O “liberalismo” de Macri lembra mais o intervencionismo de Dilma

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O “liberalismo” de Macri lembra mais o intervencionismo de Dilma

Por Luan Sperandio*

Após 12 anos de kirchnerianismo na Argentina, cujos governos foram marcados pela estatização de empresas, intervencionismo e manipulação de dados oficiais, Mauricio Macri elegeu-se presidente final de 2015. A promessa era de liberalização do mercado, enxugamento do estado e abertura de mercado. Porém, o liberalismo ficou apenas no discurso de campanha, com o governo argentino tomando diversas medidas semelhantes às adotadas por Dilma Rousseff no Brasil.

As reformas anunciadas no início de sua gestão para reverter um quadro de aumento da pobreza, crise econômica e social planejavam uma implementação gradual e lenta. Para não contrariar grupos de interesses, não houve um programa de privatização de estatais, mesmo deficitárias como a Aerolíneas Argentinas e a petrolífera YPF. Além disso, os salários de aposentados e parte dos funcionalismo público foram reajustados.

O governo Macri não promoveu reformas para facilitar a geração de riqueza do país: a Argentina atualmente é o 38º país menos livre economicamente do mundo, segundo a Heritage Foundation. A Argentina ocupa ainda apenas a 116º colocação entre 180 países analisados pelo Banco Mundial no ranking de facilidade de fazer negócios.

Quando a recuperação econômica foi aquém da esperada, o capital político de Macri foi sendo gradativamente minado, dificultando a implementação de novas reformas a partir do segundo ano de governo. O desequilíbrio das contas públicas voltou a aumentar, provocando aumento de inflação. 

Em meio a todo esse cenário, em ao menos três aspectos o governo de Mauricio Macri à frente da Casa Rosada lembra o de Dilma Rousseff quando esteve no Palácio do Planalto.

A primeira delas foi em relação à política externa. No início do governo Macri prometeu-se o fim do protecionismo que dominou a política comercial argentina e obrigava a população a adquirir produtos mais caros e de menor qualidade. Foram promovidas medidas nesse sentido, mas a postura do governo mudou a partir de 2017, quando passou a apostar no protecionismo para reativar a indústria argentina. Já em 2018 foram impostas novas taxas sobre importações, com as alíquotas aumentando em 2019

Durante o primeiro mandato de Dilma, foram feitas diversas medidas protecionistas, como a exigência feita à Petrobras, que passou a incluir uma cota para produtos nacionais em suas compras. Além disso, entre 2008 e 2012 o Brasil foi o sexto país do mundo que mais editou medidas anti-comerciais, de acordo com levantamento da Organização Mundial do Comércio. Isso contribuiu para que o Brasil se tornasse o segundo mais fechado comercialmente do mundo.

A segunda medida de Macri que lembra o governo de Dilma foram as interferências no Banco Central. Mesmo com uma inflação de 24,8% em 2017, o governo argentino afrouxou a política monetária ao final daquele ano. O motivo era buscar a desvalorização do peso argentino para não prejudicar exportadores nacionais. Junto com outros fatores, o resultado foi aumento de inflação para 47,6% em 2018.

Em paralelo, durante o governo de Dilma a independência do Banco Central foi atacada. A partir de abril de 2012 Dilma passou a defender enfaticamente a queda da taxa de juros da economia, incluindo a utilização de sua equipe econômica em bancos públicos. A selic atingiu o então menor patamar de sua história em maio de 2013, mas a inflação subiu rapidamente, alcançando dois dígitos, o que forçou o aumento da taxa de juros em seguida.

Por fim, como forma de lidar com o aumento inflacionário e conter o descontentamento popular, de olho na reeleição Macri congelou preços. Foram tabeladas as tarifas de energia, gás, transporte público e pedágios, além de 60 produtos da cesta básica. Dilma fez o mesmo controlando preços administrados, como o de combustíveis e da energia elétrica: tudo para maquiar a inflação e aumentar as chances de vitória nas eleições de 2014. 

O cenário atual na Argentina é de alta inflação, cerca de 30% da população na pobreza e déficit fiscal acima de 5% do PIB. O país voltou à recessão econômica a partir de 2018. 

Após a derrota de Macri nas primárias no último domingo (12), o peso argentino afundou 25%, a Bolsa de Buenos Aires caiu 30% e os juros foram elevados em 10%, chegando a 74%. O CDS argentino, indicador internacional utilizado como referência para medir o risco de calote dos países, aumentou mais de 80%. É o medo que investidores possuem da chapa formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner. Mesmo que o “liberalismo” de Macri tenha sido, na prática, mais parecido com o intervencionismo de Dilma, a avaliação é que nada é tão ruim quanto um retorno de Kirchner na Casa Rosada.

*Luan Sperandio é Diretor de Conteúdo do Ideias Radicais

Por | 2019-08-13T14:35:49-03:00 12/08/2019|Economia, Política|Comentários desativados em O “liberalismo” de Macri lembra mais o intervencionismo de Dilma