O que Ludwig von Mises pensava sobre o Nazismo?

Não faltam tentativas de associar autores liberais com o Nazismo, como se o governo ditatorial de Adolf Hitler, com um estado extremamente regulador, fosse uma política defendida por liberais.

A própria associação de ditadura com liberal é um absurdo per si. Nem mesmo a ditadura de Augusto Pinochet no Chile, onde houve uma grande abertura econômica, poderia ser classificada como um sistema livre.

As duas palavras, liberal e ditadura, não cabem na mesma frase, uma é o inverso da outra.Para não restar dúvidas sobre como pensavam os liberais sobre o socialismo e suas ramificações, como o Nazismo na Alemanha, abaixo segue alguns trechos retirados do livro “As Seis lições”, escrito pelo economista Ludwig von Mises.

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A crítica ao intervencionismo

No capítulo 2 do livro, Mises mostra algumas semelhanças entre a Rússia socialista e a Alemanha Nazista, comparando o intervencionismo desses regimes com uma economia de mercado:

“O consumidor americano, o indivíduo, é tanto um comprador como um patrão.  Ao sair de uma loja nos Estados Unidos, é comum vermos um cartaz com os seguintes dizeres: “Gratos pela preferência. Volte sempre”. Mas ao entrarmos numa loja de um país totalitário – seja a Rússia de hoje, seja a Alemanha de Hitler -, o gerente nos dirá: “Agradeça ao grande líder, que lhe está proporcionando isso.” Nos países socialistas, ao invés de ser o vendedor, é o comprador que deve ficar agradecido.  Não é o cidadão quem manda; quem manda é o Comitê Central, o Gabinete Central.”

Sobre a propriedade privada:

Já no capítulo 3, Mises fala que a diferença entre o Nazismo Alemão e Socialismo Soviético só difere nos rótulos, pois na prática significam a mesma coisa:

“O próprio Hitler aplicou-o antes mesmo do início da guerra: na Alemanha de Hitler não havia empresa privada ou iniciativa privada.  Na Alemanha de Hitler havia um sistema de socialismo que só diferia do sistema russo na medida em que ainda eram mantidos a terminologia e os rótulos do sistema de livre economia.  Ainda existiam “empresas privadas”, como eram denominadas.  Mas o proprietário já não era um empresário; chamavam-no “gerente” ou “chefe” de negócios(Betriebsführer).

O filósofo político Friedrich Hayek também escreve em O Caminho da Servidão sobre as raízes socialistas do nazismo.

Sobre a relação de trabalho regulada pelo estado:

Mises também argumenta contra a sociedade ser tão regulada pelo estado que é dividida em castas, como ocorreu no Nazismo:

“Todo o país foi organizado numa hierarquia de führers; havia o Führer supremo, obviamente Hitler, e em seguida uma longa sucessão de führers, em ordem decrescente, até os führers do último escalão.  E, assim, o dirigente de uma empresa era o Betriebsführer.  O conjunto de seus empregados, os trabalhadores da empresa, era chamado por uma palavra que, na Idade Média, designara o séquito de um senhor feudal: o Gefolgschaft.  E toda essa gente tinha de obedecer às ordens expedidas por uma instituição que ostentava o nome assustadoramente longo de Reichs-führerwirtschaftsministerium, a cuja frente estava o conhecido gorducho Göring, enfeitado de joias e medalhas.  E era desse corpo de ministros de nome tão comprido que emanavam todas as ordens para todas as empresas: o que produzir, em que quantidade, onde comprar matérias-primas e quanto pagar por elas, a quem vender os produtos e a que preço.  Os trabalhadores eram designados para determinadas fábricas e recebiam salários decretados pelo governo.  Todo o sistema econômico era agora regulado, em seus mínimos detalhes, pelo governo.”

Sobre o controle pelo estado da atividade econômica: 

“O Betriebsführer não tinha o direito de se apossar dos lucros; recebia o equivalente a um salário e, se quisesse receber uma soma maior, diria, por exemplo: “Estou muito doente, preciso me submeter a uma operação imediatamente, e isso custará quinhentos marcos”. Nesse caso, era obrigado a consultar o führers do distrito (o Gauführer ou Gualelter), que o autorizaria – ou não – a fazer uma retirada superior ao salário que lhe era destinado.  Os preços já não eram preços, os salários já não eram salários – não passavam de expressões quantitativas num sistema de socialismo. “

Por Camilo Caetano

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