O que picanha e o frango ensinam sobre educação?

/, Filosofia/O que picanha e o frango ensinam sobre educação?

O que picanha e o frango ensinam sobre educação?

“Frango assado é melhor que picanha”. Bastou um tweet meu sobre para que muita gente discordasse cometendo um grande erro de comparação, alegando que a picanha em geral é melhor que o frango em geral. O mesmo erro é cometido quando se fala de educação e a suposta necessidade de o estado gastar mais com isso.

De acordo com o censo norte-americano de 2012, quem se forma numa universidade ganha em média 73% a mais que quem não se forma. Já quem possui formação apenas até o ensino médio ganha 30% a mais do que quem não se forma. Isso sem entrar no mérito dos vários outros benefícios individuais e sociais que a educação traz. Segue-se que o estado deve gastar pesadamente em educar as pessoas, e que estudar significa ganhar mais, correto? Não necessariamente, e você pode bem se surpreender.

O problema da comparação entre o frango assado e a picanha é que as pessoas raramente lembram de contrastar a habilidade do cozinheiro, preconceitos populares sobre frango e picanha e outros fatores. Quase todos comparam “o frango assado médio” com “a picanha média”, mas isso não é uma boa comparação.

Primeiro: O frango é uma carne muito mais barata, e por isso tende a ser mais servida e preparada por cozinheiros de menor qualidade, em estabelecimentos de menor qualidade. A picanha, por ser muito mais cara, é preparada por melhores cozinheiros em melhores churrascarias. Segue-se que “a picanha média” acabará sendo melhor que “o frango assado” médio.

Segundo: Picanha é chique, frango não, e isso afeta a sua experiência. Questionar a supremacia da picanha bate de frente com o ideário popular. Picanha é bom porque é bom, ninguém vai discordar disso, nenhuma pessoa razoável, sensata e em plena posse de suas faculdades mentais discordaria disso. Como que algo tão caro, bem embalado, bem falado e tão amado seria ruim? Inaceitável.

Terceiro: A picanha é mais frequentemente servida em churrascarias, com o garçom mais bem arrumado, pinça para pegar seu pedaço cortado com uma bela faca. Isto é, há maior expectativa prévia, e com um olhar mais atento para a qualidade: não se paga apenas pela picanha em vez do frango, mas pela “experiência”.

Quarto: Quando você está ao redor de uma picanha, mais provavelmente está cercado de pessoas que gosta muito. Quem come picanha sozinho em casa, no meio da semana? O mesmo não pode ser dito da pessoa média que come um frango assado. Há toda uma experiência em um dado ambiente envolvido. Precisamos compará-los tentando retirar esses fatores e variáveis, comparando as carnes preparadas pelo mesmo indivíduo.

Como seria isso um teste justo? Alex Atala é um famosíssimo chef brasileiro, um dos melhores do mundo, e serve uma feijoada brasileira por centenas de reais o prato. Pessoas de todo o mundo esperam meses de reserva para comer uma. Não é por acaso. A feijoada dele é muito melhor do que a sua, ou de praticamente todo mundo que você conhece ou vai conhecer.

Caso Atala resolvesse fazer um prato de frango assado e uma picanha, com toda a pompa de um dos melhores restaurantes do mundo, pessoas amadas ao seu redor, além de um bom vinho – e uma bela conta no fim – várias vantagens estatísticas da picanha desapareceriam. Isso seria ainda mais interessante se conseguíssemos que os 50 ou 200 melhores chefs do mundo fizessem esses dois pratos, nos dando maior base para comparação por evitar erros por fatores pontuais desse ou daquele chef. E aposto que o frango assado levaria o dia.

Voltemos para a educação. Começamos pelo fato simples: a pessoa média que não se forma na faculdade ou larga o ensino médio não é a mesma pessoa que termina um doutorado. Eles possuem formação e habilidades diferentes. Não apenas o QI muda, mas também há diferenças em confiança pessoal, habilidades sociais, organização, motivação e pessimismo, estrutura familiar e social, e tantas coisas mais. O que acontece quando comparamos os resultados de pessoas similares em habilidade?

Em seu lindamente intitulado livro “The Case Against Education” (tradução: O Caso Contra Educação), no terceiro capítulo, Bryan Caplan nos mostra que quando corrigimos estatisticamente para vários fatores, o benefício da educação é severamente reduzido.

