O liberalismo falhou no Chile?

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O liberalismo falhou no Chile?

Os violentos protestos da população chilena estão sendo analisados sob a luz de uma narrativa: “o custo de vida é muito alto, a pobreza é muito grande e os cidadãos se conscientizaram de que o liberalismo que as explora fracassou no Chile”.

Porém, Tudo isso é falso.

Não há uma crise de mercado: os preços que subiram e deixaram os chilenos insatisfeitos são de serviços regulados pelo estado. Como pode ser falha do mercado se o preço da passagem é decidido pelo governo? Não é uma falha de mercado, é estado.

Protestos no Chile não são tão populares assim

Além disso, os protestos são consideráveis, mas não massivos: nenhum deles passou até agora de 30 mil pessoas. O grosso das manifestações é formado de estudantes. Por exemplo, apesar de Santiago ser quase do tamanho da cidade do Rio de Janeiro, os números não chegam perto dos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff.

Fora isso, estudantes estão exigindo passagem gratuita para todos. Ou seja, não é sobre o preço, é sobre efetivamente nacionalizar o sistema. E, não é o povo revoltado, são estudantes contra o liberalismo no Chile.

Custo de vida mais alto, mas renda maior que no Brasil

De fato, o custo de vida no Chile é mais alto do que na maior parte do Brasil: é 7% mais caro viver em Santiago do que em São Paulo ou no Rio de Janeiro, por exemplo. Mas o salário médio é mais do que o dobro do brasileiro: cerca de R$ 5.200, enquanto no Brasil é R$ 2.300 por mês

Eles estão melhores do que nós, e melhorando em ritmo superior também. O salário médio era de 3.312 pesos chilenos por hora em 2010 ajustado à inflação. Hoje, são 4.800 por hora, isto é, uma alta real de 4,2% ao ano.

Enquanto isso, o salário médio do brasileiro ajustado para inflação em 2010 era levemente abaixo de R$ 3.100, e atualmente é de R$ 2.300.

Não há qualquer estagnação no Chile: pelo contrário, as pessoas estão ficando cada vez mais ricas. Mantendo este ritmo de crescimento, em mais três décadas, o Chile terá um salário médio de R$ 17.800 por mês!

Desigualdade no Chile: caindo

A segunda justificativa dos defensores da intervenção estatal é a desigualdade: “Veja bem o Chile é um país muito desigual, então deu errado! Os pobres estão sofrendo”.

Mas, apesar de a desigualdade ser uma métrica totalmente irrelevante, esse argumento é refutado também pelos dados. Afinal, o Chile é menos desigual do que a média da América Latina, e a desigualdade caiu nos últimos anos.

Portanto, não se pode atribuir a um crescimento da desigualdade o motivo dos protestos.

Pobreza despencou com o liberalismo no Chile

Segundo o Banco Mundial, em 1987, 8,5% da população chilena estava abaixo da linha oficial da pobreza: 1,90 dólares por dia. Já em 2017, apesar de a população do Chile ter aumentado 50% no período, o número de pobres era de apenas 0,7%.

Se considerarmos quem ganha menos de 5,50 dólares por dia, 6,4% da população do Chile estaria abaixo da linha de pobreza, comparado a 21% no Brasil, 24,7% na Bolívia, 23,9% no Peru e 18,6% no Equador.

É por isso que quando se quer criticar o Chile, a esquerda não fala de pobreza: a discussão é voltada para desigualdade. Não fosse assim, quem defende intervenção estatal teria de admitir que o Chile está indo num bom caminho.

Além disso, o Chile não abandonou os mais vulneráveis. Há um programa denominado Chile Solidário, desenhado para ajudar pessoas na extrema pobreza. Ele realiza várias transferências, de forma um tanto similar ao Bolsa Família.

Há também outras diversas ações diretas, variando por cidade, especialmente de suporte psicossocial e acesso preferencial para programas sociais. Entre os programas sociais, há até subsídio para consumo de água para os mais pobres.

Considerações finais

Os recentes protestos podem ser explicados por diversos fatores. Especialmente, em resposta à violência policial, que vitimou dezenas de manifestantes.

Porém, afirmar que o país fracassou por adotar um modelo de desenvolvimento pautado na livre iniciativa e em menos intervenção governamental é factualmente equivocado.

*Raphaël Lima é criador do Ideias Radicais

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Por | 2020-06-29T10:27:36-03:00 22/10/2019|Economia|Comentários desativados em O liberalismo falhou no Chile?