O que você precisa saber sobre Joe Biden: o candidato democrata em 2020

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O que você precisa saber sobre Joe Biden: o candidato democrata em 2020

No dia 8 de abril, Bernie Sanders anunciou que estava suspendendo a sua campanha pela pré-candidatura presidencial e comunicou seu apoio a Joe Biden.

Até então, Sanders e Biden eram os dois nomes restantes, que poderiam ocupar a vaga de candidato à presidência pelo partido democrata, o representante da esquerda americana. Todos os outros pré-candidatos já haviam desistido ao longo dos meses anteriores.

A justificativa de Bernie para não continuar na disputa foi de que “essa batalha não seria bem sucedida”. Mas, o fato por trás dessa decisão é a diferença do número de delegados que apoiam cada candidatura.

Com mais de 400 delegados a menos em relação a Biden, a chance do autodeclarado socialista ser escolhido na Convenção Nacional Democrata era muito baixa. Cumpre agora entender a trajetória de Biden e o que sua candidatura pode representar.

Carreira política de Joe Biden

O norte-americano tem uma extensa carreira na política dos Estados Unidos. Em 1972, ele se elegeu senador pelo estado de Delaware, se tornando um dos mais jovens da história do país a ocupar tal posto.

Ele foi senador por seis mandatos consecutivos, deixando o Congresso apenas em 2008, para ser o vice-presidente de Barack Obama. Período no qual, ele pôde demonstrar sua habilidade para negociação.

Um exemplo disso, aconteceu em meio à Grande Recessão. Naquele momento, Biden conseguiu convencer três senadores republicanos a votar a favor do pacote de estímulo, proposto pelo governo, alcançando assim o número mínimo para sua aprovação.

Se isso não soa um feito grande, deve-se lembrar que a política americana é, na prática, bipartidária. Em temas importantes, é raro políticos de um partido votarem em favor de pautas do partido oposto.

Inclusive, o número de membros de cada partido nas casas do congresso costuma ser determinante para que projetos passem ou não. Isso explica em parte, por exemplo, porque Donald Trump foi condenado pela Câmara e absolvido pelo Senado em seu processo de impeachment.

Para o partido democrata, Biden é o candidato moderado, que poderia recuperar votos em estados divididos. Ou seja, nos chamados purple states ou swing states, onde não há hegemonia democrata ou republicana.

Esse fato é importante porque as eleições presidenciais americanas são indiretas e os votos do Colégio Eleitoral são contabilizados por estado.

Isto é, à exceção de dois, Maine e Nebraska, todos os votos dos demais colegiados estaduais vão para o mesmo candidato: winner takes all.

Por exemplo: se na Flórida, que tem 29 votos, 14 forem ao candidato democrata e 15 ao republicano, o segundo recebe todos os 29. Afinal, a maioria é vencedora.

Logo, se Biden ganhar nesses estados, ele tem uma maior chance de ser eleito o 46º presidente dos EUA.

Para entender melhor como funcionam as eleições presidenciais nos Estados Unidos, confira esse texto.

As principais pautas de Joe Biden

A imagem de progressista moderado resume bem as suas propostas, que estão de acordo com a pauta democrata. No entanto, estas são diluídas e bem menos radicais que as dos outros pré-candidatos do partido, em especial, quando comparadas às de Bernie Sanders.

Apesar de diversas pautas que poderiam aumentar despesas governamentais, o impacto fiscal delas seria muito menor do que se implementadas as propostas de Sanders. Isso permitiu a redução do chamado risco político nas eleições americanas, diminuindo boa parte das apreensões do mercado.

1. Saúde

Biden defende o Obamacare e quer expandir o programa com mais 750 bilhões de dólares.

Ele se opõe ao Medicare for All, cujo cerne é um programa de saúde universal e público. Segundo o ex-Vice-presidente, não há necessidade de reestruturar o atual sistema de saúde, sendo mais eficaz promover a melhora do Obamacare.

