Murray Rothbard, o libertário que apoiou George Bush

Sim, o economista, historiador e filósofo libertário, Murray Rothbard, o homem que escreveu A Ética da Liberdade, e ostentava um ódio incondicional contra o estado, foi um apoiador de George Bush (Partido Republicano) nas eleições presidenciais dos Estados Unidos de 1992.

Porém, como qualquer pessoa minimamente centrada já seria capaz de supor, esse curioso episódio tem um histórico e um contexto que ajudam a compreender e mitigar esse estranhamento inicial do nosso texto.

O posicionamento de Murray Rothbard sobre eleições

Para entender a decisão de Rothbard, a primeira pergunta que investigaremos é: qual era o posicionamento de Murray Rothbard sobre a utilização da política na estratégia libertária?

Bem, embora a pergunta seja simples, a resposta para ela variou relativamente no tempo, a depender de qual momento da biografia de Rothbard estaremos analisando. Tomemos como ponto de partida a questão do famoso Libertarian Party dos Estados Unidos. 

A princípio, Rothbard não mostrava qualquer simpatia pelas propostas do movimento partidário. Foi apenas alguns anos depois que ele alterou suas percepções e até passou a trabalhar em prol desta agremiação política.

Contudo, se há algo que os conhecedores da biografia de Rothbard podem argumentar, é que o célebre economista acabou ao fim de algumas décadas se desvinculando do Libertarian Party, e isso, para alguns deles, serviria de evidência de que não existe espaço para a atuação estratégica de libertários dentro do campo político.

O argumento não é de todo ruim, mas ignora outras circunstâncias que se deram após a saída de Rothbard do movimento. Particularmente, esse argumento ignora a militância veemente que Rothbard conduziu nos últimos anos de sua vida, levando-o, até mesmo, a apoiar candidatos republicanos que nem sequer se declaravam libertários.

Libertários e eleições

Mas antes de buscarmos entender as razões que levaram Rothbard até esse ponto, julgamos necessário enfrentar uma questão: é ou não é relevante conhecer as posições de Rothbard e outros liberários sobre militância política?

Como é sabido, há quem insista na tese de que o que importa é a proposição ética em si, e não as opiniões de seus formuladores. Assim, por exemplo, se a ética argumentativa de Hans-Hermann Hoppe invalida o envolvimento político, então não importaria as opiniões individuais do próprio autor sobre esse tema.

Trata-se na realidade de uma saída bastante comum para aqueles que sabem que as biografias de homens como Murray Rothbard e Hans-Hermann Hoppe reforçam a posição do uso defensivo da política.

Não obstante, essa crítica falha em desconsiderar duas coisas.

A primeira delas é que a obra de Rothbard apresenta uma multiplicidade de raciocínios que embasam os posicionamentos que ele defende. Então, ainda que alguns rotulem o uso de um parecer de Rothbard como sendo mero apelo à autoridade, o fato é que nenhum libertário adota determinadas conclusões apenas por serem defendidas por ele, mas sim, por que seus argumentos se mostram suficientes.

Desta forma, se para Rothbard toda iniciação de agressão é ilegítima, também é verdade que ele não abriria mão de cortar pela metade todas as alíquotas de impostos, si e somente si nenhum outro corte mais radical ou revogações não fossem possíveis.

Mas ironicamente, segundo os críticos das estratégias políticas defensivas, essa postura faria de Rothbard um gradualista!

Ora, não vemos como uma campanha pelo decréscimo da violência estatal faria de Rothbard um gradualista. Na verdade, segundo Salerno explica, Rothbard era alguém que apertaria imediatamente o botão caso existisse um dispositivo que acabasse com a existência do estado. E isso, meus senhores, não é compatível com qualquer definição de gradualismo.

Cabe inclusive citar um raciocínio que o próprio Rothbard apresentou em um texto denominado: “Você odeia o estado?” Onde ele ilustra justamente esse ponto.

“Enquanto o abolicionista aceitará um passo gradual na direção certa se isso é tudo que ele pode conseguir, ele sempre aceita a contragosto, como apenas um primeiro passo em direção a um objetivo que ele sempre mantém incrivelmente claro. O abolicionista é um “apertador de botões”, que pressionaria seu polegar contra um botão que abolisse o estado imediatamente, se tal botão existisse. Mas o abolicionista também sabe que, infelizmente, tal botão não existe e que ele vai pegar um pouco do pão, se necessário – enquanto prefere sempre o pão inteiro se ele puder alcançá-lo”.

