridade, por exemplo. Em resumo, o objetivismo defende que ser moral consiste em ser racionalmente egoísta.

O egoísmo racional

Essa é a peça central do objetivismo, defendendo que cada indivíduo deve agir em seu próprio interesse, sendo o devido beneficiário de sua própria ação moral. Esse princípio é o reconhecimento do fato de que, a fim de viver, as pessoas devem desempenhar ações auto interessadas e colher os benefícios disso. A vida humana requer egoísmo. (Eu uso “egoísmo racional” e “egoísmo” mutuamente por razões que se tornarão claras).

Nesse sentido, o objetivismo rejeita a moralidade do altruísmo – a ideia de que ser moral consiste em se sacrificar servindo aos outros. Nós também rejeitamos a ideia de que a predação – o sacrifício dos outros para o suposto benefício particular – pode promover a própria vida e felicidade.

Por fim, o objetivismo também rejeita o hedonismo – a ideia de que ser moral consiste em agir de qualquer forma que lhe dê prazer, ou pelo que lhe dê vontade de fazer.

Sobre o altruísmo

Ao contrário da concepção errônea amplamente difundida, não é a moralidade de “ser agradável às pessoas” ou “fazer alguma coisa pelos outros”. Na verdade, é a moralidade do auto sacrifício – isto é, de servir aos outros à custa dos valores que servem à sua própria vida.

O princípio básico do altruísmo é que, para ser moral, uma ação deve ser abnegada. Ou seja, à medida que uma pessoa age abnegadamente, ela é moral. Se ela abre mão de um valor em troca de nenhum ganho, ela está sendo moral; se ela ganha algo com a ação, ela não está sendo moral.

Por exemplo, se um trabalhador voluntário abre mão do seu tempo e esforço em troca de absolutamente nada, ele está sendo moral. Se um desenvolvedor de software cria um produto que as pessoas amam, comercializando-o com elas com vistas ao lucro, ele não está sendo moral. Assim diz o altruísmo. Mas não é o que diz o egoísmo.

O egoísmo, que também é amplamente mal interpretado, não é a moralidade de “apunhalar as pessoas pelas costas para conseguir o que se quer” ou “agir de acordo com desejos incontrolados”. Essas são caricaturas do egoísmo perpetradas pelos defensores do altruísmo que querem que as pessoas acreditem que as únicas alternativas são: sacrificar a si mesmo ou sacrificar os outros. Essas, de acordo com o objetivismo, não são as únicas alternativas.

O egoísmo é a moralidade da negação do sacrifício. Ele rejeita todas as formas de sacrifício humano – tanto o auto sacrifício quanto o sacrifício dos outros – como uma questão de princípio. Ele defende que ser moral consiste em perseguir racionalmente os valores que promovem nossa vida, não sacrificando a si ou os outros no processo.

O egoísmo defende o princípio da negação do sacrifício – a ideia de que nunca se deve abrir mão de um valor maior em prol de um valor menor. Esse princípio é o reconhecimento do fato de que desistir dos requerimentos da própria vida e felicidade é se opor à própria vida e felicidade.

Toda escolha é uma perda

É claro, a vida requer que as pessoas regularmente abram mão de valores menores em prol de maiores; entretanto, esses são ganhos, não sacrifícios. Um sacrifício é desistir de algo que é mais importante para a própria vida e felicidade em prol de algo que é menos importante para a própria vida e felicidade; assim, um sacrifício resulta em uma perda líquida.

A fim de viver, as pessoas devem perseguir valores, e não abrir mão deles. Portanto, de acordo com o egoísmo, à medida que uma pessoa persegue os valores que promovem sua vida e se recusa a sacrificá-los, ela está agindo moralmente; à medida que não, ela não está agindo moralmente.

Se ela produz valores e os permuta com os outros por um ganho (seja material ou espiritual), então ela está sendo moral; ela está obtendo os valores dos quais a sua vida e a sua felicidade dependem. Se ela abre mão dos seus valores em troca de ganho nenhum (nem material, nem espiritual), então ela está sendo imoral; ela está renunciando aos valores dos quais a sua vida e a sua felicidade dependem.

Sob esse ponto de vista, um desenvolvedor de software que comercializa seu produto com os outros em busca de lucro está sendo moral. Um trabalhador social voluntário que abre mão de seu tempo e esforço em troca de nada está sendo imoral com isso.

