É preciso entender o que deu errado com a Argentina

//É preciso entender o que deu errado com a Argentina

É preciso entender o que deu errado com a Argentina

Traduzido da Seeking Alpha por Beatriz Mariane Nunes

A crise argentina deveria alertar governos e investidores contra a tentação de disfarçar problemas estruturais com ajustes tímidos e desequilíbrios monetários.

O gradualismo não resolveu os problemas estruturais e o Peso Argentino entrou em colapso diante do medo de retorno das políticas monetárias e confiscatórias que caracterizaram a Era Kirchner.

A Argentina também nos mostrou que o risco se constrói lentamente, mas o colapso pode ser muito rápido.

O que deu errado com a Argentina?

Em 10 anos, a Argentina aumentou a oferta de moeda em 1.200% para financiar os crescentes gastos políticos.

O país possui a maior carga tributária da região, e uma das mais altas do mundo para empresas. Enquanto isso, a enorme inflação e depreciação do peso representam fortes barreiras ao investimento, crescimento e criação de empregos.

A despesa pública do país excede 45% do PIB: não apenas a mais alta da região, mas também a mais ineficiente, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Os gastos públicos primários, como porcentagem do PIB aumentaram de 23,6% em 2004 para 45% em 2018 e a força de trabalho do setor público multiplicou-se, chegando a 26% do total. Isto é, a cada 4 argentinos em idade economicamente ativa, um é funcionário público.

A ineficiência dos gastos públicos na Argentina atinge 7,2% do PIB. Com políticas intervencionistas, o índice de competitividade global do Fórum Econômico Mundial mostra a Argentina na 92º posição dentre 137 países. Tudo isso foi financiado com o maior crescimento de oferta monetária na região (depois da Venezuela, claro).

A lógica por trás do gradualismo adotado pelo presidente Maurício Macri e das reformas tímidas veio das expectativas equivocadas de um dólar americano enfraquecido.

Também erraram ao analisar que haveria aumento da entrada de capital para compensar os desequilíbrios monetários da economia.

Foi um grande equívoco na Argentina. O histórico do país é de desvalorizações, inadimplências e corridas bancárias. Tudo mostra que o país tende a evitar reformas significativas em favor de medidas drásticas e prejudiciais.

Por que a Argentina não emitiu dívida em moeda local?

Não porque não quis ou por não ter dado ouvidos às soluções mágicas dos defensores da Teoria Monetária Moderna, mas por uma razão muito simples: praticamente não havia demanda por parte de investidores nacionais ou internacionais.

Quase ninguém quer risco cambial quando há quase plena certeza de que os governos decidirão desvalorizar e destruir o poder de compra da moeda.

A Argentina pode ser um caso de risco extremo, mas também é um exemplo de como os investidores esquecem a história e ignoram o risco.

A Argentina emitiu um título em dólares americanos a 100 anos com rendimento de 7,8% em 2017. Houve um grande excesso de demanda por ele. Atualmente, o país enfrenta outro risco de inadimplência.

A Argentina pode ser um dos exemplos mais arriscados da decisão de ignorar riscos fundamentais impulsionado pelos enormes estímulos monetários dos últimos anos. Esses problemas também são evidentes em outros mercados emergentes, mas em níveis menos extremos.

Economias emergentes aumentaram sua dívida em emissões denominadas em dólares norte-americanos nos últimos oito anos e enfrentam 1,2 trilhão de dólares em vencimentos até 2025, segundo o Institute of International Finance (IIF).

Semelhante ao caso da Argentina, uma proporção significativa dessa dívida foi emitida alicerçada no aumento da liquidez global e no dólar americano barato.

Atualmente, muitos desses países enfrentam vencimentos crescentes combinados com o enfraquecimento do crescimento econômico e com expectativas de inflação. Há ainda queda nas receitas em dólares americanos vindo de exportações devido à desaceleração global e aos preços moderados das commodities.

A demanda global por títulos e a busca por rendimentos podem ajudar a refinanciar esses vencimentos.

Além disso, as reservas cambiais permanecem aceitáveis, mas os riscos estão aumentando e os rendimentos não refletem as crescentes incertezas e preocupações em relação à capacidade de pagar essas dívidas.

As lições a se aprender com o caso argentino

Como a Turquia antes, a Argentina nos mostra as falhas da teoria monetária moderna quando praticada no mundo real.

Os países não podem emitir toda a moeda de que seus governos precisam nem emitir toda a dívida que desejam em moeda doméstica quando não há demanda real por essa moeda.

O que houve com a Argentina não deve ser encarado por outros países como uma anomalia: deve ser visto como uma bandeira vermelha.

O inverno está chegando e os crescentes desequilíbrios não fortalecem a economia.

Por | 2019-09-04T10:38:04-03:00 04/09/2019|Economia|Comentários desativados em É preciso entender o que deu errado com a Argentina