Trump saiu, mas o que ele representa continua: a Nova Direita americana

Depois de mais de quatro anos da eleição de Donald Trump, o fenômeno político da Nova Direita americana permanece sem uma boa explicação. Por trás dele, está um pequeno grupo de intelectuais cujas ideias penetraram a imaginação popular.

Libertários, anarquistas, nacionalistas, monarquistas, nazistas, a Alt Right, entre outros constituem esse grupo heterogêneo que resultou — e não culminou — na presidência de Trump. Naturalmente, em um grupo tão diverso de pensadores não há concordância em quase nada, especialmente em relação ao apoio ao ex-presidente. Por esse motivo, nem a explicação liberal, nem a esquerdista bastam.

Liberais interpretam-na sobre a ótica do individualismo versus coletivismo. Tratando-se da encarnação política desse fenômeno — o populismo de Trump —, esse ferramental pode ser bem útil. Mas, tratando-se do movimento cultural de forma ampla, essa visão é simplista e, no mínimo, incompleta. 

A esquerda e a mídia corporativa, por sua vez, preferem resumi-lo a “racismo”, “fascismo” ou até “nazismo”. E, embora realmente haja racistas, fascistas e nazistas, eles são tão insignificantes, que quase não merecem menção — mesmo porque certamente são os grupos menos interessantes e inovadores do ponto de vista intelectual.

Atribuir ideologias historicamente criminosas a milhões de americanos comuns, que absorveram algumas ideias da Nova Direita, está longe de ser algo sensato. Até porque, em certo sentido, considerar alguém como “nazista” é praticamente descartá-lo da raça humana e ostracizá-lo do debate público.

Explicar esse movimento foi a tarefa de Michael Malice em seu livro The New Right: A Journey to the Fringe of American Politics. O autor ucraniano-americano presenciou pessoalmente o desenvolvimento da Nova Direita e, sendo um judeu nascido na antiga União Soviética, sabia sobre os perigos a que alguns desses pensamentos poderiam levar. Isso coloca-o em uma posição privilegiada para discutir os personagens do grupo e suas ideias.

O que é a Nova Direita americana

Como todo movimento cultural disruptivo, esse também começou às margens do discurso politicamente aceitável. Para Michael, é “nas margens onde moram tanto a inovação, quanto a insanidade”. Ele define a Nova Direita como:

Um grupo vagamente conectado de indivíduos unidos pela sua oposição ao progressismo, que eles consideram uma religião fundamentalista velada, dedicada a princípios igualitários e que visa a dominação totalitária mundial por meio da hegemonia globalista.

pg. 3

Ou seja, esses sujeitos unem-se pela sua ferrenha oposição à esquerda evangélica. Mas a partir daí, é difícil encontrar semelhanças. Por conta disso, é irresponsável igualá-la à base do ex-presidente:

A despeito das tentativas da mídia de juntar a Nova Direita com o apoio de Trump, os dois não são fenômenos idênticos. Certamente é verdade que a Nova Direita foi, na prática, unanimemente pró-Trump ou, pelo menos, anti-anti-Trump. … [Entretanto,] não havia uma única pessoa proeminente no movimento que não tivesse reservas muito fortes sobre ele.

pg. 157

Entre seus membros, Malice identifica três traços característicos que definem essa subcultura:

Os membros da Nova Direita são ostensivamente privilegiados pela sua demografia, mas se consideram (e geralmente são) bem mais marginalizados que o mainstream. Em segundo lugar, [há] um desprezo que beira o nojo pelas elites e por aqueles que determinam os limites do aceitável no discurso público. Em terceiro lugar, [existe] o uso de métodos não tradicionais para disseminar suas ideias.

pg. 129

Como constantemente focam na estratégia, “[o fato de] Trump mover a Janela de Overton foi o argumento a favor de sua presidência com maior tração por toda a Nova Direita”.

Com ele ou sem ele, não muda muito. A Nova Direita unanimemente pensa no longo prazo e vê a política como resultado da batalha cultural, que é o que realmente importa para eles.

