Jordan Peterson: linguagem neutra e liberdade de expressão

Jordan Peterson é um psicólogo clínico canadense, que deu aula nas Universidades de Harvard e de Toronto, e que ficou mundialmente conhecido pela sua oposição à lei canadense C-16, que tornou crime a discriminação contra transexuais. O fato da lei impor um controle legal à linguagem, com o uso da linguagem neutra, levantou fortes debates sobre liberdade de expressão e Peterson tornou-se o centro das atenções no país.

Um número de entrevistas e debates com sua participação viralizaram na internet, por causa das suas respostas incisivas e ousadas. Na maioria das vezes, o entrevistador ou debatedor defendia o texto da lei C-16, ou, de forma mais ampla, pautas associadas aos direitos transexuais e ao feminismo, como na famigerada entrevista ao britânico Channel 4.

Até então, o psicólogo havia concentrado seus esforços no estudo do alcoolismo, por um lado, e na relação entre personalidade, religião e política, pelo outro. Esse segundo foco de pesquisa do professor Peterson é o que o mantém nos holofotes até hoje, com o lançamento dos seus best-sellers “12 Regras para a Vida” e “Além da Ordem”.

A sua forte bagagem cultural e científica, bem como sua experiência clínica permitiram-no discutir temas variados, como o sentido da vida, o significado de histórias míticas e os perigos de deixar a linguagem sob controle estatal.

O problema da Lei C-16 e a linguagem neutra, segundo Jordan Peterson

A lei C-16 emenda a Lei Canadense de Direitos Humanos para considerar ofensas baseadas em identidade de gênero como circunstâncias agravantes de crimes. O problema, para Peterson, é que as definições de “identidade de gênero” e “discurso de ódio”, utilizadas na legislação, são vagas, abrindo a possibilidade de abuso de poder por parte do estado.

Soma-se a isso o fato de que setores radicais do movimento LGBT consideram o uso incorreto de pronomes, prática conhecida como “misgendering”, ofensivo, se não um crime. Isso, por exemplo, seria chamar um homem que se identifica como mulher de “ele”. Inclusive, essa foi uma sentença de tribunal no país. Por isso, a lei correria sérios riscos de ser usada para controlar a linguagem política:

Não gosto de ver os neomarxistas pós-modernistas usarem a bandeira transexual como alavanca para as suas maluquices políticas … O motivo que eu não usaria palavras como “ze” e “zir” [equivalente a “ilu” ou “elu” inventados no português], e todas as outras palavras inventadas é porque não estou disposto a ceder o território linguístico a pós-modernistas radicais.

Nesse sentido, o psicólogo canadense replica a crítica feita pelo autor inglês George Orwell, no livro 1984: a linguagem pode ser usada pelo estado para condicionar o raciocínio. A fala de Syme, colega de Winston no Ministério da Verdade, resume bem a ideia:

Você não vê que a verdadeira finalidade da Novafala é estreitar o âmbito do pensamento? No fim teremos tornado o pensamento-crime literalmente impossível, já que não haverá palavras para expressá-lo. Todo conceito de que pudermos necessitar será expresso por apenas uma palavra, com significado rigidamente definido, e todos os seus significados subsidiários serão eliminados e esquecidos. … Como podemos ter um slogan como “Liberdade é escravidão” quando o conceito de liberdade foi abolido?

Adotar o vocabulário “politicamente correto” e aceitar a proibição de termos “ofensivos”, portanto, pode ter impacto direto na construção e no direcionamento das nossas ideias.

A importância da liberdade de expressão

Muitos especialistas afirmaram que Jordan Peterson estaria sendo alarmista, mas ele logo recebeu uma carta da Universidade de Toronto que confirmou suas preocupações. Nela, os reitores afirmaram que ele, ao negar o uso dos pronomes neutros, cometia uma discriminação com base no Código de Direitos Humanos de Ontário.

Jordan manteve-se firme nas suas posições. Para ele, afinal, a liberdade de expressão é inegociável e um pilar da civilização ocidental. Apenas o discurso desimpedido pode levar-nos, como sociedade, a continuamente descobrir a Verdade.

É necessário que todos possam falar aquilo que pensam, seja para o mau ou para o bem. As ideias más, antiquadas e preconceituosas sofrerão retaliação social e tenderão a serem dissipadas. Já as boas devem ser discutidas, analisadas e, se chegarmos a este ponto, implementadas.

Ao contrário disso, se as más ideias forem reprimidas pelo poder do estado, podem ganhar ainda mais tração. Imagine, por exemplo, anti-vacinas sendo multados ou presos; isso dá ainda mais razão para acreditarem que o “sistema” está contra eles e alimentar seu ressentimento. Proibir algo não faz, e nunca fez, com que pessoas parassem de acreditar nela.

Então, para o professor Peterson:

Nós conseguimos produzir representações abstratas de modos potenciais do Ser. Conseguimos produzir uma ideia no teatro da imaginação. Conseguimos testá-la confrontando-a com nossas outras ideias, com as ideias dos outros ou com o próprio mundo. Se ela for insuficiente, podemos dispensá-la. Podemos, na formulação de [Karl] Popper, deixar nossas ideias morrerem em nosso lugar.

12 Regras para a Vida, p. 203

Caso contrário, agiríamos como animais, criaturas que só podem testar suas hipóteses na ação. “Ao fazer isso, se ela não conseguir manifestar em seu comportamento o que o ambiente exige, simplesmente morrerá”. Portanto, a habilidade humana de especular e articular ideias em fala e em escrita é fundamental para nossa existência.

Capitalismo, patriarcado e psicologia evolucionista

Uma ideia comum dos adversários de Jordan Peterson e de movimentos identitários, de maneira geral, é que as estruturas societais são apenas convenções. Dessa forma, ideias centrais na nossa sociedade são apenas opiniões arbitrárias, como o gênero e o lucro.

É nessa perspectiva que comunistas, como Karl Marx, creem ser possível destituir o capitalismo apenas moldando um Novo Homem; e feministas creem ser possível acabar com o “patriarcado”.

Essas categorias, segundo Jordan, são tão perenes quanto os resultados da seleção natural. Afinal, a cultura humana fez parte da nossa adaptação ao ambiente:

“natureza” é “aquilo que seleciona”, e quanto mais tempo uma característica tem existido, mais tempo teve para ser selecionada — e para moldar a vida. Não importa se a característica é física, biológica, social ou cultural. Tudo o que importa, sob uma perspectiva darwinista, é a permanência — e a hierarquia de dominância, embora possa parecer social ou cultural, está presente há cerca de meio bilhão de anos. … A hierarquia de dominância não é o capitalismo. Tampouco é o comunismo. Não é o complexo militar industrial. Não é o patriarcado — aquele artefato cultural descartável, maleável e arbitrário. Muito menos uma criação humana; não em um sentido mais profundo.

12 Regras para a Vida, p. 15

Aqueles que afirmam o contrário incorrem em um erro fatal, da mesma forma que denunciou o economista Friedrich Hayek. A ordem natural que herdamos foi criada por pequenas contribuições ao longo dos anos e é resultado de incontáveis tentativas de garantir a sobrevivência da sociedade humana.

Questionar essas categorias negligentemente, especialmente aquelas que existem a milhões de anos de evolução, como “pai”, “filho” e princípios, como o de Pareto e a existência de hierarquias, não passa de arrogância fatal. Ainda mais se, nesse questionamento, o poder do estado for usado para proibir que a ordem existente possa ser defendida.

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Estuda e trabalha com Engenharia Eletrônica e de Telecomunicações em Belo Horizonte.

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