Da mesma maneira, um pai que valoriza a educação de seu filho mais do que valoriza um carro novo esportivo, e que desiste do carro em troca de pagar pela educação, está sendo moral; um pai que valoriza a educação mais do que o carro, mas que abre mão da educação para poder comprar o carro, está sendo imoral.

Similarmente, um soldado que luta pela liberdade sob a premissa de que uma vida sem liberdade não vale a pena ser vivida (“Dê-me liberdade, ou dê-me a morte!”) está sendo moral; aquele que luta em obediência aos mandamentos de um alegado ser “sobrenatural”, não está. E assim por diante.

Egoísmo x Altruísmo

Existe uma diferença radical entre permutar valores por ganhos e abrir mão de valores por nada. O egoísmo defende o primeiro; o altruísmo defende o segundo.

O egoísmo é derivado dos requerimentos da vida humana na Terra. Assim, as pessoas podem praticá-lo consistentemente e devem fazer isso – se elas quiserem viver e fazer o máximo das suas vidas.

Já o altruísmo não pode ser praticado consistentemente. Uma pessoa que aceita a moralidade do altruísmo deve burlá-la simplesmente para permanecer viva. Por exemplo, ela deve egoisticamente ganhar um salário para que possa comprar comida.

Dado os diversos valores dos quais a vida e a felicidade humana dependem – materiais e espirituais – as pessoas precisam de uma grande medida de orientação ao fazer escolhas e desempenhar ações.

Isto é, elas precisam de princípios morais condutivos ao objetivo de viver de forma plena e feliz. Em resposta a essa necessidade, o egoísmo fornece todo um sistema de princípios integrados e não contraditórios, cujo único propósito é ensinar o homem a viver e apreciar a si mesmo.

Em resposta a essa mesma necessidade, o altruísmo diz: não seja egoísta; sacrifique seus valores; abra mão de suas necessidades. Se as pessoas quiserem viver e ser felizes, apenas uma dessas moralidades lhe servirá.

O altruísmo não é bom para as nossas vidas

Se aceito e praticado consistentemente, ele leva à morte. Isso foi o que Jesus fez. Se aceito e praticado inconsistentemente, ele retarda a nossa vida e leva ao sentimento de culpa. Isso é o que faz a maioria dos altruístas.

Um altruísta pode não morrer por causa de sua moralidade – contanto que ele seja infiel a ela – mas também não viverá plenamente. Na medida em que uma pessoa age contra os requerimentos da vida e da felicidade, ela não viverá ao máximo.

O egoísmo é bom para a vida das pessoas. Se aceito e praticado consistentemente, ele leva a uma vida de felicidade. Se aceito e praticado inconsistentemente – bem, não há razão para ser inconsistente aqui.

Por que não viver uma vida de felicidade? Por que se sacrificar em primeiro lugar? Qual é a razão para fazer isso? Em toda a história da filosofia, o número de respostas racionais para essa pergunta é exatamente zero.

Não existe razão para agir de maneira autossacrificial, por isso ninguém jamais conseguiu apresentar uma razão para tal. Nem há qualquer justificativa racional para sacrificar os outros, por isso ninguém jamais apresentou uma razão para isso também.

Sobre a felicidade

A predação (o sacrifício dos outros em prol do alegado próprio benefício) não é de interesse maior para nós que o altruísmo. A felicidade, assim como tudo no mundo, é algo específico; tem uma natureza.  A felicidade é o estado mental que se segue da busca bem-sucedida por valores racionais promotores da vida.

felicidade genuína advém da realização de valores, não do roubo; de pensar racionalmente e ser produtivo, não da renúncia da própria mente e de transformação subsequente em um parasita do pensamento e do esforço dos outros; da conquista romântica e de fazer amor apaixonadamente, não do estupro de pessoas.

Transformar-se intencionalmente em um parasita das mentes, dos esforços e dos corpos de outras pessoas – reduzir-se deliberadamente ao estado de uma criatura sub-humana – é a coisa mais abnegada que uma pessoa pode fazer. Tais predadores escolheram ignorar ou negar esse fato, mas isso não os liberta dele.

Assim como o Sol não gira ao redor da Terra, igualmente, uma pessoa não pode realizar a felicidade sacrificando outras pessoas.

As alegações dos predadores ao efeito de que eles conseguem realizar a felicidade sacrificando outras pessoas são apenas isso: alegações. Elas não são baseadas em evidências, pois o sorriso temporário e o dinheiro roubado de um criminoso não são evidências da sua felicidade.