Para começo de conversa, cada ponto de aumento em QI aumenta sua renda em 1%, e quando se compara pessoas de mesmo QI, o ganho salarial com educação é reduzido em 18%.

Quando é usado o AFQT (Armed Forces Qualification Test), um teste militar para QI conhecido por sua alta qualidade, o ganho extra de educação cai entre 20% e 30%. Adicionar uma correção simples para a habilidade matemática da pessoa reduz o ganho salarial em 40-50% para homens e 30-40% para mulheres. Correções apenas para matemática reduzem o ganho salarial extra de educação para homens em 25% a 32% e para mulheres em 4% a 20%.

É importante notar que isso não só significa que matemática é uma habilidade de trabalho, pois também afeta sua capacidade de calcular o efeito de escolhas de vida e investir melhor, o que terá resultados nos seus ganhos pessoais.

Internacionalmente, correções de habilidades cognitivas reduzem o ganho de salário por educação em 20%. A estimativa séria mais alta para a redução do ganho salarial da educação depois de ser corrigida para matemática, leitura, vocabulário, percepção pessoal, avaliação dos seus professores e histórico familiar é de 50%. Ouch.

Quando se corrige para fatalismo – a sua percepção do quanto sorte e esforço afetam sua vida – autoestima e o AFQT, a renda média cai 30%. Corrigir apenas para tipos de personalidade reduz o ganho extra em 13%. A maior estimativa quando se corrige inteligência, histórico e atitude pessoal é que isso reduz o ganho puro da educação em 37%.

Então, de maneira geral, a correção para habilidade responde por, largamente falando, 30% do benefício da educação. Adicionar matemática e leitura, que podem ser muito rapidamente e a baixo custo ensinados via internet, leva isso para mais ou menos metade. O resto então é educação certo? Calma que ainda não acabamos.

A correção para habilidade é apenas um dos fatores da chamada “teoria de sinalização”, que diz que parte do valor da educação não é a educação em si, e que existem outros fatores que o tornam um funcionário melhor. O exemplo mais simples é que diploma sinaliza para o empregador e para a sociedade que aquela pessoa é mais habilidosa, inteligente, conformista, é capaz de chegar na hora para as aulas e tantas coisas mais. Você ganha mais porque se formou, não necessariamente porque aprendeu alguma coisa.

Outro fator é que profissões que possuem formação superior em muitos casos são restritas artificialmente pelo estado, reduzindo a competição. São as carteirinhas de conselho e outras exigências, além de barreiras contra entrada de profissionais estrangeiros de vários tipos. Novamente citando Bryan Caplan, 12% dos que largaram o ensino médio precisam de licença para trabalhar nos nos Estados Unidos. Para profissões que exigem formação superior isso sobe para 44%. Isso faz uma considerável diferença: profissões que exigem licença oferecem uma renda anual 10 a 15% maior.

E existem vários outros fatores para serem levados em consideração, e que artificialmente sobem a recompensa monetária da educação formal, mas a essa altura do texto provavelmente o leitor já entendeu o ponto. Em resumo, Caplan aponta que no mínimo um terço de todo o ganho salarial pela educação é sinalização, os indícios são fortes para que metade do ganho salarial seja sinalização. Pessoalmente, ele crê que isso está muito mais perto de 80%. É importante notar que ele não defende que a educação seja inteiramente inútil. Matemática, leitura e algumas coisas extremamente úteis são ensinadas na escola e nos cursos superiores. O argumento de Caplan não é que educação é um total desperdício de tempo, mas sim que seus benefícios são muito exagerados pelos seus defensores. Por conseguinte, gastar mais em educação não é um gasto tão excelente assim.

Finalmente, é preciso lembrar que muitas das pesquisas citadas se situam entre os anos 1970 e os anos 2000. No período não havia se popularizado uma ferramenta com enorme estoque de ensino disponível e a um preço irrisório quando comparado ao custo de um diploma: a internet.

Vamos fazer algumas contas. A média de mensalidade de um curso universitário no Brasil foi de R$ 898 em 2017. É uma quantia e tanto para se despender ao longo do curso, geralmente em torno de quatro anos. A depender da instituição, custo de vida da cidade e do curso, o valor pode ser bem superior ao da média. Além das mensalidades, ainda é preciso arcar com custos com moradia, transporte e alimentação. Há ainda o fator que a mensalidade do curso pode subir ao longo deste, e que o estudante pode reprovar em matérias, precisando fazê-las novamente.

