Josef Stalin, o homem de ferro da União Soviética

Ainda que parte da esquerda reverencie ditadores, dificilmente você verá um ser humano apoiando Josef Stalin. Em 2018, por exemplo, o político Ciro Gomes afirmou que a Venezuela, sob liderança de Nicolás Maduro, apesar de marcada por perseguições políticas, fome e hiperinflação, era “uma nação democrática tanto quanto os Estados Unidos”. Um ano após o vexame, foi a vez do socialista Guilherme Boulos cometer o mesmo equívoco. Além de defender a integridade das eleições venezuelanas, afirmou que para que o país saísse da grande crise humanitária, bastaria somente o povo venezuelano votar conscientemente.  

A mesma defesa, no entanto, não se vê em ícones socialistas como Stalin, responsável por massacres, espurgos e violações na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Historiadores afirmam que o político fez escolhas que levaram à morte de pelo menos 20 milhões de pessoas – número que pode chegar, dependendo da fonte, a 40 milhões. Estima-se que o ditador assinou de próprio punho a execução de 41 mil indivíduos. 

Apesar desse histórico, nos primeiros anos de sua vida Stálin estudou para ser padre. Sim, a vida deste georgiano é repleta de altos e baixos. Trata-se de uma das figuras mais controversas do século XX, mas cuja vida e trajetória ainda são pouco esmiuçadas no debate público.  

Josef Stalin: como tudo começou 

O que fazer, portanto, para que os russos evoluíssem? Foi exatamente essa pergunta que Nicolau II, último imperador da nação, pensou. Ao contrário de seu antecessor, Alexandre III, que investiu no setor primário ao invés de pensar em indústrias, Nicolau pensava grande. Queria tornar o Império Russo grande.
Foto: Nicolau II – Valor Econômico

Para compreender a vida de Stálin, é preciso entender o panorama do Império Russo ao final do século XIX.

Ao contrário das nações que se desenvolveram com a Revolução Industrial, como as potências da época Reino Unido, França e Alemanha, a Rússia ainda estava em um estágio muito atrasado. A denominação “Gigante dos Pés de Barro” era frequente: o país, muito grande geograficamente, não passava de um grande campo de commodities. 

O modelo político vigente era o czarismo — uma forma de absolutismo, no qual o czar (imperador) concentrava em suas mãos todos os poderes. A ele estavam submetidas todas as classes sociais, desde os servos até a nobreza, e a Igreja Católica Ortodoxa. Esses dois últimos grupos eram considerados mais livres do que os servos, mas mesmo assim tinham suas liberdades controladas pelo Império.

A Ochrana (polícia política do imperador) controlava a educação, os tribunais e a imprensa. Os camponeses viviam sob miséria e ainda pagavam altos impostos para manter o sistema czarista. O país estava na lama: os direitos básicos do ser humano (vida, liberdade e propriedade) eram como a literatura do russo Fiodor Dostoievski: uma ficção. 

O que fazer para que os russos evoluíssem? Foi exatamente essa pergunta que Nicolau II, último imperador da nação, pensou. Ao contrário de seu antecessor, Alexandre III, que focou no setor primário, Nicolau achava que a partir do foco industrial seria possível tornar o Império Russo grande. 

O último líder imperial realizou uma transição do regime semifeudal para o industrial na década de 1890. Fábricas foram construídas em Moscou, São Petersburgo, Kiev, dentre outras cidades. Nicolau ordenou ainda a construção da ferrovia transiberiana, que permitiu o escoamento de produtos da Europa Ocidental para o Leste do continente, com muitos russos deixando de ser agricultores para se tornar trabalhadores de fábricas e indústrias.  

Herança marxista 

O pensador da moda na Europa era Karl Marx. Sua corrente de pensamento, marxismo, estava se espalhando ferozmente no continente. O Capital, por exemplo, obra mais famosa da doutrina marxista, publicado em 1867, estava se popularizando.
Foto: Marx e revolucionários – RevoluStore

Com a dilatação do setor industrial russo, a ampliação do contato com outros países e o avolumamento das cidades do império, o número de operários aumentou rapidamente. Estes estavam cada vez mais descontentes com a liderança política do Império (e, por estarem em frequente contato com novas culturas, ideologias e pensamentos, se politizaram).  

O pensador da moda na Europa era Karl Marx. Sua corrente de pensamento, marxismo, estava se espalhando ferozmente no continente. O Capital, por exemplo, obra mais famosa da doutrina marxista, publicado em 1867, estava se popularizando.  