O histórico da Nova Direita

Historicamente, o autor identifica os primeiros sinais desse grupo na aliança de dois párias da direita americana: Murray Rothbard e Pat Buchanan. Ambos ostracizados do “conservadorismo oficial”, uniram-se contra o progressismo. Afinal, “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

Buchanan era mais um populista do que um conservador. Em seus discursos e livros, já se via discussões sobre nacionalismo, demografia e imigração. Em 1992, ele disse que “por mais polarizados que estejamos, nós, americanos, estamos presos a uma guerra cultural pela alma do nosso país”.

Já Rothbard, criador do libertarianismo moderno, trazia para o debate a defesa do livre-mercado e uma irreverência absoluta às classes dominantes:

Uma vez que essas elites são também a classe formadora de opinião até então incontestada na sociedade, seu mandato não pode ser expelido até que ao público oprimido, instintivamente, mas rudimentarmente oposto a elas, seja mostrada a verdadeira natureza das forças que as governam, que são  cada vez mais odiadas. Usando expressões da Nova Esquerda do final dos anos 1960, a elite dominante deve ser “desmistificada”, “deslegitimada” e “dessantificada”.

Já aqui, é possível perceber que Trump foi eleito com as ideias de Buchanan, mas com a fórmula de Rothbard (sem que ele conscientemente soubesse disso).

Todavia, as profundas diferenças entre ambos, sobretudo na economia, fizeram com que a aliança não fosse para frente. Ela findou após a morte de Rothbard, em 1995, quando seu braço-direito, Hans-Hermann Hoppe, declarou que “essa doutrina [de Buchanan e companhia] não é chamada desta forma, mas há, sim, um termo para esse tipo de conservadorismo: ele é denominado social-nacionalismo ou nacional-socialismo”.

Jim Goad e Curtis Yarvin: os padrinhos do movimento

Por um tempo, parecia que os frutos dessa união tinham morrido, mas a internet reviveu essa tradição. Por intermédio de fóruns e blogs, renasceu uma direita heterodoxa que têm enorme influência, como os jornalistas Mike Cernovich e Gavin McInnes e a advogada Ann Coulter. 

O primeiro autor que reuniu os três traços fundamentais da Nova Direita foi Jim Goad. Entretanto, ele rejeita essa identificação:

Eu não me identifico e nunca me identifiquei como “direitista”. O binário político é a coisa mais burra de todas. É baseado no sistema de assentos da antiga legislatura francesa, e eu me recuso a basear minha vida em qualquer coisa francesa.

pg. 129

Tendo crescido em bairros pobres e em um ambiente de violência doméstica, Goad publicou sua grande obra em 1997. O tema principal do The Redneck Manifesto [O Manifesto Caipira, em tradução livre] é que o racismo nos Estados Unidos sempre andou de mãos dadas com o classismo.

Hoje, parte da classe trabalhadora branca é tratada com os mesmos estereótipos desdenhosos que outrora foram usados com populações negras. Nas palavras de Goad:

Todo um estilo de experiência humana e de literatura em potencial é descartada como uma piada, assim como as noções populares na América sobre a cultura negra foram resumidas a estátuas de jardim e caricaturas de Cafuzos uma ou duas gerações atrás.

pg. 16

Todavia, especificamente no lado da internet, Malice atribui a Curtis Yarvin as ideias mais inovadoras. Ele escrevia sob o pseudônimo Mencious Moldbug em seu blog Unqualified Reservations (UR).

Yarvin é um monarquista, mas, ao contrário dos brasileiros, ele defende uma monarquia absolutista. Embora sua Política seja atípica, sua análise cultural reverberou por toda a Nova Direita.

Dois conceitos introduzidos por ele são repetidos por todo o movimento e penetraram até em círculos mainstream: a Catedral e a pílula vermelha. 

Jim Goad à esquerda e Curtis Yarvin à direita

O ceticismo da Nova Direita em relação à mídia

No UR, Yarvin definiu a Catedral como a união entre o jornalismo e a academia, instituições centrais da sociedade moderna. Ele explicou que:

A esquerda é o partido dos órgãos educacionais, cujo topo é ocupado pela imprensa e pelas universidades. Essa é a nossa versão do século XX de uma religião oficial. Aqui no UR, às vezes a chamamos de Catedral — embora, é essencial notar que, ao contrário de uma organização ordinária, ela não tem administrador central.

