O coronavírus mostrou a fragilidade da saúde brasileira

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O coronavírus mostrou a fragilidade da saúde brasileira

Segundo o último balanço do Ministério da Saúde, divulgado nesta terça-feira (31), subiu para 5.717 o número de casos confirmados do novo coronavírus no Brasil

Com 80% dos leitos de UTI ocupados no país e a explosão do número de novos infectados, é possível que o sistema de saúde brasileiro entre em colapso nos próximos dias.

Ou seja: a quantidade de leitos pode ser insuficiente tanto para o tratamento dos novos infectados quanto para o tratamento de casos rotineiros.

No entanto, a carência evidenciada não ocorre somente por falta de estrutura, já que a saúde pública brasileira deixa a desejar em eficiência também. A cada 5 minutos, três brasileiros morrem em hospitais por falhas que poderiam ter sido evitadas.

Na prática, falta de eficiência significa que é possível o Sistema Único de Saúde (SUS) prestar melhores serviços sem, necessariamente, alocar mais recursos nele. 

O Brasil não gasta pouco em saúde

Nos últimos anos, os gastos com o SUS aumentaram muito. No período de 1980 e 2015, os gastos com o setor cresceram mais do que o próprio PIB do país. 

Entre 2004 e 2014, por exemplo, as despesas públicas com saúde cresceram a uma taxa real média de 7% ao ano.

Porém, a maior parte do aumento se deu nos estados e municípios. As despesas do governo federal pouco aumentaram: de 1,6% para 1,7%.

Quando comparado a outros países, os gastos do Brasil são superiores. Proporcionalmente ao PIB, a despesa atual é de 9,1%.

O gasto é comparável à média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, OCDE, de 9%, mas superior à média dos países latino-americanos (7,2%). 

Saúde pública: entre a ineficiência e a falta de serviços

O desempenho da saúde brasileira, contudo, deixa a desejar. Segundo estimativas do Banco Mundial, os gastos totais com o SUS até 2030 podem chegar, se mantidos aos mesmos níveis, a R$ 700 bilhões.

Um aumento na eficiência, contudo, poderia representar uma economia de R$ 115 bilhões no setor.

O Banco Mundial também aponta que o nível de eficiência na Atenção Primária à Saúde (APS), isto é, os atendimentos básicos, é de 63%, com um desperdício anual aproximado de R$ 9,3 bilhões.

Já nos níveis de média e alta complexidade, a eficiência é de 29%, com um desperdício aproximado de R$ 12,7 bilhões. Ou seja: mesmo com menos recursos, seria possível alcançar desempenhos melhores que os atuais.

Vale ressaltar que a eficiência dos atendimentos está diretamente associada ao tamanho dos municípios e dos hospitais, além da produtividade dos médicos. 

Em relação ao atendimento hospitalar, por exemplo, o estudo mostra que a eficiência nos municípios maiores, aqueles acima de 100 mil habitantes, é quase quatro vezes superior à média dos municípios com menos de 5 mil habitantes.

Não é apenas o tamanho do município que acaba desperdiçando muitos recursos. Outros fatores tornam a saúde brasileira ineficiente frente aos custos, como os salários dos profissionais de saúde, por exemplo. 

A produtividade, medida pelo número de consultas por médico, é bastante baixa quando comparada a outros países.

O médico brasileiro, em média, consulta duas vezes menos do que o canadense. Quando comparado aos profissionais da Coreia do Sul, a diferença é quatro vezes maior.

A saúde brasileira precisa de mudanças

75% da população depende exclusivamente do SUS, enquanto o restante têm cobertura dupla, ou seja, usufruem tanto da saúde pública quanto da saúde privada.

A economia potencial nos gastos com saúde, portanto, está relacionada a uma escala ineficiente de prestação de serviços, principalmente nos hospitais.

Com o envelhecimento da população, o sistema brasileiro de saúde necessitará de algumas reformas a fim de tornar os gastos mais eficientes e atender a demanda da população.

É uma boa hora para lembrar que países mais livres economicamente têm saúde melhor e seguir o exemplo deles.

Renan Torres é graduando em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo. É coordenador do Grupo Domingos Martins.

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Por | 2020-05-14T08:25:49-03:00 01/04/2020|Economia, Política|Comentários desativados em O coronavírus mostrou a fragilidade da saúde brasileira