Leonid Brejnev: o bon vivant “sem sal” da URSS

Pepsi ou Coca-Cola? Que pergunta boba, né? Como as duas opções são gostosas, basta ir a um supermercado e fazer sua escolha. Viva o capitalismo! 

Ainda que para nós, conterrâneos de uma economia parcialmente livre, a escolha de um refrigerante seja uma situação banal, para os soviéticos da década de 70, essa simples dúvida era motivo de uma imensa alegria.  

Sim, muita felicidade. Fundadas no final do século XIX, Pepsi e Coca-Cola sempre fizeram parte do cotidiano norte-americano, mas, em decorrência da aversão ao lado norte-americano pelos russos, fruto de uma guerra ideológica, apenas chegaram ao solo da União Soviética (URSS) em 1974 e 1979, respectivamente.  

Além de serem censurados de todas as formas, obrigados a exaltar figuras comoLVladmir Lenin, Josef Stalin e Nikita Kruschev e a viver em uma nação cujo fim era o comunismo, os indivíduos da URSS ficaram sem poder tomar, por um bom tempo, um mero refrigerante. 

Ok, mas o que tudo isso tem a ver com Leonid Brejnev? Tudo, pois foi durante o governo de Brejnev (1964-82) que a União Soviética, entre outros acontecimentos, se aproximou dos Estados Unidos e permitiu a entrada de produtos americanos no país. 

Os primeiros passos de Leonid Brejnev 

Os primeiros passos de Leonid Brejnev
Foto: Leonid Brejnev – CVCE

Nascido na Ucrânia em 1906, período em que a região pertencia à Rússia czarista, Leonid Brejnev viveu de perto, mas não diretamente, o turbulento período da Guerra Civil que levou os bolcheviques (ala mais radical do conflito e que daria origem ao partido comunista da União Soviética anos depois) ao poder, episódio histórico conhecido como Revolução Russa de 1917.  

Desde pequeno, não se sabe se por influência ou não da revolução, Leonid já se interessava pelas ideias da esquerda. No ano de 1923, por exemplo, quando não tinha nem 20 anos de idade, o futuro líder da URSS ingressou no Komsomol (organização da juventude do Partido Comunista Soviético). Anos depois, em 1931, saiu da categoria “sub-comunista” para entrar no, de fato, no Partido Comunista da União Soviética (PCUS).  

Brejnev não sabia, mas sua entrada no PCUS mudaria sua vida. Foi durante seus anos de militante comunista que conheceu Nikita Kruschev, também futuro comandante da União Soviética. 

Abramos um parêntese para falar de Nikita. Ainda que pareça, o encontro de Kruschev com Brejnev não foi tão inesperado assim. 

Nikita Serguêievitch Khrushchov, conhecido no Ocidente por Nikita Kruschev, nasceu em 15 de abril de 1894, em Kalinovka, uma pequena aldeia russa perto da fronteira com a Ucrânia. Ou seja, ambos eram ucranianos e participavam do partido comunista local. No ano de 1938, Kruschev chegou a ser, inclusive, líder do PC na Ucrânia. Um ano depois, Leonid tornou-se diretor da agremiação na sede ucraniana.  

O encontro entre os dois futuros expoentes soviéticos, todavia, estava somente em seu primeiro passo. 

Brejnev e Kruschev: ucranianos (e comunistas) 

Leonid Brejnev: o bon vivant “sem sal” da URSS
Foto: Wikipedia – Leonid Brezhnev

Certo, o texto é sobre Brejnev, mas é impossível escrevê-lo sem falar, muito, de Nikita.  

Em junho de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), quando a Alemanha nazista invadiu a União Soviética, por exemplo, ambos estiveram lutando pela União Soviética. Leonid, em específico, atuou em diversas frentes de batalha e ascendeu na carreira militar, atingindo a patente de Major general.  

Findada a guerra, Brejnev trabalhou em projetos de reconstrução da Ucrânia e, em 1950, tornou-se deputado do Soviet Supremo, a mais importante instância legislativa da URSS. Em 1951, foi Primeiro Secretário do Partido na Moldávia e, no ano seguinte, passou a integrar o Comitê Central do Partido Comunista.  

Simpatizante da esquerda desde a infancia, funcionário do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e protegido de Nikita S. Kruschev, Brejnev foi subindo degrau por degrau na hierarquia do PCUS.  

Até que, em 1956, foi designado secretário do Comitê Central (CC) e, em 1957, membro do Politburo. Exatamente, Leonid Brejnev se tornou um dos constituintes do mais alto escalão de um dos partidos mais fortes do mundo da época.  

Na época em que Leonid ascendeu ao cargo, a União Soviética estava passando por uma “crise de identidade”. Como assim? Uma das figuras mais importantes para os soviéticos até o momento, Joseph Stalin, estava tendo sua biografia questionada por Nikita Krushev, atual líder da nação. 