A Catedral, com sua união informal de igreja e estado, está posicionada perfeitamente. Tem todas as vantagens de ser um braço formal do governo e nenhuma das desvantagens. Por formular políticas públicas, podemos considerá-la o órgão último de governo, mas ela certamente não tem nenhuma responsabilidade pelo sucesso ou fracasso de tal política.

Por conta disso, não devemos ter qualquer motivo para levarmos a Catedral a sério:

você não tem nenhuma razão racional para confiar em qualquer coisa que saia da Catedral — isto é, as universidades e a imprensa. Você não tem mais motivos para confiar nessas instituições do que, digamos, no Vaticano. Na verdade, elas são motivadas a te enganar de maneiras que o Vaticano não é, porque o Vaticano não tem conexões profundas, obscuras e egoístas com a burocracia de Washington.

A partir do conceito de Catedral, Yarvin empregou, pela primeira vez, o termo pílula vermelha (red-pill) — que vem do filme Matrix — no contexto político.

Portanto, para ele, “tomar a pílula vermelha” significa reconhecer que:

o que é apresentado como fato pela mídia corporativa e pela indústria do entretenimento é (na melhor das hipóteses) uma sombra do que é real, e essa suposta realidade é, de fato, uma narrativa cuidadosamente construída e intencionalmente desenhada para manter pessoas bem desagradáveis no poder e todos os demais, mansos e submissos.

pg. 94

A pílula vermelha e o “jornalismo de verdade

Nesse sentido, ser red-pilled não é exclusividade da direita — inclusive, a maior parte da direita não é. De fato, diversos jornalistas de esquerda chegaram a conclusões semelhantes.

Por exemplo, como Glenn Greenwald denuncia a maneira com que a Catedral trata o Deep State:

O fato de que um Deep State espreita dentro e sobre o governo americano agora é tratado nos círculos progressistas do establishment como uma nova invenção conspiratória da direita, ao invés do que realmente é: uma realidade de longa-data reconhecida bem antes de Trump por estudiosos de ciência política, críticos de política pública esquerdistas e jornalistas mainstream.

Durante os anos com Trump, a mídia americana alternou entre veementemente negar a existência desse bem-documentado Deep State até celebrar as nobres subversões anti-Trump do Deep State. Como comentei na semana passada:

[Democratas e meios de comunicação aliados] comemorando relatos de que oficiais de segurança do estado não eleitos estavam escondendo informações que não queriam que o Presidente eleito tivesse, e relatos mais recentes de que enganaram-no sobre posições de tropas na Síria para evitar seus esforços de retirada: um comportamento clássico de golpe do Deep State onde militares e oficiais de inteligência não eleitos previnem o presidente eleito de implementar políticas que eles julgam errôneas.

Exemplos de uma agenda política na mídia não faltam nesses últimos quatro anos. Podemos citar ainda o bombardeio de notícias sobre a possível conspiração de Trump com hackers russos nas eleições de 2016.

Outra ocasião que também abriu os olhos de muitos Republicanos foi a cobertura da sabatina do juiz Bret Kavanaugh, indicado para a Suprema Corte. O processo inteiro foi uma tentativa de assassinato da reputação do juiz, desde as audiências no senado até a cobertura dos veículos corporativos de mídia.

Alt-Right: o patinho feio da Nova Direita americana

O termo Alt-Right, abreviação de Alternative Right [Direita Alternativa], ganhou popularidade quando a então candidata Hillary Clinton alertou em um discurso sobre uma “ideologia racista emergente chamada Alt-Right”.

Não obstante a tradição da esquerda de chamar qualquer um à direita de Geraldo Alckmin de racista, esse grupo realmente o é. Para descobrir o que eles pensam, Malice entrevistou alguns dos mais proeminentes — a começar por Jared Taylor:

Em todos os sentidos da palavra, Taylor é um racista. … Entretanto, a despeito de todo o simbolismo de racistas como caipiras marchando, gritando e escrevendo errado, Taylor, graduado em Yale, é tudo menos isso. Ele conversa calmamente, eloquentemente e implacavelmente.

pg. 234
White nationalist Jared Taylor sues Twitter over ban - BBC News

Como um nacionalista branco, Taylor defende que a homogeneidade étnica da nação seja preservada. Segundo ele, “todos os povos têm direito de sobreviver, e para que isso aconteça, deve haver uma área onde eles são reconhecidos como a população dominante.”.

