Liberdade, literatura e Nobel: a vida e obra de Mario Vargas Llosa

Mario Vargas Llosa é o principal nome em prol do liberalismo político, econômico e social no campo da literatura contemporânea e da política nas Américas. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, reúne dezenas de obras relevantes mundialmente. Hoje, com 84 anos de vida, pode ser considerado um jornalista, escritor, político, ensaísta e professor universitário.

História de vida

Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936, Mario Vargas Llosa é filho de pais divorciados após cinco meses de seu nascimento. Llosa transitou entre o Peru e a Bolívia durante a infância, optando por cursar Letras e Direito na Universidad Nacional Mayor de San Marcos, em Lima, no Peru.

A política o influenciou desde pequeno, com o ponto de partida em 1948, quando, aos 12 anos, observou o golpe militar do general Manuel Apolinario Odría ao derrubar o presidente José Luis Bustamante y Rivero, parente de sua família materna. Nesse contexto, Mario viu florescer o ódio às ditaduras de qualquer tipo, constante que ele avalia ser a mais invariável de seu comportamento durante a vida.

Em relação à Universidade, decidiu, contra a vontade dos pais, cursar em uma faculdade insubmissa ao regime repressivo, onde sabia que poderia se filiar ao Partido Comunista. Militou durante um ano dentro do Grupo Cahuide, que tentava reconstruir o partido. No grupo revolucionário, foi introduzido a Lênin, Marx, Engels e outros pensadores da esquerda.

Após anos de graduação e alguns empregos, o peruano ganhou uma bolsa de estudos na Espanha e se mudou para lá, consagrando-se doutor em Filosofia e Letras pela Universidade Complutense de Madri. Depois disso, passou anos também na França, onde casou com sua tia, Julia Urquidi. Posteriormente eles se divorciaram e, mais tarde, Llosa se casou com sua prima-irmã, Patricia Llosa, com quem teve três filhos.

Na França, exerceu diversas profissões tais como professor de espanhol, jornalista e tradutor.

A sedução pelo socialismo

A época de estudos marxistas foi marcante na vida do jovem do autor, com Llosa aderindo ao socialismo dentro da faculdade e fora dela também.

Durante anos, foi adepto de conceitos existencialistas do filósofo Jean Paul-Sartre, defendeu a tese do materialismo histórico e da luta de classes. Além disso, ele escreveu muito sobre a necessidade de liberdade individual e da política frente aos regimes repressivos de várias regiões do continente americano, principalmente do Peru.

Com a vitória da Revolução Cubana, que flamejava na América Latina, Llosa reviveu mais intensamente seus ideais socialistas, acreditando em um regime que “permitiria a crítica, a diversidade e até a dissidência”.

Sua identificação com Cuba durou boa parte dos anos de 1960, época em que viajou cinco vezes ao país como membro de um Conselho Internacional de Escritores da Casa de las Américas. Assim, ele defendeu a ideologia coletivista em diversos manifestos e artigos.

Contudo, próximo de seus 30 anos de vida, ao mesmo tempo em que lia os livros clássicos de esquerda, como os de Antonio Gramsci e Frantz Fanon, Mario Vargas Llosa também estudou, às escondidas, o jornal Le Figaro, para ler os artigos de Raymond Aron, pensador liberal cujas ideias o seduziam.

Dessa forma, a leitura de novas ideias somada às experiências autoritárias dos regimes socialistas o aproximaram cada vez mais do polo oposto ao comunismo, alterando por completo sua ideologia.

Crenças liberais

Com seu amadurecimento e experiência, o escritor passou a adotar ideais liberais, sendo um ávido defensor do livre mercado, da liberdade individual e política, do pluralismo, da liberdade de expressão e do capitalismo.

A criação das Umap, em Cuba, que escondia campos de concentração onde juntavam contrarrevolucionários, homossexuais e “delinquentes comuns”, já havia acendido um alerta em sua mente.

O estopim de sua mudança, contudo, foi uma visita à União Soviética em 1966, quando percebeu as raízes do totalitarismo impregnadas no regime. Lá, segundo o autor, descobriu que, se fosse russo, certamente teria virado um dissidente (um pária) ou ficaria “apodrecendo no gulag”.