Durante o 20° congresso do partido comunista, realizado em 1956, por exemplo, Kruschev acabou com a figura, já em memória, de Josef.  

Durante quatro horas, que foram transcritas em mais de 57 páginas, Kruschev surpreendeu o mundo comunista ao denunciar seu antecessor, Stalin, como um torturador e assassino, falando sobre as grandes purgasholodomor, entre outras ações criminosas promovidas pelo ditador. Batizado de “O culto à personalidade e suas consequências”, o discurso da então atual liderança soviética criticou a idolatria em torno dos líderes soviéticos, denunciou Stalin e condenou as práticas autoritárias soviéticas de anos anteriores.   

O episódio, além de conflitos internos no partido, todavia, foram corroendo a sustentação de Nikita Kruschev no poder (e, por ironia do destino ou não, moldando o espaço para o crescimento de Leonid Brejnev). 

Rompimento comunista 

Foto: Leonid Brezhnev

Quase uma década após o discurso de Stalin, em 1963, Nikita foi deposto da liderança da União Soviética, com Brejnev sendo um dos articuladores dessa queda. Ainda que próximos durante o início de suas carreiras na Ucrânia, como mencionado, Nikita e Leonid romperam suas ligações. 

Um ano após romper com seu colega de partido, Leonid Brejnev, em 1964, foi designado secretário geral do Partido Comunista, cargo que lhe outorgou o máximo poder no regime soviético, e onde ficou ao longo de 22 anos. Em suma, Brejnev assumiu a cadeira de Kruschev. 

Governo Leonid Brejnev 

Foto: Leonid Brejnev (esquerda) e Erich Honecker (direita) – Aventuras na História

O governo Leonid Brejnev (1965-82) foi marcado, na visão de muitos historiadores, por um certo retrocesso na política russa. Ao contrário de Kruschev, que expês Stalin e buscou fazer com que a imagem da URSS fosse um pouco mais “amena”, Brejnev foi o oposto.

A política de Leonid reforçou o papel da repressão às ideias contrárias à esquerda, prendeu dissidentes e foi contra tentativas de mudanças políticas.  Sem novas ideias para dinamizar o regime, o país voltou ao centralismo da época stalinista e foi mergulhando paulatinamente na burocratização e no estancamento. 

Na economia, os anos Brezhnev foram marcados por crescimentos econômicos até 1973, quando a URSS entrou em uma fase de estagnação econômica da qual apenas iria se recuperar no início da década 1980. Mesmo que, no início, tenha tido uma expansão no setor da economia, a gestão financeira de Leonid ficou conhecida como a “estagnação Brezhnev”.

O líder soviético também investiu  em armas e tecnologia espacial, mas o período foi marcado pelo colapso dos sistemas públicos de saúde e educação da União Soviética.

Em 1976, entretando, Brezhnev tornou-se o primeiro líder partidário desde Stalin a ostentar o título de marechal da União Soviética, o mais alto cargo militar do país.  

Quanto à sua própria qualidade de vida, Brejnev não encontrou dificuldades. Bon vivant, amante da caça e de carros, o líder soviético governou sem sustos e sem riscos até morrer, em 10 de novembro de 1982. 

Brezhnev era amante de carros, especialmente estrangeiros. Mas, em público, diria apenas os modelos soviéticos.

Para que tenhamos ideia da pouco marcante era Leonid, um dos momentos mais lembrados de sua administração foi um beijo que ele deu no primeiro-ministro da Alemanha oriental Erich Honecker em 1979. Em tempos soviéticos, a Rússia tentou exportar sua tradição beijoqueira para o resto da Cortina de Ferro, no que era conhecido como o “beijo fraterno socialista”. 

Em 1990, a foto foi parar no Muro de Berlim, que já havia sido aberto, mas ainda estava de pé. Abaixo, em russo e alemão, lia-se: “Meu Deus, ajude-me a sobreviver a esse amo mortal!”. 

Querendo ou não, a URSS teve de ceder às mudanças que o mundo do momento estava passando: abertura econômica, declínio da Guerra Fria e esfacelamento de regimes ditatoriais pelo mundo. 

Sem sal 

Foto: Mensagens com Amor – Leonid

Ainda que visto pelos estudiosos da história como um líder “sem sal”, os anos de Leonid Brejnev foram alguns dos últimos da União Soviética, que teria fim em 1991. A chegada de Pepsi e Cola-Cola em solo soviético, por exemplo, representou uma abertura normal que o país teve de ceder com o desfecho da Guerra Fria, no mesmo ano do fim da URSS. 

A União Soviética de Brejnev, literalmente, foi se “deixando levar”. 

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Pedro Costa

Por:

Estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Participou da fundação da CNN no Brasil. Atualmente, direto da capital federal, cobre política e economia em O Brasilianista e na Arko Advice.

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