Massacre da Praça da Paz Celestial: uma verdade escondida

Um homem livre dirá a verdade sobre o que pensa e sente entre milhares de homens que por seus atos e palavras atestam exatamente o contrário. Parece que quem expressa com sinceridade o seu pensamento deve ficar só, ao passo que geralmente acontece que todos os outros, ou pelo menos a maioria, têm pensado e sentido as mesmas coisas, mas sem expressá-las. E o que ontem era a opinião nova de um homem, hoje se torna a opinião geral da maioria. E assim que essa opinião é estabelecida, imediatamente em graus imperceptíveis, mas além do poder de frustração, a conduta da humanidade começa a se alterar.

Leo Tolstoy

Protestos na Praça da Paz Celestial

Em 4 de junho de 1989, o governo chinês lançou uma repressão militar brutal contra as manifestações lideradas por estudantes reunidas na Praça da Paz Celestial em Pequim.

Durante sete semanas, os manifestantes aglomeraram-se, somando centenas de milhares (mais de um milhão no auge dos protestos, de acordo com alguns relatos) para pedir por liberdade de expressão; liberdade de imprensa; responsabilidade do governo e o fim do clientelismo e da corrupção.

Embora o incipiente Movimento pela Democracia Chinesa fosse composto por muitas facções com muitas agendas diferentes, de modo geral, ele visava a reformas liberais.

A dissensão permeou o Exército da Libertação Popular, e até mesmo alguns dos escalões superiores do Partido Comunista Chinês simpatizaram com os manifestantes. Mas, no final, o partido venceu, sendo as ordens para usar força militar na liberação da praça executadas no ato.

Até hoje, censura, ofuscação e negação vindas do governo dificultam a verificação dos detalhes quanto ao número de mortos no massacre resultante, com estimativas tão baixas quanto 200 a outras acima de 10 mil (de acordo com um documento do governo britânico desclassificado em 2017).

Uma das fotos mais icônicas do século XX, “Tank Man”, ou “O Rebelde Desconhecido“, foi tirada durante a repressão militar e, desde então, se tornou um símbolo duradouro do indivíduo versus estado.

30 Years After Tiananmen, 'Tank Man' Remains an Icon and a Mystery - The  New York Times

Censura e lavagem cerebral

Infelizmente, parece que esta famosa imagem e os eventos de 4 de junho de 1989, em grande parte, desapareceram da consciência coletiva do povo chinês devido a uma campanha orwelliana de repressão oficial e censura autoimposta.

Muitos observadores estrangeiros notaram temas de ignorância e apatia em massa: “Os estudantes chineses são tão apolíticos, tão focados em empregos e riqueza, que nem mesmo sabem de sua própria história poderosa.” Outra história relata uma mensagem semelhante:

Depois de anos de silêncio forçado, muitos jovens não têm ideia se algum dos [rumores do massacre] ocorreu. Outros passaram a acreditar que a repressão era inevitável ou mesmo necessária por uma questão de estabilidade.

Um jornalista chinês em Pequim lamenta que “mesmo aqueles que estão bem cientes da intromissão do estado fazem pouco esforço para buscar a verdade e pressionar por mudanças”.

Um legado de democracia

No entanto, é impossível reescrever completamente a história e impor o silêncio ideológico em um país com mais de um bilhão de pessoas. Muitos que viveram os eventos de 1989 ainda estão vivos na China. Os dissidentes em Hong Kong, Taiwan e em outros lugares no exterior não esqueceram do massacre.

Wang Dan, um dos principais líderes estudantis durante os protestos estudantis de 1989, defende sua decisão e acredita firmemente que faria tudo de novo se confrontado com as mesmas escolhas hoje:

Apesar de nosso fracasso, acredito que nós, manifestantes, fizemos a diferença. A CNN noticiou ao vivo o que aconteceu na Praça Tiananmen, e o governo chinês percebeu que não poderia mais massacrar seus cidadãos com o mundo inteiro assistindo.

Aumentamos a consciência pública sobre a democracia; muitos dos advogados e ativistas de direitos humanos que desafiaram a legitimidade do Partido Comunista nos anos desde o massacre eram participantes ou apoiadores do movimento de 1989. E, hoje, o Ocidente finalmente reconheceu os perigos do regime totalitário da China.

Muitos intelectuais, empresários internacionais e seus colegas chineses que trabalham e vivem no continente reconhecem corretamente que a China se tornou menos livre do que era uma década atrás, desde que Xi Jinping consolidou seu poder. Por todo o continente e até em lugares anteriormente livres como Hong Kong, a liberdade de expressão, os dissidentes e a sociedade civil foram implacavelmente reprimidos pelo regime chinês.

Não esqueçamos o que aconteceu na Praça da Paz Celestial

Por mais triste que seja reconhecer a recaída da China ao autoritarismo, isso só deveria encorajar os amantes da liberdade em todos os lugares a buscar e divulgar a verdade. Em 4 de junho de 1989, jovens de todas as origens e classes sociais estavam dispostos a colocar suas vidas no pelas esperanças de um mundo mais livre.

Assim, a justiça permanece indefinida enquanto seus assassinos ainda estão foragidos e ativos no Partido Comunista Chinês, que governa o país até hoje.

Jiang Lin, jornalista do ELP com ligações com a liderança interna do partido, testemunhou o massacre e viveu com memórias suprimidas por 30 anos. Em uma entrevista para o The New York Times, ela finalmente quebrou o silêncio quando sua consciência culpada era demais para suportar:

A dor me consumiu por 30 anos. Todos os que participaram devem falar sobre o que sabem que aconteceu. Esse é o nosso dever para com os mortos, os sobreviventes e as crianças do futuro.

Por fim, ela diz que, “a aparentemente estabilidade e prosperidade da China seriam frágeis, contanto que o partido não expiasse o derramamento de sangue.” Esta fachada não pode durar. “Tudo isso é construído na areia. Não há base sólida. Se você negar que pessoas foram mortas, qualquer mentira é possível”, avisa.

Jiang Lin está absolutamente certa. Não esqueçamos os eventos da Praça da Paz Celestial em 1989. Como observou Tolstoi, é necessário apenas um único ato de coragem de um indivíduo livre para criar uma onda que se tornará uma onda gigantesca. A mensagem de liberdade é universal, e devemos sempre nos posicionar juntos contra as tentativas de opressão do governo, não importa onde estejam.

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Aaron Tao

Por:

Aaron Tao é um jovem empreendedor situado em Austin, Texas.

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