Além do mais, tais alegações contradizem flagrantemente o fato demonstrável de que o pensamento racional e a realização produtiva; a autoestima genuína (merecida) e a certeza do próprio valor moral são requerimentos para a felicidade.

Entretanto, em última análise, em uma sociedade racional, as evasões e as alegações dos predadores são de pouca preocupação às pessoas boas. Como indicarei na seção sobre política, uma sociedade racional tem meios eficientes para lidar com tais criaturas de forma adequada.

Sobre o hedonismo

Só por que alguém obtém prazer fazendo alguma coisa ou sente vontade de fazê-la não significa que isso seja do seu maior interesse. É por esse motivo que pais racionais encorajam seus filhos a pensar antes de agir e a reconhecer que escolhas têm consequências além do momento imediato. Assim como, de aprender e a abraçar os requerimentos verdadeiros e de longo prazo da vida e da felicidade humanas.

É também por esse motivo que adultos racionais não agem de acordo com qualquer impulso ou desejo, e por que vagabundos e viciados em drogas não são pessoas felizes.

A felicidade genuína vem da identificação e da busca dos requerimentos materiais e espirituais abrangentes da nossa vida, definidos pela nossa natureza.

Enquanto o egoísmo fornece um sistema inteiro de explicações e princípios racionais, o hedonismo diz: não preste atenção na sua natureza ou necessidades; faça aquilo que lhe der prazer. O hedonismo, em outras palavras, sob o disfarce do auto interesse, aconselha a autodestruição.

Tudo se resume aos padrões. O padrão de valor de acordo com o altruísmo é o auto sacrifício; de acordo com o predador é o seu capricho. Ou com o hedonista é o prazer ou os sentimentos. E o padrão de valor de acordo com o objetivismo e o egoísmo racional são os requerimentos da vida humana.

Pelo padrão da vida humana, cada indivíduo deve viver sua própria vida para o seu próprio bem. Ele deve pensar racionalmente e perseguir os objetivos que promovem sua própria vida, tais como: uma carreira maravilhosa; um relacionamento romântico apaixonado; e atividades recreativas apreciáveis, o que inclui todas as formas de arte.

A natureza e o valor da arte

O objetivismo defende que a arte é um requerimento da vida e da felicidade humanas. A arte é uma recriação seletiva da realidade de acordo com as convicções mais fundamentais, mais profundas, de um artista. Tal como a sua visão da natureza e do universo, da natureza do ser humano, do que é cognoscível, do que é mais importante e do que é possível.

O propósito da arte é dar forma física a tais abstrações profundas, torná-las concretas e observáveis e, desse modo, fornecer às pessoas uma representação perceptual de uma ideia particular ou visão do mundo. Isso permite que as pessoas examinem a ideia como uma realidade física e assim entendam melhor o que ela significa na prática.

Nesse sentido, a arte fornece orientação espiritual e combustível à vida e à realização dos nossos próprios objetivos. Seja uma escultura de uma bailarina representando a habilidade e a graça possível ao ser humano; ou um livro de ficção sobre grandes industriais que exibe a possibilidade da realização produtiva.

Além disso, como tudo no mundo, a arte é algo específico. Portanto, ela é tanto cognoscível como definível. E, como tudo criado pelo ser humano, é julgada adequadamente como boa ou ruim pelo padrão dos requerimentos da vida humana na Terra.

Assim, o objetivismo rejeita a ideia de que arte é o que quer que qualquer autoproclamado ou alegadamente “talentoso” artista despeje ou disponha em uma galeria. Nem tinta salpicada aleatoriamente sobre uma lona, nem uma roda de bicicleta “inteligentemente” presa a um banco, nem uma salada de palavras cuidadosamente impressa em uma página são arte.

Tais coisas não são arte “ruim”; elas absolutamente não são arte. A arte não é uma regurgitação de impulsos irracionais, mas a recriação seletiva da realidade.

Razão e criação

Visto que o homem apreende a realidade somente por meio da razão, a criação de arte requer o uso intenso dessa faculdade. Ou seja, equer pensamento, conexões mentais e a transformação de conceitos e valores altamente abstratos em material da realidade perceptual.

Essa não é a província da palhaçada; é a província da genialidade – e deve ser reconhecida e protegida como tal.

O objetivismo também rejeita a ideia de que, dentro do âmbito daquilo que é arte, não há critérios objetivos para julgar certas obras como melhores que outras.