Inclusive, Biden disse que vetaria a versão do Medicare for All proposta por Bernie Sanders, argumentando que o projeto seria muito caro.

2. Educação

No que se refere à educação, o candidato democrata quer triplicar o repasse federal para escolas com alunos de menor renda, entre os distritos mais pobres.

Já às instituições de ensino superior, Joe Biden quer destinar US$ 750 bilhões a fim de tornar gratuitas as community colleges.

Estas são faculdades que oferecem um ensino superior mais simples, cujo enfoque é uma educação geral, direcionada ao mercado de trabalho local. Com apenas dois anos de duração, as community colleges não oferecem diploma de bacharel.

Por outro lado, Biden propõe que as universidades públicas de quatro anos passem a ser gratuitas para famílias que ganham até US$125 mil dólares anuais.

Além disso, o candidato também considera o perdão de dívidas estudantis, em certos casos, priorizando indivíduos de baixa renda e pertencentes a grupos minoritários.

3. Meio ambiente e aquecimento global

Joe Biden quer fazer com que o país volte a fazer parte do Acordo de Paris. Os Estados Unidos deixaram de participar do acordo em 2017 por decisão do atual presidente Donald Trump.

Outra proposta é a criação de um programa, chamado Clean Energy Revolution, que almeja zerar as emissões de carbono e fazer com que a produção de energia do país seja 100% limpa até 2050.

O programa incluiria medidas como a instalação de pontos de carregamento para carros elétricos, o fim de subsídios para combustíveis fósseis e o aumento dos gastos com pesquisas relacionadas a energia limpa. Este projeto é estimado em US$1,7 trilhão de dólares.

4. Impostos

Mas de onde sairia todo esse dinheiro? Segundo Biden, a resposta é a taxação de grandes fortunas.

Para as empresas, a tributação incidente sobre os lucros passaria de 21% para 28%. Estima-se que essa medida sozinha geraria uma receita de US$ 1,3 trilhão.

Ao nível individual, a tabela de impostos sobre renda também mudaria: salários acima de US$400 mil anuais sofreriam aumento de 37% para 39,6%.

Ordinary tax rates; single taxpayer
Tabela de imposto de renda americano. As porcentagens se referem às alíquotas presente, propostas por Joe Biden e propostas por Bernie Sandes, respectivamente.

De acordo com uma análise do think tank Tax Foundation, na qual foram avaliadas essas propostas de tributação, o resultado poderia representar uma redução de 1,51% do PIB americano.

“Republicano disfarçado”

Porém, em um cenário de radicalização política, um candidato como Joe Biden não é o que boa parte do eleitorado democrata deseja.

A ala mais extremista da esquerda norte-americana, que também é mais engajada, não quer um negociador centrista como o ex-vice-presidente, mas um socialista como Sanders, cuja agenda custaria algo em torno de 60 trilhões de dólares.

Alexandria Ocasio-Cortez, uma deputada democrata também muito associada aos grupos mais socialistas do partido, já fez diversas críticas a Biden.

Inclusive, até a desistência de seu colega Bernie, ambos criticavam o posicionamento muito “meio termo” do político de carreira. Segundo ela, “Em qualquer outro país, Joe Biden e eu não estaríamos no mesmo partido”.

Em um discurso sobre o Green New Deal, projeto de Ocasio-Cortez para combater as desigualdades sociais e o aquecimento global, ela fala de “conservadores de ambos os lados”, também se referindo ao atual candidato.

Em parte, esse deve ter o motivo pelo qual Bernie largou a corrida tão cedo, deixando Biden como o único nome democrata ainda em campanha pela nominação. Afinal, há mais tempo para a “ferida” cicatrizar.

Uma pesquisa de opinião pública, feita pelo jornal USA Today poucas semanas após a desistência de Bernie, mostrou que 77% daqueles que eram seus apoiadores até então estão dispostos a votar em Joe Biden.

