Mikhail Gorbachev: o homem do final da URSS

Pandemia, aniversário, Zoom: é bem provável que, você, durante a quarentena imposta pelo estado, tenha juntado esse trio de palavras e comemorado sua festa de aniversário por meio de uma chamada no Zoom com seus amigos. Estou errado? Pois é, mas não se sinta sozinho. Ninguém mais ninguém menos do que Mikhail Gorbachev, último presidente da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), fez o mesmo

Tudo bem, talvez eu esteja exagerando, já que, no caso de Gorbachev, além de celebrar seu 90º aniversário no Zoom, no dia 2 de março de 2021, ele também recebeu saudações dos líderes Vladimir Putin, presidente da Rússia, Joe Biden, comandante dos Estados Unidos (EUA) e Boris Johnson, primeiro-ministro do Reino Unido.  

“Você pertence a um grupo de pessoas extraordinárias, de homens de estado notáveis da era moderna que influenciaram de maneira significativa o curso da história nacional e mundial”, afirmou Putin em uma mensagem a Gorbachev. Um mero detalhe: Putin é um adversário político e alvo de críticas de Gorbachev.

Mas o que Mikhail fez para receber devida atenção, com direito a palavras tão elogiosas? Gorbachev, entre outras medidas, realizou reformas que conduziram ao final da Guerra Fria e auxiliaram o processo que culminou com a dissolução da União Soviética em 1991.

Mas, afinal, como começou, contudo, toda essa história? 

Mikhail Gorbachev: o início

Mikhail Gorbachev, entre outras medidas, realizou reformas que conduziram ao final da Guerra Fria e auxiliaram na dissolução da URSS.

Nascido em Privolnoye, na Rússia, em 1931, Mikhail Gorbachev colocou em prática seu interesse político pela primeira vez em 1952, com pouco mais de 20 anos, quando se inscreveu no Partido Comunista da União Soviética (PCUS). No período, o partido tinha como líder Joseph Stalin, mas já estava nos anos finais do comando stalinista, que teve fim em 1953 com a morte do mandatário. 

Mikhail estudou direito na Universidade de Moscou. Durante seu período acadêmico, conheceu Raisa, com quem se casou em setembro de 1953, dois anos antes da formatura. Sem terminar a graduação, o casal se mudou para em Stavropol, no sul da Rússia, onde tiveram uma filha. No local, Gorbachev tornou-se secretário do Partido Comunista do da cidade

Em 1966, também em Stavropol, Mikhail Gorbachev formou-se em agronomia. Graduado, começou a progredir na carreira política. Em 1970 foi nomeado Primeiro Secretário da Agricultura e, no ano seguinte, membro do Comitê Central. Em 1974, tornou-se representante do Soviete Supremo e, em 1979, entrou para o Politburo, órgão executivo do Partido Comunista, que reunia as lideranças do órgão. 

Sim, Mikhail levou pouco mais de 25 anos para sair do início e chegar ao topo do partido comunista mais poderoso do mundo na época.

Mikhail Gorbachev e seu “perfil moderado” (para os padrões soviéticos)

Mikhail Gorbachev, entre outras medidas, realizou reformas que conduziram ao final da Guerra Fria e auxiliaram na dissolução da URSS.
Foto: Gorbachev – Aventuras na História

Ao longo de seus anos no órgão que pregava o comunismo na União Soviética, Gorbatchev teve a oportunidade de viajar a diversas partes do mundo, o que, segundo historiadores, influenciou o seu ponto de vista político e social no comando de seu país. Esse diálogo com os líderes estrangeiros teria ajudado o último presidente da União Soviética na abertura de sua nação para o mundo após dezenas de anos da política de cortina de ferro, com de economia e política quase que completamente fechadas.

Em 1975, Mikhail Gorbachev, por exemplo, dirigiu uma delegação a República Federal da Alemanha e em 1983 liderou outra ao Canadá, onde se encontrou com o primeiro-ministro Pierre Trudeau, pai do atual presidente do Canadá, Justin Trudeau. Em 1985, viajou ao Reino Unido, onde se encontrou com a primeira-ministra Margaret Thatcher. Mikhail chegou, inclusive, a encontrar o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, mas em um momento posterior ao dos encontros comentados. 

Com a morte de Konstantin Chernenko, em 1985, Mikhail foi eleito secretário geral do Partido Comunista, principal cargo da agremiação (onde já passaram nomes como Vladmir Lenin, Stalin e Nikita Kruschev). A posição, além de conferir o comando do PCUS, possibilitava que Gorbachev tomasse decisões em nome da União Soviética. Na prática, ele exercia a função de presidente. 

Reformas e mudanças conduzidas por Gorbatchov

Mikhail Gorbachev, entre outras medidas, realizou reformas que conduziram ao final da Guerra Fria e auxiliaram na dissolução da URSS.
Foto: Correio Braziliense

Na década de 1980, as diferenças entre o mundo capitalista e o mundo comunista estavam cada vez maiores. O ocidente, praticante da economia de mercado, estava evoluindo. O oriente, contudo, simpático à dupla comunismo/socialismo estava aos pedaços. O Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA, principal potência ocidental na época, cresceu muito mais do que o PIB da URSS, por exemplo.  

Fonte: US and world from Angus Maddison at http://www.ggdc.net/maddison; Russia (Russian Empire to 1913, then USSR, followed by former USSR) from Markevich and Harrison (2011).