Um dos principais sintomas dessa nova forma de pensar se materializou com a fundação, em 1898, do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). A agremiação integrou aos seus quadros vários líderes operários pertencentes a associações e clubes de trabalhadores urbanos. O partido, todavia, aglomerava lideranças políticas cujas ideologias eram diversas: havia anarquistas, socialistas, comunistas, dentre outras correntes. Entre os líderes do grupo estava Vladmir Lenin. 

Apesar de possuírem desejos revolucionários em comum (derrubar o czar e aplicar as ideias revolucionárias de Marx), as lideranças políticas do POSDR, Plekhanov e Lenin, frequentemente se encontravam em choque ideológico. Dessa forma, em 1903, após discordâncias bruscas, cada um seguiu seu rumo.  

Liderados por Plekhanov, a minoria do POSDR, que acreditava ser possível chegar ao poder de maneira pacífica, tornou-se o grupo denominado menchevique. Já a maioria, chamada de bolchevique, e sob liderança de Vladimir Lenin, defendia a necessidade de uma revolução armada para tirar o czar do poder. Além disso, o maior número de integrantes pretendia instalar o socialismo no país, mas de maneira imediata. A divisão pavimentou o caminho para a Revolução Russa, em 1917.

Nasce Josef Stalin 

Adolescente, Stalin frequentou, a partir do ano de 1895, um seminário da Igreja Ortodoxa Russa em Tbilisi, capital de seu país natal. Sua mãe o queria padre, mas foi no local religioso que o jovem começou a estudar o marxismo (e, por isso, se distanciar cada vez mais da religião).
Foto: Stalin jovem – Aventuras Na História

Nascido em Gori, uma pequena cidade da Geórgia, em 1878, Josef Stalin, que, em russo, significa “homem de aço”, teve uma infância sofrida.

Vítima de varíola, carregou marcas no pescoço e no rosto pelo resto da vida, além de ter nascido com duas deficiências físicas: o braço esquerdo 5 cm mais curto e dois dedos do pé colados.

Adolescente, Stalin frequentou, a partir do ano de 1895, um seminário da Igreja Ortodoxa Russa em Tbilisi, capital de seu país natal. Sua mãe o queria padre, mas foi no local religioso que o jovem começou a estudar o marxismo (e, por isso, se distanciar cada vez mais da religião). 

A Rússia vivia um momento de industrialização. Como comentado no início, por meio do intercâmbio de ideias com outras nações da Europa, as ideias de Karl Marx estavam se fortalecendo.

Carregado pelos ideais da época, Josef se rebelou: parou de estudar religião e passou a ler os escritos do marxismo. Com isso, se juntou a um grupo socialista local. Contrariando os desejos de sua materna, o rebelde se tornou ateu e em 1899 foi expulso do seminário.

Alguns anos depois, Stalin aliou-se ao lado bolchevique do POSDR, atuando como editor do jornal partidário e angariando fundos para Lênin. 

Bolcheviques e mencheviques 

Foto: Domingo Sangrento – Conhecimento Científico

Os bolcheviques, Lenin e Stalin, e os mencheviques, Plekhanov, estavam prestes a pipocar. O Império Russo entrou, em 1904, em conflito com o Japão pelos territórios da China e da Manchúria. Um ano depois, a Guerra Russo-Japonesa acabava com uma humilhação russa. A derrota, além da devastação econômica do país, aumentou o sentimento de anti-czarismo na população.

Descontentes com a liderança do imperador Nicolau II, os russos foram às ruas para protestar. O episódio ficou conhecido, no entanto, como Domingo Sangrento.  

Nesse dia, um protesto pacífico organizado na cidade de São Petersburgo, foi repreendido violentamente. O resultado? Centenas de mortos, aumentando a insatisfação geral da sociedade. Ela era maior entre as classes mais baixas, formadas, principalmente de operários e camponeses, formaram grupos políticos — os sovietes. Já a burguesia pressionou o czar para que um parlamento fosse criado.

Com o objetivo de acalmar os ânimos, Nicolau II atendeu o pedido dos burgueses: promulgou uma Constituição e convocou eleições para o parlamento (na Rússia, Duma). Com as mudanças, o czar continuava concentrando grande parte do poder, mas tinha a concorrência do Legislativo (ainda que limitado). 

As mudanças surtiram efeito. O czar conseguiu conter as revoltas e, até o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, o Império Russo viveu sob certa tranquilidade. 

Primeira Guerra e a Revolução 

Foto: Revolução Russa -Jornal A Verdade

Em 1914, o Império Russo entrou na Primeira Guerra Mundial (1914-18). A Rússia lutou ao lado da Inglaterra e da França, contra a Alemanha e o Império Austro-Húngaro.

