O milagre econômico alemão e os economistas que salvaram o país

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O milagre econômico alemão e os economistas que salvaram o país

Décadas atrás, um pequeno grupo de economistas e estudiosos do direito ajudou a realizar o que agora é amplamente conhecido como Wirtschaftswunder, o “milagre econômico alemão”. Mesmo entre os alemães, nomes como Walter Eucken, Wilhelm Röpke e Franz Böhm são desconhecidos hoje.

Mas é em grande parte graças à sua defesa implacável da liberalização do mercado em 1948 que o que então era a Alemanha Ocidental escapou de um abismo econômico e se tornou a maior e mais dinâmica economia da Europa Continental.

A Grande Reforma, como Röpke costumava chamá-la, não foi uma questão de sorte. Foi um raro exemplo de intelectuais de livre mercado desempenhando um papel decisivo na libertação de uma economia de décadas de políticas intervencionistas e coletivistas.

O que torna sua conquista ainda mais extraordinária é que suas prescrições de política — uma reforma monetária radical, a abolição de controles de preços, desregulamentação econômica generalizada e grandes reduções em impostos marginais — foram implementadas em face da oposição não apenas de toda a esquerda alemã, mas muitos no movimento democrata cristão que governaria a Alemanha Ocidental sem interrupção de 1949 a 1969.

Portanto, o milagre não foi apenas o resultado econômico espetacular da Grande Reforma. Mas a coragem de um pequeno grupo de pensadores do livre mercado em enfrentar o establishment político, econômico e acadêmico alemão.

Um liberalismo diferente

As reformas implementadas em 20 de junho de 1948, por Ludwig Erhard, futuro ministro das finanças e chanceler da Alemanha Ocidental, representaram a eliminação de algumas correntes especificamente alemãs do pensamento de livre mercado.

Aqueles que se autodenominavam “ordo-liberais” ou “neoliberais” não concordavam com tudo, mas compartilhavam semelhanças que os distinguiam de outros pensadores do livre mercado.

Em primeiro lugar, os liberais alemães desenvolveram suas ideias em resposta a problemas que se manifestaram na Alemanha antes de 1914. Problemas esses que foram exacerbados pelas guerras e pela busca de políticas corporativistas, intervencionistas e econômico-nacionalistas antes e durante a era nazista.

De acordo com esses liberais, tais problemas — a cartelização da economia alemã, protecionismo, controle de preços e salários — não resultaram apenas de uma política econômica equivocada. Eles refletiam tensões de longa data na cultura política alemã.

Um segundo traço relacionado era seu foco na questão de que tipo de ordem era necessária para sustentar uma economia livre. Como Böhm, um estudioso do direito, escreveu retrospectivamente:

A questão com a qual todos estávamos preocupados reduziu-se à questão do poder privado em uma sociedade livre. Isso inevitavelmente levantou outras questões sobre a natureza da ordem em uma sociedade livre, os vários tipos de ordem econômica que existem e as disfunções que podem ocorrer nesses vários tipos.

Böhm e outros concluíram que as economias de mercado deveriam ser protegidas de atores privados — empresas, sindicatos, lobbies agrícolas — que pretendem manipular o sistema político a seu favor.

Resistir a essas pressões de manipulação exigia, segundo Böhm e Eucken, certas escolhas institucionais: a primeira era a favor de uma ordem competitiva e contra o planejamento central.

A segunda dizia respeito à priorização da estabilidade monetária. A terceira se tratava de políticas que preservassem o mercado e ao mesmo tempo evitassem que grupos de interesse capturassem e corrompessem os processos de mercado.

Essas três ênfases refletiam a convicção dos liberais alemães de que as questões de desenho constitucional e institucional eram decisivas para o caráter da vida econômica em uma determinada sociedade

Da Teoria à Política

Muitas dessas ideias foram desenvolvidas durante a ditadura nazista. Alguns liberais, como Röpke e Alexander Rüstow, o fizeram na relativa segurança do exílio.

Os que permaneceram na Alemanha tiveram que desenvolver suas teorias econômicas “abaixo do radar”. Isso ocorria em parte porque suas opiniões colidiam diretamente com as políticas econômicas do regime, mas também por causa de suas posturas anti-nazistas mais gerais.

Mas, seja dentro ou fora da Alemanha, esses homens chegaram a um conjunto muito semelhante de conclusões sobre como levar a Alemanha de volta ao livre mercado.

Aqueles dentro da Alemanha nazista combinaram essa atividade intelectual com o trabalho de identificação de figuras favoráveis ​​ao mercado nos círculos industriais, conservadores e cristãos antinazistas alemães que poderiam estar em posição de implementar reformas de liberalização de mercado se a Alemanha perdesse a guerra.

Isso era perigoso, até porque tais atividades podiam ser vistas como derrotistas. Também os colocou em contato com figuras como o pastor Dietrich Bonhoeffer, Carl Goerdeler e outros que foram executados após a tentativa do oficial do exército católico, coronel Claus von Stauffenberg, de assassinar Hitler em 20 de julho de 1944.

Talvez o mais proeminente desses indivíduos amigáveis ​​ao mercado tenha sido o já mencionado Ludwig Erhard, um economista e executivo de negócios que se movia facilmente entre os mundos da indústria, da política e das ideias, mas que se recusou a aderir ao Partido Nazista.