No entanto, os gastos com armamentos, entre os quais, nucleares, estavam entre os principais dos países tanto do Oeste quanto do Leste. Além disso, a economia soviética era planificada pelo estado, não existia a propriedade privada e os preços dos produtos industrializados e agrícolas eram estabelecidos e controlados pelo governo. Desta maneira, não havia concorrência e se as pessoas não passavam fome, tampouco havia variedade ou abundância. 

A URSS, dessa forma, por estar em uma estagnação econômica daquelas, não estava conseguindo manter o nível da despesa com a guerra armamentista, bem como de sua máquina estatal.  

Sem conseguir garantir o abastecimento à população soviética e com uma indústria cada vez mais defasada, fruto de problemas de falta de inovação e de ineficiências do cálculo econômico, algo precisava ser feito para tentar conter a explosão econômica da URSS; e foi aí que Mikhail Gorbachev entrou no jogo. 

Com sua política moderada (para os padrões soviéticos, claro) e responsável pela abertura social, política e econômica do seu país, Gorbachev deu os últimos passos, mesmo que sem querer, para o fim da União Soviética.  

Pense comigo, se agisse como seus antecessores, Leonid BrejnevKruschev, exemplificando, os gastos militares subiriam ainda mais, os custos estatais disparariam e os soviéticos ainda continuariam fechados para o mundo.  

Foi pela necessidade de mudança na condução da URSS que o governo de Gorbachev ficou sobretudo marcado, não apenas na Rússia, como no mundo inteiro, por duas palavras russas: “glasnost” (transparência) e “perestroika” (reestruturação).

O que significam, porém, essas expressões? 

Glasnost e Perestroika 

Foto: BBC

Duas das principais medidas tomadas por Mikhail, a Glasnost e a Perestroika foram marcos na história da União Soviética, em que o líder soviético basicamente foi forçado a adotar para tentar evitar o colapso do regime.

A reforma da “transparência” foi uma forma de combate de combate à corrupção entre os membros do Partido Comunista e afrouxou as regras de repressão política na URSS. 

Entre as medidas adotadas pela Glasnost, estavam a anistia aos presos políticos, fim oficial dos gulags e campos de trabalho forçado, que tinham sido iniciados desde Lenin e endossados por Stálin, fim da censura aos jornais e a artistas, liberdade para grupos religiosos, fim do sistema de partido único e reabilitação das vítimas do governo de Stalin. Já imaginou algum líder soviético tomar alguma decisão como essa na década de 1950, 1960 ou 1970? Pois é, Gorbachev peitou o histórico de repressão, e desagradou alas mais conservadoras do Partido Comunista.

Já as mudanças propostas pela perestroika tiveram como objetivo acabar com o nível de centralização econômica instaurada desde Lenin após a Revolução Russa, em 1917. 

Com isso, Gorbachev, aos poucos, abriu o mercado soviético com medidas coo a redução de subsídios à economia, fim do planejamento econômico estatal, liberalização do comércio exterior, eliminação dos limites de fabricação de produtos, autorização de importação de produtos estrangeiros e a redução de fabricação de armamentos. 

A Perestroika, todavia, enfrentou muita resistência política. Além disso, a indústria russa estava muito defasada em relação à Ocidental e, de repente, se viu sem subsídios. Finalmente, com a desorganização do campo, seguiu-se o desabastecimento de alimentos, aumento da inflação, o que causou revolta na população, gerando instabilidades ao sistema. 

O fim da União Soviética

Foto: BBC

Em 1988, Gorbatchev anunciou que a União Soviética abandonava oficialmente a doutrina Brejnev, ao admitir que a Europa do Leste, comunista, adotasse regimes democráticos. Em julho de 1989, em um discurso perante a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, referiu-se à “casa comum europeia”. As atitudes renderam, ao final das contas, a queda da Cortina de Ferro, uma expressão cunhada por Winston Churchill que significava a divisão do mundo entre os capitalistas e os comunistas/socialistas. 

Gorbachev havia calculado que a segurança soviética já não exigia a preservação de regimes satélites submissos na Europa Oriental.

A queda do Muro de Berlim, o fim da Guerra Fria e a abertura da União Soviética lhe valeram o prêmio Nobel da Paz em 1990. 

Entretanto, diante de instabilidades e resistências internas, houve a tentativa de um golpe de militar em 19 de agosto de 1991 para afastá-lo da liderança soviética, o forçando a abandonar o seu cargo de Secretário-geral do Partido Comunista e o colocando em prisão domiciliar. O golpe fracassou, e Mikhail Gorbatchev recuperou a posição dois dias depois. As instabilidades causadas, porém, foram determinantes para ele demitir-se da chefia de estado no dia 25 de dezembro de 1991.

Como analisou Robert J. McMahon,

“o colapso da União Soviética em 1991 foi um produto de forças ativadas pelas reformas de Gorbachev que ele se mostrou incapaz de controlar, representa um marco histórico crucialmente importante por seus próprios méritos, mas um anticlímax no que diz respeito à Guerra Fria. Na época que a União Soviética desapareceu, a própria Guerra Fria já era história.”

 Em 1993, fez o papel de si mesmo no filme “Tão longe, tão perto”, de Win Wenders. Em 1995, candidatou-se à presidência da Rússia, mas teve votação insignificante. Sua mulher, Raisa, morreu em 1999.

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Pedro Costa

Por:

Estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Participou da fundação da CNN no Brasil. Atualmente, direto da capital federal, cobre política e economia em O Brasilianista e na Arko Advice.

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