O exército russo, contudo, foi derrotado em várias batalhas, que deixaram a Rússia ainda mais enfraquecida e economicamente desorganizada. Em fevereiro de 1917, após inúmeros protestos generalizados contra a situação do país (liderada por Nicolau II), o czar renunciou, um episódio que ficou conhecido como Revolução de Fevereiro, e levou os mencheviques ao poder. Foi o início da Revolução Russa

Após a abdicação de Nicolau II, formou-se um Governo Provisório (e o Império Russo se tornou a Rússia). A minoria, entretanto, não permaneceu no poder por muito tempo. No dia 7 de novembro do mesmo ano, operários e camponeses, sob a liderança de Lenin, tiveram um golpe bem sucedido e tomaram o poder, criando o Partido Comunista.

Os primeiros anos de governo bolchevique foram marcados por uma guerra civil que assolou o país. Os bolcheviques queriam se manter no poder, mas uma parte da nobreza não estava disposta a ceder seus privilégios e poder. 

Dessa forma, o Exército Vermelho, criado por Leo Trotsky, derrotou o Exército Branco, formado por nobres e burgueses, garantindo a permanência dos bolcheviques no poder. A revolução se manteve resguardada.  

Com isso, Lenin nomeou Stalin como secretário-geral do Partido Comunista. Lênin retirou a Rússia da Primeira Guerra, estatizou os bancos, as estradas de ferro e as indústrias. Confiscou terras, demandou parte da população urbana para os campos, estabelecendo metas de produção agrícola, entre outras medidas.   

Em 1922, os bolcheviques criaram a URSS. 

Stalin: rumo à liderança 

Após alguns anos de mudanças, os bolcheviques perderam sua liderança. Vladmir Lenin, em 1924, morreu vítima de uma hemorragia cerebral. Muitos no partido esperavam que o líder do Exército Vermelho, Trotsky, seria o sucessor natural de Lenin, mas Stalin toma a dianteira, exila o companheiro, desenvolve sua própria marca nacionalista de marxismo - "Socialismo em um só país" - concentrando-se no fortalecimento da União Soviética e se torna o ditador da União Soviética.
Foto: Stalin – Superinteressante

Após alguns anos de mudanças, os bolcheviques perderam sua liderança. Vladmir Lenin, em 1924, morreu vítima de uma hemorragia cerebral. Muitos no partido esperavam que o líder do Exército Vermelho, Trotsky, seria o sucessor natural de Lenin, conforme preferia Lênin, mas Stalin tomou a dianteira. Ele exilou o companheiro, desenvolveu sua própria marca nacionalista de marxismo — “Socialismo em um só país” — concentrando-se no fortalecimento da União Soviética e gradualmente centralizou poder.

Iniciou-se a ditadura stalinismo, um regime político totalitário, comunista e onde nada é maior do que o estado. 

As políticas de Stalin, nos primeiros anos, foram denominadas como a “revolução a partir de cima” e visavam acelerar o processo de desenvolvimento industrial do país. Foi um período caracterizado pela estatização da economia e pela centralização autoritária do poder

Quando Josef assumiu o poder, por exemplo, a agricultura local ainda era dominada por pequenos proprietários de terras e marcada pela fome e ineficiência. Visando alterar esse cenário, o ditador tentou modernizar o setor por meio da coletivização das propriedades agrícolas. Dessa forma, de uma hora para outra, todas as fazendas da União Soviética se tornaram terras do estado.  

A reação popular foi instantânea. Milhões de fazendeiros passaram a acumular secretamente suas colheitas (ninguém, mesmo os que foram favoráveis à Revolução, quis entregar seus bens de mão beijada para o governo). Contudo, por irem contra a vontade de Stalin, conflitos entre a população e o estado foram formados. Porém, o vencedor foi o governo, com as produções sendo confiscadas. 

As ações causaram fome, e a morte de cerca de cinco milhões de indivíduos com fome.  

O Grande Terror 

Além da agricultura, a industrialização da URSS era um dos objetivos de Stalin. Em 1928, o ditador deu início a uma série de planos quinquenais buscando o crescimento econômico de seu país. Com projetos grandiosos, como a construção de canais, represas, ferrovias e formação de grandes indústrias, a União Soviética atingiu o tão sonhado crescimento – mas sob custo de muito trabalho escravo.
Foto: Stalin – Construindo História Hoje

Além da agricultura, a industrialização da URSS era um dos objetivos de Stalin. Em 1928, o ditador deu início a uma série de planos quinquenais, buscando o crescimento econômico de seu país. Com projetos grandiosos, como a construção de canais, represas, ferrovias e a formação de grandes indústrias, a União Soviética atingiu o tão sonhado crescimento – mas sob custo de muito trabalho escravo.