Leitor cuidadoso dos escritos de Eucken e Röpke, Erhard viu o período do pós-guerra como uma oportunidade única de introduzir reformas de longo alcance que de outra forma seriam difíceis de realizar.

Resistência do povo da Alemanha

Não que a reforma fosse ser fácil: em 1945, poucos alemães eram receptivos ao mercado livre. O Partido Social-democrata emergiu das catacumbas querendo mais planejamento econômico de cima para baixo, não menos.

Muitos dos alemães que eventualmente se uniram sob a bandeira dos democratas-cristãos eram igualmente hostis a qualquer coisa que cheirasse a “capitalismo”.

Eles permaneceram profundamente influenciados pelas expressões altamente corporativistas do pensamento social católico que dominou o catolicismo alemão. Outros promoviam o socialismo cristão ou mesmo uma “terceira via”.

Depois, havia aqueles como o homem que se tornaria o primeiro chanceler da Alemanha Ocidental, Konrad Adenauer, que via as questões econômicas em grande parte pelas lentes da conveniência política.

Para complicar ainda mais as coisas, estava o fato de que as autoridades militares nas zonas ocupadas pelo Ocidente na Alemanha, com muitos keynesianos em seu contingente, admiravam as políticas econômicas do governo trabalhista de Clement Atlee na Grã-Bretanha.

De fato, entre 1945 e 1947, os administradores aliados deixaram em grande parte a economia parcialmente coletivizada e orientada para o estado, criada pelos nazistas derrotados. Isso incluía controles de preços, racionamento generalizado e uso continuado da moeda da era nazista e cheia de inflação.

Alemanha pós-guerra

Essas características da economia alemã do pós-guerra desencorajaram o investimento, o crescimento de capital e a competição. Em especial, os fazendeiros relutavam até em vender seus produtos. O resultado foi a escassez generalizada de alimentos e níveis crescentes de desnutrição.

Apesar disso, os liberais alemães mostraram-se adeptos a promover suas ideias em várias frentes. Eles se mostraram altamente qualificados em assegurar posições importantes na administração econômica.

Erhard, por exemplo, enfatizou suas ​​credenciais anti-nazistas para se tornar ministro das finanças da Baviera em 1945. Isso permitiu que os liberais exercessem muita influência sobre a política econômica.

Tão importante foi o esforço dos liberais para defender a liberalização econômica em público. Em 1948, Eucken e Böhm lançaram o jornal Ordo para promover ideias de livre mercado entre o influente professorado alemão.

Olhando além do cenário acadêmico, os liberais alemães escreveram artigos em jornais importantes. Por exemplo, no Neue Zürcher Zeitung, que atendia a um público educado e politicamente engajado.

Tampouco aqueles que buscavam reformas de mercado tinham medo de envolver o público em geral. Erhard fez transmissões de rádio destinadas a persuadir o público em massa da defesa do livre mercado.

Mas os reformadores não ignoraram as publicações menos prestigiosas lidas por centenas de milhares de alemães que nunca folheariam o Neue Zürcher Zeitung.

Em 13 de dezembro de 1947, por exemplo, o semanário católico de ampla circulação Rheinische Merkur publicou uma crítica de Röpke a Günter Keizer. Keizer era o principal economista que contrariava as ideias de Erhard.

Hoje, este artigo é considerado uma peça importante, que ajudou a preparar a opinião pública para as medidas liberalizantes de Erhard no ano seguinte. Sem medir palavras, Röpke informou seus leitores que “Se mantivermos a economia de comando, então manteremos o mundo da fantasia econômica.”

Sucessos e lições

A mais conhecida das reformas de junho de 1948 de Erhard foi a abolição dos controles de preços. Outra delas foi a substituição do Reichsmark da era nazista por quantidades muito menores de uma nova moeda: o marco alemão. Essas medidas efetivamente mataram a inflação que permeava a economia alemã.

Assim, os efeitos dessas e de outras mudanças liberalizantes foram quase imediatos. Os agricultores, por exemplo, começaram repentinamente a vender produtos porque agora sabiam o preço real de seus produtos. Além disso, o valor do dinheiro que ganhavam por seus bens não estava sendo pulverizado pela inflação.

Nas cidades, funcionários começaram a aparecer para trabalhar porque eram pagos em uma moeda que mantinha seu poder de compra. Então eles não precisavam mais gastar horas de trabalho lutando por comida para alimentar suas famílias.

Em seis meses, a produção industrial aumentou 50%. A renda real começou a crescer. O contraste com a situação econômica ruinosa que prevalecia no que se tornaria a República Democrática Alemã era difícil mesmo para os social-democratas negarem.

Mas a ironia é que nenhum dos liberais alemães considerou o Wirtschaftswunder extraordinário. Para pessoas como Erhard, Eucken e Röpke, era simplesmente a consequência lógica de estabelecer os fundamentos básicos de uma economia de mercado e permitir que o povo alemão fizesse o resto.

Samuel Gregg é diretor de pesquisa no Acton Institute.

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Por | 2020-09-02T08:00:20-03:00 02/09/2020|Economia|Comentários desativados em O milagre econômico alemão e os economistas que salvaram o país