Como todo valor legítimo, uma obra de arte – seja uma pintura, escultura, romance, filme, sinfonia – é um valor precisamente na medida em que serve a algum requerimento da vida de um ser racional.

Enquanto há muito espaço para diferentes gostos dentro do âmbito da arte genuína, também existe objetivamente dentro desse âmbito melhores ou piores obras de arte – melhores ou piores pelos padrões da racionalidade e das necessidades espirituais do homem.

Por exemplo, desde que a essência da natureza do homem é de que ele possui livre-arbítrio, a melhor arte – a arte romântica – reflete esse fato. Ela retrata o homem como agente de sua própria vida, capaz de remodelar seu mundo de acordo com seus valores, à maneira da alma autocriada que ele realmente é.

Arte, felicidade e capitalismo

A boa arte – como tudo mais de que a vida e a felicidade humanas dependem – é um produto do pensamento racional e do esforço criativo. Essa é mais uma razão para abraçar e defender o capitalismo – e a inteira filosofia da razão na qual ele se baseia.

Em uma sociedade racional, capitalista, os artistas são completamente livres para pensar e criar como julgarem melhor; nada se põe no caminho deles. Afinal, o direito à liberdade de expressão é absoluto.

Desde que o princípio social que orienta tal sociedade é o comércio – e uma vez que não há financiamento “público” das artes – os artistas que produzirem obras que as pessoas racionais valorizam tendem a prosperar. Em contrapartida, quem produz obras que as pessoas racionais não valorizam tendem a encontrar outras profissões.

Um sistema social adequado

No campo da política, o objetivismo reconhece que para desempenhar as ações que promovem a sua vida, uma pessoa deve ser livre para agir assim; ela deve ser livre para agir de acordo com o julgamento de sua mente, o seu método básico de viver.

A única coisa que pode impedi-la de agir assim são outras pessoas, e a única maneira pela qual podem impedi-la é por meio da força física. Assim, a fim de viver pacificamente em sociedade – como seres civilizados, não como bárbaros – as pessoas devem se abster de usar força física umas contra as outras. Esse fato dá origem ao princípio dos direitos individuais, que é o princípio do egoísmo aplicado à política.

O princípio dos direitos individuais é o reconhecimento do fato de que cada pessoa é moralmente um fim em si mesmo e não um meio para os fins dos outros. Portanto, ela deve moralmente ser deixada livre para agir de acordo com o seu próprio julgamento tendo em vista o seu próprio bem, contanto que ela não viole esse mesmo direito das outras pessoas.

Este princípio não é uma questão de opinião pessoal, convenção social ou “revelação divina”. Refere-se a uma questão dos requerimentos factuais da vida humana em um contexto social.

Uma sociedade moral – uma sociedade civilizada – é aquela na qual a iniciação de força física contra seres humanos é proibida por lei. E o único sistema social em que tal força é proibida dessa forma – consistentemente e por princípio – é o puro capitalismo laissez-faire.

Sobre o capitalismo

Ao contrário das más informações disseminadas, o capitalismo não é meramente um sistema econômico. Este consiste no sistema social dos direitos individuais, incluindo os direitos de propriedade, protegidos por um governo estritamente limitado.

Em uma sociedade laissez-faire, se as pessoas quiserem lidar umas com as outras, eles só podem fazer isso em termos voluntários, por concordância não coagida. Se elas quiserem receber bens ou serviços das outras, elas podem oferecer valor em troca de valor para benefício mútuo. Entretanto, elas não podem buscar obter qualquer valor das outras por meio de força física.

As pessoas são totalmente livres para agir de acordo com seu próprio julgamento e assim produzir, manter, usar e dispor de sua propriedade da forma que julgarem mais apropriada. Nesse sentido, a única coisa para a qual elas não são “livres” é a violação dos direitos das outras pessoas.

Em uma sociedade capitalista, ninguém pode legalmente violar os direitos individuais, nem mesmo o governo.

Assim, o único propósito do governo em tal sistema é proteger os direitos individuais dos seus cidadãos por meio da polícia. Por exemplo, para lidar com criminosos domésticos e agressores estrangeiros; e oferecer tribunais de justiça.

Sobre o governo

Enquanto o governo detém um monopólio sobre o uso legal da força, ele é constitucionalmente proibido de usar força iniciatória em qualquer que seja a forma. Além disso, constitucionalmente, este é obrigado a usar força retaliatória quando necessário para proteger os direitos dos seus cidadãos.