A censura do poeta Heberto Padilla, ativo participante da Revolução Cubana e posterior crítico do regime, foi uma espécie de gota d’água para Llosa. Depois de fazer críticas à política cultural do regime em 1970, foi atacado pela imprensa oficial e depois preso, acusado de ser um “agente da CIA”.

O peruano, então, protestou em carta contra os abusos do regime, sendo acusado, junto a seus colegas, de estar a serviço do imperialismo, sendo assim proibido pessoalmente por Fidel Castro de voltar a Cuba, por tempo “indefinido e infinito”.

Assim, ele passou a criticar as ações dos regimes de esquerda, como a invasão da Tchecoslováquia pelos soviéticos.

Nessa época, Mario Vargas Llosa percebeu a pobreza; os “bêbados jogados na rua”; uma apatia generalizada; e uma desigualdade enorme na URSS, seja em relação a classes sociais, seja em relação ao poder.

A partir de eventos conflitantes, Vargas passou a defender com convicção a democracia capitalista, sendo acusado de defensor da burguesia reacionária pelos socialistas revolucionários.

Nesse contexto, Llosa escreveu:

Não se deve entender o liberalismo como uma ideologia a mais, um desses atos de fé laicos tão propensos à irracionalidade, às verdades dogmáticas – tanto quanto as religiões, todas elas, das primitivas mágico-religiosas às modernas.

Ele também acompanhou os governos de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, analisando a derrocada do socialismo autoritário em diversos países. Logo, se convenceu da superioridade da cultura da liberdade e seus avanços em direitos humanos e economia de mercado.

O liberalismo é uma doutrina que não tem respostas para tudo, como pretende o marxismo, e admite em seu seio a divergência e a crítica, a partir de um corpo pequeno, mas inequívoco, de convicções.

Na época, influenciado por Margaret Thatcher, leu A sociedade aberta e seus inimigos e O Caminho da Servidão, virando fã de Karl Popper e Friedrich Hayek. Inclusive, adotando suas obras como livros de cabeceira. 

Durante a década de 1980, começou a se envolver mais na política de seu próprio país, participando de investigações sobre a morte de jornalistas. E, em 1987, ele iniciou o movimento liberal contra o estatismo e as políticas de esquerda.

Eleições presidenciais

O peruano se opôs à nacionalização de todo o sistema financeiro, a qual o presidente Alan García tentou fazer em seu primeiro governo (1985-1990), e fundou o Movimento Liberdade.

Adorado por grande parte da população e motivado pelos ideais que abraçara, Mario Vargas Llosa decidiu, em 1990, concorrer à presidência do Peru, em uma coalizão liberal de direita, uma Frente Democrática. Seu objetivo visava transformar radicalmente a sociedade peruana e radicar a prosperidade de seu país na liberdade.

Embora tenha recebido muitos votos, indo para o segundo turno, Vargas perdeu para Alberto Fujimori, que posteriormente se tornou um ditador e violador recorrente dos direitos humanos no país. Em 1993, o autor decidiu deixar o Peru e obter a cidadania espanhola. As memórias de sua candidatura foram contadas no livro Peixe na água.

Suas obras

O autor inicia sua carreira literária com as obras Os Chefes de 1959 e A cidade e os cachorros de 1963. Neste segundo, Llosa narra o dia a dia dos alunos no Colégio Militar Leoncio Prado, em Lima. A obra o consagrou como autor, alcançando fama mundial, com múltiplas edições em dezenas de idiomas e conquistas como o Prêmio da Crítica na Espanha.

Ao longo dos anos, ele também escreveu sucessos como Conversa na Catedral, que se passa durante o regime do ditador general Manuel A. Odría; e  Tia Júlia e o Escrevinhador de 1977, uma crítica à hierarquia de castas sociais e raciais.

Em 1981, escreveu o relevante Entre Sartre e Camus, no qual debateu a polêmica entre os dois pensadores acerca dos campos de concentração na União Soviética. Em suma, ele concordou com Camus ao concluir que, “quando a moral se afasta da política, começam os assassinatos” e que, por lá, “o terror era uma verdade nua e crua”, condenando as políticas do regime.