Negros, de maneira geral, não são bem-vindos. Segundo Taylor, eles são “super-sexualizados, não tão inteligentes e rítmicos”. Mas, adiante na entrevista, ele revela:

Também não estou falando de pureza absoluta. Eu sou bem latitudinário na minha definição de quem é branco. Se o Thomas Sowell decidir que é branco, eu teria dificuldade em dizer não a ele.

Eu quase não acreditei no que ele disse. Se o Thomas Sowell é bem-vindo no etnoestado, quem não é?

pg. 258

Em suma, o pensamento de Jared defende uma nação onde os cidadãos são majoritariamente brancos, orgulhosos da sua identidade, mas com visões políticas diferentes. Algumas minorias podem participar, mas não teriam voz política.

Nacionalismo branco, nazismo e anti-semitismo

Ao ser perguntado sobre os judeus, Taylor esclareceu que não tem problemas com eles. Como Michael explica: 

“realistas de raça” como Taylor terão supremacistas brancos e anti-semitas à sua direita sem serem eles mesmos (completos) anti-semitas. Até as margens têm margens.

pg. 248

Esse não é o caso do próximo entrevistado no livro: Christopher Cantwell. Inicialmente um anarquista da tradição libertária, ele foi expulso dos seus círculos por defender o uso de violência contra agentes do estado. A partir daí, foi tomando posições cada vez mais espúrias, até chegar ao nacionalismo branco.

Sobre a questão judaica, Cantwell disse:

Penso que minha vida seria melhor se não tivesse que compartilhar um sistema de governo com judeus. Não tenho desejo de ver qualquer dano sendo direcionado a você ou outros judeus legais que conheci durante minha vida. Mas me sinto totalmente confortável em discriminar baseado em linhas étnicas e raciais para alcançar os objetivos.

pg. 273

A aversão aos judeus, desde os tempos de Adolf Hitler, vem de um fenômeno que a filósofa Ayn Rand chamou de “o ódio do bom por ser bom”. Afinal, não é nenhuma surpresa que eles são super-representados em posições importantes.

Historicamente, contribuíram muito para a sociedade com suas conquistas. Alguns exemplos são o físico Albert Einstein, o economista Ludwig von Mises, o matemático John von Neumann e até o inventor da calça jeans, Jacob Davies. Isso não impediu que muitos alimentassem o anti-semitismo com conspirações de dominação mundial judaica.

Os anti-semitas não têm simpatia por Trump, já que dois dos seus filhos casaram-se com judeus. Aqui, novamente, um grupo da Nova Direita é anti-anti-Trump. Sobre o ex-presidente, Cantwell afirmou:

Eu nunca pensei que Donald Trump fosse resolver o problema judeu. Eu só não queria sofrer por uma presidência da Hillary Clinton.

pg. 279

Sem Trump, a Nova Direita ganha ainda mais força

Com a eleição de Biden, muitos esperam que os Estados Unidos volte para a sua política tradicional de democratas versus republicanos. Todavia, a Nova Direita não é um fantasma que “se mata” em uma eleição.

O seu envolvimento político é apenas secundário, sendo a mudança cultural o objetivo primário. Nas palavras de Michael Malice:

Lutar em [Washington] DC é como prender o traficante de rua, que está nas pontas do tráfico de drogas. É o aspecto mais visível do problema, claro, mas não resolve a fonte de contaminação.

pg. 211

Quando se está no governo, você é vidraça. Quando se está fora, é mais fácil jogar pedras. Dessa forma, com Trump fora da Casa Branca, autores tidos como porta-vozes da nova direita tendem a ganhar maior adesão.

No fim, a análise que parece a mais correta sobre últimos quatro anos e os que estão por vir é a que Malice compartilhou em seu Twitter:

A minha hipótese atual é que [a eleição de] Trump desacelerou a radicalização da direita, porque uma grande porcentagem da população direitista tinha um vislumbre de fé no sistema com ele como presidente.

Cenas a se conferir nos próximos anos.

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Estuda e trabalha com Engenharia Eletrônica e de Telecomunicações em Belo Horizonte.

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