Contudo, simultaneamente, 60% desses entrevistados disseram estar “desanimados ou pouco animados” com a candidatura de Biden.

Isso pode ser um problema para o partido, pois nos Estados Unidos o voto não é obrigatório. Assim, muitos eleitores que simpatizam mais com os democratas podem simplesmente escolher por ficar em casa no dia da eleição.

Gafes, polêmicas e acusações

Biden não é conhecido apenas por ser um negociador. O ex-Vice-presidente também é apontado como um orador com dificuldades, frequentemente não filtrando palavras e termos, causando ruídos de comunicação e controvérsias.

Não à toa, em agosto de 2019, vários jornais noticiaram que Barack Obama havia recomendado que Biden não concorresse à presidência a fim de não “estragar seu legado” e “não se constranger”

A fama de gafes do candidato é tão antiga e extensa quanto a sua carreira política, e ele mesmo reconhece isso.

Ainda em novembro de 2019, disse: “Temos que continuar batendo nisso”, se referindo ao problema de violência contra mulheres, em um dos debates entre os pré-candidatos à nominação democrata.

E, recentemente, em um evento voltado especificamente para eleitores asiáticos e latino-americanos, Biden falou que “Crianças pobres são tão inteligentes e talentosas quanto crianças brancas”.

Há ainda casos notórios, como o comentário de que ele iria “curar o câncer, se eleito presidente”, durante um discurso no Iowa.

Ou quando, em março de 2018, afirmou que “cairia na porrada” com Trump se eles estivessem no ensino médio. O comentário foi motivado por comentários vulgares e machistas feitos pelo presidente.

“Creepy Uncle Joe”

Em 2019, Lucy Flores escreveu uma carta que foi publicada na revista New Yorker, alegando que em uma situação, Biden aproximou-se por trás dela, colocou a mão em seus ombros e beijou a parte de trás de sua cabeça sem seu consentimento.

Isso teria ocorrido em 2014, quando ele se ofereceu para ajudá-la em sua campanha política. Nos dias seguintes à publicação, outras mulheres vieram a público, relatando comportamentos parecidos e inadequados por parte do candidato.

Em resposta, Biden fez um vídeo dizendo que tentaria ser mais “consciente”. Contudo, ele nunca se desculpou a nenhuma das mulheres, o que gerou uma péssima repercussão negativa da mídia.

Os atos descritos por elas não são muito diferentes dos registrados em eventos públicos nos últimos anos, nos quais aconteceram beijos, toques, abraços e comentários considerados inapropriados.

Apesar de esse tipo de atitude já ser meme desde 2015, o caso de Lucy Flores danificou ainda mais a imagem de Biden ao popularizar o apelido: “Creepy Uncle Joe”.

Caso Tara Reade

Atualmente, o ex-Vice-presidente se encontra em meio de outro escândalo sexual, de cunho mais grave. Em abril de 2019, Tara Reade, que trabalhou no escritório de Biden entre 1992 e 1993 quando ele era senador, acusou-o de assédio.

O caso voltou a circular há dois meses, quando ela disse em um podcast que ele abusou sexualmente dela em uma ocasião. Até o momento, Joe Biden optou por não se manifestar sobre, mas, sua porta-voz de campanha negou as acusações.

Essa situação causou uma forte reação, especialmente entre mídias e personalidades conservadoras, alegando que a mídia tradicional está sendo leniente com a acusação.

Certamente, o escândalo envolvendo Reade gerou um impacto forte na imagem pública do candidato e pode aumentar a sua rejeição entre eleitores democratas, visto que será um tema recorrente até as eleições.

De toda sorte, Biden é a escolha do partido Democrata para enfrentar Donald Trump em 2020.

Luan Sperandio é Head de conteúdo do Ideias Radicais

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Por | 2020-09-11T16:58:01-03:00 06/05/2020|Eleições americanas, Política|Comentários desativados em O que você precisa saber sobre Joe Biden: o candidato democrata em 2020