Devido a uma crescente insatisfação popular, fruto da coletivização dos campos, Stalin passou a encarar antigos aliados como potenciais líderes de uma “contrarrevolução”. Deu-se origem a um movimento que ficou conhecido como as Grandes Purgas, cujo intuito de Stálin era remover qualquer dissidência dentro do partido, bem como eliminar as influências de Vladimir Lênin e Leon Trótski.

Os Gulags, campos de trabalhos forçados da URSS, abrigavam centenas de milhares de pessoas. Ao todo, historiadores consideram que Stalin tenha autorizado o envio de pelo menos de oito milhões de indivíduos a essas prisões. 

O totalitário ainda atuou contra seus próprios “camaradas”. Em meados da década de 1930, Stalin ordenou a execução de noventa e três dos 139 membros do Comitê Central e 81 de seus 103 generais e almirantes. Estima-se que cerca de 750 mil pessoas foram mortas sumariamente por supostamente se operem ao regime.

Além disso, para sufocar uma dissidência de oposicionistas na Ucrânia, a propaganda soviética começou a retratar os camponeses ucranianos como inimigos da revolução. O governo stalinista estipulou ainda metas de produção e entrega de cereais, que apenas poderiam ser cumpridas caso os ucranianos parassem de se alimentar. O intuito era claro: acabar com o movimento nacionalista matando os opositores por inanição.

Para tal, o governo soviético confiscou toda a comida estocada, resultando na morte de seis a oito milhões de soviéticos apenas em 1933.

Adolf Hitler, Guerra Fria e derrame 

Foto: Stalin e Hitler – Jornal Opção

Com o início da Segunda Guerra Mundial em 1939, Josef Stalin firmou um acordo de não-agressão com Adolf Hitler. Apesar de arqui-inimigos ideológicos, o nazista alemão e o totalitário russo fizeram um pacto, em 1939, para dividir o Leste Europeu entre si.

O pacto durou até 22 de junho de 1941, quando a Alemanha, sem nenhum tipo de aviso, iniciou a invasão do território soviético pela Operação Barbarossa. As forças alemãs, ao conquistarem parte da URSS, quase chegaram a Moscou. Mas Stalin, com mãos de ferro, contando ainda com o auxílio da Lei do Lend-Lease dos aliados, conseguiu impedir o avanço nazista em solo soviético.

Em 1945, com a derrota alemã e a vitória dos aliados, a Segunda Guerra chegou ao fim, mas as manobras de Stalin continuaram, dando início a Guerra Fria. No ano de 1949, a União Soviética testou sua primeira bomba atômica, aumentando as tensões entre as potências.

Stalin morreu em fevereiro de 1953, aos 73 anos, após um derrame. As décadas de culto à personalidade, em que Stálin controlava até mesmo as palmas diante de seus discursos, alçavam sua figura como de um herói.

A imagem passou a ser abalada a partir de 1956, quando seu sucessor na liderança da URSS, Nikita Kruschev, ao apresentar à cúpula do partido os arquivos secretos do stalinismo, relevou ao mundo a face desumana daquele que foi o mais contraditório estadista do século XX, dando início a uma onda de “desestalinização”. 

O legado do comunismo 

Foto: comunistas – G.cz

O século XX foi o laboratório das receitas totalitárias; Stalin, Hitler, Mao Tse Tung, por exemplo, foram alguns dos ditadores comunistas que assolaram o período. Ao tentarem pôr em prática seus delírios ideológicos, devastaram seus povos. 

O falecido Rudolph Rummel, o demógrafo do assassinato em massa do governo, estimou o número de vítimas humanas do socialismo do século XX em cerca de 61 milhões na União Soviética, 78 milhões na China e cerca de 200 milhões em todo o mundo. 

Essas vítimas morreram durante fomes organizadas pelo estadocoletivizaçãorevoluções culturaisexpurgos, campanhas contra a renda “não ganha” e outros experimentos em engenharia social. Em sua monstruosidade, esse terror não tem rival no curso da história humana, tendo Stálin como uma das principais figuras.

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Pedro Costa

Por:

Estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Participou da fundação da CNN no Brasil. Atualmente, direto da capital federal, cobre política e economia em O Brasilianista e na Arko Advice.

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