Já em 1996, Llosa lançou A Casa Verde, cujo enredo versa sobre a história de um prostíbulo.

Nas décadas mais recentes, complementou ainda mais sua carreira com Sabres e Utopia, um livro de ensaios publicado em 2009; O Sonho do Celta e A Civilização do Espetáculo, ambos em 2010.

Este último trata-se de um livro crítico que aborda a frivolidade da política, a banalização da arte e da literatura e o crescimento do jornalismo sensacionalista. Por último, escreveu O Chamado da Tribo em 2019, um dos livros mais importantes de sua carreira como pensador.

Prêmio Nobel de Literatura

Em 2010, aos 74 anos, Mario Vargas Llosa foi celebrado com o principal prêmio do campo literário: o Prêmio Nobel de Literatura, por seu conjunto de obras ao longo da vida. Na época, o autor chegou a pensar que fosse um trote ao receber a ligação com o anúncio da conquista.

No entanto, a Academia Sueca responsável pela escolha afirmou que a decisão aconteceu principalmente pela “cartografia das estruturas do poder e suas imagens vigorosas da resistência, revolta e derrota individual”.

Antes, o autor também já havia ganho, além de outros troféus, o prêmio Cervantes, o mais importante da língua espanhola, no ano de 1994.

O chamado da tribo

Esta obra de 2019 configura-se como uma ótima leitura de iniciação ao pensamento liberal. Durante o ensaio autobiográfico, o autor divaga sobre os pensadores do liberalismo que formaram sua visão de mundo e influenciaram-no durante a maior parte de sua vida.

No livro, o autor faz um breve resumo de pessoas como Adam Smith, Friedrich Hayek, Ortega y Gasset, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel, tecendo críticas e acrescentando opiniões a todos eles. Também ressalta sua influência por nomes como Albert Camus, George Orwell e Arthur Koestler.

O objetivo principal do livro é defender a sobreposição do individual sobre o coletivo, contra o que denomina de “chamado da tribo”, que seria uma prática primitiva no que tange a sociedade, regida por um líder tribal.

Llosa disserta:

É assim que Karl Popper chama a irracionalidade do ser humano primitivo que nunca superou totalmente a saudade daquele mundo tradicional – a tribo – em que o homem ainda era parte inseparável da coletividade, subordinado ao feiticeiro ou ao cacique todo-poderosos que tomavam todas as decisões por ele, e nela se sentia seguro, livre de responsabilidades, submetido, como o animal na manada, no rebanho, ou o ser humano em uma turma ou torcida, adormecido entre os que falavam a mesma língua, adoravam os mesmos deuses e praticavam os mesmos costumes, e odiando o outro, o diferente, que podia ser responsabilizado por todas as calamidades que assolavam a tribo.

Na obra, ele reforça sua aversão ao nacionalismo, a intolerância, a repressão e a igualdade a qualquer custo, sendo ávido crítico da esquerda marxista e sua inevitável violência estatal.

O espírito tribal, fonte do nacionalismo, foi o causador, junto com o fanatismo religioso, das maiores matanças da história da humanidade.

Além disso, ele sempre reforça sua defesa pelo livre mercado como instrumento para o desenvolvimento material e o progresso; pela liberdade de expressão; pelos direitos humanos; pelos direitos das minorias sexuais, religiosas e políticas; pelo meio ambiente e pela participação livre dos cidadãos.

Como apoiador da liberdade em todos os âmbitos, Mario Vargas Llosa se consagrou como um dos mais relevantes e lúcidos literários, jornalistas e políticos do mundo atual, sendo uma referência para os entusiastas da boa cultura, em um campo tão dominado pelos ideais marxistas.

Atualmente, o autor escreve colunas para alguns jornais e volta e meia cede entrevistas, opinando sobre o cenário político e literário mundial.

Os latino-americanos são sonhadores por natureza e temos problemas para diferenciar o mundo real e a ficção. É por isso que temos tão bons músicos, poetas, pintores e escritores, e também governantes tão horríveis e medíocres.

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É graduando em Direito e em Administração Empresarial, além de coordenador do Students For Liberty em Santa Catarina.

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