Libertários costumam cometer esses três erros

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Libertários costumam cometer esses três erros

*Juan Fernando Carpio

Ao defenderem os princípios de uma sociedade livre, os libertários frequentemente esbarram em obstáculos de todos os tipos. 

Tal empreitada pode ser encarada como uma batalha ou — melhor ainda — como uma venda. O fato é que nossos métodos de persuasão e de debate são uma parte muito importante da nossa mensagem. Forma é tão importante, ou mais, do que o conteúdo, para convencer os outros no debate público.

Esses são três erros comuns que devem ser conhecidos e evitados.

1. Libertarianismo não é intuitivo ou óbvio

É verdade que certas posições morais (como ser contra o roubo ou o assassinato) são universais e suficientemente intuitivas. Porém, toda a teoria libertária não é óbvia e nem fácil de ser compreendida.

O problema é que a maioria dos libertários se esquece de como eles aprenderam e, principalmente, se esquecem de como eram ignorantes antes de adquirirem o conhecimento.  

Assim, eles projetam uma luz de conhecimento sobre todo o seu passado, comportando-se como se já tivessem todo aquele conhecimento desde sempre.

Isso é fácil de ser observado naqueles que já leram gigantes como Mises e Rothbard. Tão logo absorvemos algumas de suas perspicazes observações, e passamos a tratá-las como óbvias, que dispensam explicações.  

Mas o problema é que elas não são óbvias.  Nós adquirimos o conhecimento ao longo de anos de estudo, lendo dezenas de livros, conversando com dezenas ou centenas de pessoas e assistindo incontáveis palestras e vídeos.  

Todo libertário que conheço continua a ler e a debater os fundamentos do libertarianismo — e não apenas sua aplicação aos eventos atuais ou à história.

Isso, para mim, mostra que o libertarianismo é um edifício com muitas partes ainda em construção.  Mesmo que alguns possam resumi-lo de várias formas, elas jamais poderão substituir a totalidade da doutrina.

2. Pressupor um ponto em comum com todo o resto

Há um conflito que perpassa toda a história da humanidade: Liberdade versus Poder. Ele pode ser compreendido apenas quando os fundamentos básicos são adequadamente identificados. 

Comecemos pela liberdade.  Em tempos antigos, a liberdade era definida como a capacidade de poder participar em tomadas de decisão coletivas e de ter independência em relação a outras nações.  

Portanto, a liberdade era uma questão de participação política e de soberania nacional. O indivíduo não era uma unidade política relevante.  

E assim permaneceu até o advento do Humanismo, quando o indivíduo foi colocado no centro da análise política e econômica.  

Foi a partir daí que a Liberdade começou a ter o significado que nós libertários precisamos que ela tenha a fim de possibilitar que nossas constatações sejam populares em qualquer época e lugar.

Poder, por outro lado, para nós significa poder político.  Ele surge do uso da força ou da ameaça do uso da força.  

A educação, a mídia e os valores tradicionais sem dúvida influenciam o comportamento humano, mas todos eles podem ser escolhidos ou rejeitados pelos indivíduos.

Se os conceitos de liberdade e poder devem ser entendidos, para que o discurso libertário faça todo o sentido, o mesmo é válido para os conceitos de propriedade, contrato, mercado, estado, leis e vários outros.

Não podemos pressupor um ponto em comum com todo o resto — especialmente nesses tempos pós-modernos, em que cada conceito ocidental está sendo matizado e redefinido pelos tiranos locais.

3. Ironicamente, esquecer-se da importância das ideias e da persuasão

Os libertários algumas vezes pensam que, a partir de certo momento, as ideias deixam de ter importância.

Tão logo o indivíduo adota uma visão de mundo libertária, ele se esquece da difusão das ideias e passa a tratar todos os que defendem a existência de um estado como um bando de preguiçosos, de idiotas ou de corruptos. 

Sendo um ex-social democrata, sei que não é assim: vários pensadores e ativistas políticos são bem intencionados; eles apenas não tiveram a sorte de compreender aquelas noções pelas quais temos tanto apreço.

Pode estar certo de que a maioria possui uma boa noção das nossas posições; porém, isso não é o suficiente.

Incorporar uma ideia por completo exige não apenas uma boa exposição aos conceitos desta, mas também que o ouvinte esteja disposto a aprender.  

Muitos libertários manejam seus insights como se fossem espadas, adotando uma atitude de superioridade moral, procurando sempre punir o não-convertido.

E é esse tipo de atitude que afasta as pessoas das ideias. Se elas, as ideias, fossem intuitivas, a persuasão não seria necessária.  Mas elas não são.

Se quisermos ter êxito no mercado das ideias, se quisermos ganhar os corações e mentes das pessoas, precisamos nos lembrar de como esse bem foi vendido para nós em primeiro lugar. 

Adotar uma postura diretamente antagônica, criando hostilidade e inimizade, pressupondo como óbvias ideias que hoje são difíceis de se compreender de primeira, é uma receita certa para o fracasso.

*Juan Fernando Carpio é mestre em Economia pela Universidad Francisco Marroquin, da Guatemala e é o presidente do Instituto para la Libertad, um think tank libertário equatoriano.

Por | 2019-09-23T10:12:41-03:00 23/09/2019|Comunidade Libertária, Libertarianismo|Comentários desativados em Libertários costumam cometer esses três erros