Por exemplo, o governo é proibido de:

  1. tomar a propriedade de pessoas inocentes (ex: o domínio eminente);
  2. obrigar a maternidade (ex: as leis antiaborto);
  3. redistribuir riqueza à força (ex: a política do bem-estar social);
  4. ditar os termos de contratos privados (ex: o salário mínimo e as leis antitrustes);
  5. restringir a liberdade de expressão (ex: a “reforma” do financiamento de campanhas);
  6. impedir o avanço científico (ex: as pesquisas com células-tronco embrionárias);
  7. forçar os cidadãos a financiar organizações religiosas (ex: as iniciativas com base na fé);
  8. impor serviço “comunitário” ou “nacional” (ex: “voluntarismo” obrigatório).

Simultaneamente, o governo tem a obrigação de fazer cumprir leis contra homicídios, assaltos, estupros, fraudes, calúnia, entre outros crimes. Além disso, o governo também tem a obrigação de livrar-se sumariamente de agressores estrangeiros que iniciam ou ameaçam iniciar força contra os seus cidadãos e seus interesses.

O genuíno capitalismo – não o sistema híbrido dos Estados Unidos de hoje – é o único sistema social que proíbe consistentemente a todos, incluindo ao governo, de atacar pessoas ou roubar sua propriedade.

É o único sistema que respeita e protege os direitos individuais como uma questão de princípio inquestionável. Em outras palavras, o capitalismo é o único sistema que institucionaliza os requerimentos da vida humana em um contexto social. Nenhum outro sistema social na Terra faz isso. Assim, se a vida do homem é o padrão de valor moral, o capitalismo é o único sistema social moral.

Em oposição ao conservadorismo

Ao advogar o capitalismo laissez-faire, o objetivismo se opõe à política do conservadorismo – tal como a noção de que somos “responsáveis pelo nosso irmão” e, portanto, devemos nos sacrificar servindo a estranhos.

Dessa forma, a coação de empresários bem-sucedidos em prol do “pequeno” parte da premissa de que o segundo não é capaz de obter sucesso a partir de seu próprio pensamento racional.

Por exemplo, a consciência de que os alunos de escolas públicas devem ser obrigados a rezar; ou o entendimento de que os cientistas devem ser proibidos de se dedicar às pesquisas com células-tronco embrionárias, porque “nós não devemos brincar de Deus”.

O objetivismo também rejeita a noção conservadora de que homossexuais devem ser proibidos de experimentar os prazeres do sexo, porque “Deus desaprova”; ou a ideia de que as forças armadas americanas devem se sacrificar para a promoção da “liberdade” ou da “democracia”.

Contra o progressismo

O objetivismo se opõe à política da esquerda – tal como a noção de que as pessoas têm o “direito” de receber bens ou serviços. Afinal, isso obviamente exige que alguém seja obrigado a fornecê-los.

Além disso, são rejeitadas: a noção de que agências do governo, empresas privadas e escolas devem ser obrigadas a implantar políticas de “ação afirmativa” e de “formação para a diversidade”; e a consciência de que os alunos de escolas públicas devem ser doutrinados com o relativismo do “multiculturalismo” ou do “ambientalismo”;

Assim como, o entendimento de que as pessoas devem ser obrigadas a financiar ideias ou arte que desaprovam. Por exemplo, via estações de rádio “públicas” ou concessões “públicas”. E a noção de que os Estados Unidos não têm o direito de “interferir com” ou “impor valores Ocidentais” a regimes que são responsáveis pelo massacre de americanos.

Considerações finais

De acordo com o objetivismo, a busca da liberdade depende da ética do egoísmo. Este, por sua vez, depende da filosofia da razão, que é fundamentada na natureza básica da realidade.

Os objetivistas são, como dizia Rand, “radicais pelo capitalismo”, absolutistas e fundamentalistas pela liberdade. É assim porque são radicais pela razão. E, portanto, a verdadeira política da liberdade é a política do autointeresse.

Em suma, os princípios-chave do objetivismo são:

  1. a realidade é um absoluto;
  2. a razão é o único meio de conhecimento do homem;
  3. o homem possui livre-arbítrio (a escolha de pensar ou não);
  4. o autointeresse é moral;
  5. os direitos individuais são absolutos;
  6. o capitalismo é moral;
  7. a boa vida depende da boa arte.

Tradução por Breno Barreto e revisão por Matheus Pacini. Artigo publicado originalmente em The Objective Standard.

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Craig Biddle

Por:

Editor-presidente do The Objective Standard.

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