ORA! Será mesmo que homens do calibre de Rothbard e Hoppe caíram em apostasia, dado que eles mesmos defenderam a participação em atividades político-eleitorais? 

Pois segundo alguns, o simples ato de votar já é por si só incompatível com a ética libertária…

Ironias à parte, creio que já nos detivemos de forma suficiente neste ponto, pelo que devemos retornar ao escopo principal do nosso artigo.

A trajetória de Murray Rothbard na política partidária

Já dissemos que após um controverso período no Libertarian Party, Murray Rothbard persistiu na utilização de estratégias políticas.

Como é de praxe no meio libertário, essa conduta rendeu críticas a Rothbard, pois nas eleições de 1992, Rothbard deixaria de apoiar um candidato do movimento, e em seu lugar apoiaria um candidato do mainstream. Ou seja, passados trinta anos deste fatídico episódio, nós ainda estamos discutindo as mesmas questões que ocuparam a vida dos libertários ao fim do século XX…

Bem, o que o professor Rothbard sabia, e que muitos até hoje teimam em ignorar, é que existe um oceano de distância entre um Pat Buchanan e uma Hillary Clinton. E, embora não fosse factível imaginar que Buchanan poderia conduzir os Estados Unidos rumo ao libertarianismo, a outra alternativa era certamente muito mais sinistra.

Naquelas prévias do distante ano de 1992, Rothbard apoiou a candidatura de Pat Buchanan. E não apenas isso, mas trabalhou incansavelmente, escrevendo e contra-argumentando, no intuito de defender Buchanan das campanhas de difamação de que ele foi alvo.

Como sabemos, Buchanan não passou das prévias do partido, e a escolha dos Republicanos foi pela infame persona de George Bush, e é nesse ponto que Rothbard faz aquela fatídica escolha.

Então, naquele contexto Rothbard não viu outra hipótese a não ser apoiar o único nome com algum potencial de fazer frente à Bill Clinton. Em breve síntese, essa é a explicação do porquê Rothbard, um aguerrido libertário, julgou por bem apoiar tal figura nas eleições americanas.

Considerações finais

Como dissemos, na ausência de uma explicação prévia, chega a ser quase impossível assimilar a afirmação de que alguém da estatura moral de Murray Rothbard acabaria por apoiar alguém da estirpe de George Bush.

E, por ironia das ironias, Rothbard até mesmo utilizou um espaço em sua coluna do Los Angeles Times para apoiar a candidatura de Bush. Segundo consta, esse foi o episódio em que Rothbard mais recebeu cartas de ódio em toda sua carreira.

No fim, os Democratas venceram aquela eleição, e essa foi a última disputa majoritária que Rothbard acompanhou antes de sua morte em 1995.

Se há uma lição a aprender de tudo isso, é que as divergências dentro do movimento libertário não podem se resumir a jargões e argumentos rasos de internet — principalmente quando vemos que nenhum dos gigantes da filosofia libertária foi adepto deste tipo de simplismo.

Dito isso, não acreditamos que essa breve exposição seja o suficiente para pacificar todas as acirradas disputas intelectuais entre os libertários. Esta, afinal nem sequer é a pretensão deste texto. Contudo, ao menos tais fatos podem lançar uma nova luz sobre aqueles que ratificam de forma simplista de que votar é um ato inconcebível, e que toda e qualquer estratégia de política defensiva é integralmente contrária aos preceitos libertários.

De toda forma, quer você defenda uma estratégia rothbardiana, ou agorista, ou nenhuma nem outra, é simplesmente indispensável que nós tenhamos consistência ao defender nossas próprias posições. O libertarianismo somente evoluirá com o amadurecimento de seus membros.

Rodolfo Andrello é jurista, Youtuber, blogueiro e criador de conteúdo libertário; Dono do Canal Fronteira Austríaca.

[N.A Enfatizo que essa publicação é um resumo. Portanto, aos desejosos de se aprofundar nessas questões, recomendo a leitura do Novo Manifesto Libertário, de Samuel Edward Konkin, para um contraponto à visão rothbardiana. Além disso, a leitura de “O que deve ser feito”, de Hans-Hermann Hoppe, também serve de complemento ao assunto de hoje.]

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