Veja o caso de Publicidade e Propaganda da PUC São Paulo, cuja mensalidade está em torno de R$ 2.700*. Assumindo que a pessoa apenas colocasse o dinheiro da mensalidade num CDI simples em 2015, que acumulou 51% de retorno até o fim de 2018, teria ao final do período aproximadamente R$ 155 mil, não contando impostos, custos com o banco e outras coisas. Isso seria ainda maior se você hoje colocasse esse dinheiro na Mutual, situação em que é perfeitamente possível obter 30% de rendimento anual, quase triplicando seu dinheiro em quatro anos. Em resumo: um diploma é caro e o custo de oportunidade também.

Do outro lado do ringue temos o Skillshare, em que você ganha os primeiros dois meses grátis e depois paga aproximadamente R$ 50 por mês. Lá você terá acesso a mais de 27 mil cursos diferentes, boa parte de pequena duração e ensinando habilidades práticas. O custo ao longo de quatro anos não chega nem a R$ 3 mil.

Deixando claro: Não estou dizendo que o Skillshare é igual a uma universidade, apenas que é uma alternativa para instrução. Agora vamos pensar: o que aconteceria se uma pessoa investisse esses mesmos 4 anos a apenas ver esses cursos todos, tendo as mesmas habilidades** pessoais de alguém que se formou? Qual seria a diferença de ganho salarial entre os dois? Suspeito que seria muito menor do que é averiguado em estudos de 20 ou 30 anos atrás.

Agora que você sabe disso tudo, podemos nos perguntar: será mesmo que a melhor forma de aumentar a renda das pessoas, melhorar a sociedade e tantas coisas boas que todos queremos é jogar mais dinheiro em educação? Será mesmo que a educação formal e a universidade são tão melhores assim que as outras opções disponíveis? Costumeiramente se compara educação formal versus fazer nada e ficar no seu sofá, mas isso não é uma comparação honesta. Temos de levar em conta todas as alternativas possíveis, e aí o caso em defesa da educação como é hoje fica muito tênue.

Especialmente no caso brasileiro, com a educação controlada pelo estado, planejada centralmente, com pouco espaço para inovação e uma proibição de educação domiciliar, precisamos nos perguntar se jogar mais alguns bilhões nisso realmente terá um resultado grande ou se seria melhor deixar que a inovação tomasse conta e pessoas gastassem de uma maneira diferente.

Só que isso é um ponto sumariamente ignorado. Hoje é opinião pacífica em praticamente qualquer meio de que se deve gastar mais em educação, e nenhuma alternativa é aceitável. Mesmo economistas liberais, daqueles que a esquerda considera párias, escórias, entreguistas neoliberais do pior tipo e financiados por interesses dos banqueiros, concordam com praticamente nenhuma discussão que se deve jogar caminhões de dinheiro na educação para educar o país.

Bryan Caplan discorda, e eu concordo com ele. Precisamos de menos gastos em educação como é hoje e precisamos inventar novos meios de nos educar em habilidades que realmente potencializam nossa renda, satisfação pessoal e tantas coisas mais. O modelo escolar não é totalmente inútil, mas é mais vento do que substância, e precisa desesperadamente de inovação e competição. Simplesmente jogar dinheiro nele não irá mudar esse fato. Chega dessa reverência pela picanha.

*Escolhi a PUCSP por nenhum motivo muito em particular fora ser uma universidade privada numa grande cidade, e porque muitas habilidades ensinadas num curso como esse podem ser ensinadas via cursos digitais. Nada contra, ou a favor da PUCSP ou do curso de publicidade em particular.


**Note-se que criatividade também é uma habilidade, e notoriamente difícil de medir e, naturalmente, de se corrigir estatisticamente. Mesmo uma das pessoas da minha equipe, Luan Sperandio, editor-chefe do Ideias Radicais, que ainda nem se formou em direito, mas é um dos escritores mais lidos da Gazeta do Povo, comentou que mesmo convivendo comigo não conseguiu entender como raios eu faço essas relações entre churrasco e educação. E não, não aprendi isso na escola, foi trabalhando como mágico, uma habilidade que aprendi inteiramente na internet. E eu não faço a menor ideia de como ensinar isso fora exercício constante e interminável.

Por | 2019-06-04T19:37:32-03:00 04/06/2019|Economia, Filosofia|Comentários desativados em O que picanha e o frango ensinam sobre educação?