O que propõem as teorias do interesse próprio

A ideia do interesse próprio tem desempenhado um papel extremamente importante nas teorias e ideologias que defendem a liberdade. Seus defensores frequentemente afirmam que a liberdade beneficiaria todas as pessoas, alegando, assim, que é para o benefício de cada pessoa promulgar políticas que aumentem este direito.

Desta forma, apela-se para o interesse próprio do público. Ou, às vezes, os argumentos enfocam impulsos altruístas, explicando por que todos devem abraçar a liberdade em benefício de seus vizinhos.

Para qualquer tipo de argumento, a ideia de interesse próprio é importante e levanta questões semelhantes. Em particular, levanta a questão do que é interesse próprio: o que é algo ser bom para uma pessoa?

Há tempos, os pensadores libertários ofereceram dois tipos amplamente diferentes de respostas, duas famílias de teorias que são separadas não apenas por seu conteúdo, mas também por seus ancestrais históricos amplamente diferentes.

Diferentes vertentes intelectuais

Por um lado, durante vários séculos, houve uma forte tendência para definir os interesses do indivíduo em termos dos fatos sobre sua própria motivação. Ou seja, sobre o que é do seu interesse.

Assim, a motivação envolvida, dependendo da forma que a teoria assume, pode ser “ex ante ou ex post”. Isso significa dizer que: seu interesse é conseguir o que você quer antes de ser bem-sucedido em sua tentativa; ou em possuir as coisas que obteve e estar satisfeito depois de ter experimentado as consequências de tê-las obtido.

Essa abordagem tem suas raízes nas inovações em psicologia introduzidas pelos filósofos britânicos do período pós-renascentista, especialmente Thomas Hobbes e os empiristas.

Nessas questões, seu apelo é ainda mais acentuado pela influência de Immanuel Kant, que foi fortemente influenciado pelos britânicos. Não à toa, esta visão é extremamente difundida entre os economistas.

Em contrapartida, essa abordagem também foi rejeitada por outros teóricos. Eles ressaltam que é fácil querer ou preferir coisas que não são boas para quem as deseja ou prefere. As pessoas que estão satisfeitas com o que têm podem, portanto, estar vivendo no paraíso dos tolos.

A justificativa plausível por trás desta visão é o fato de que a dor dos desejos insatisfeitos não é a única coisa que pode prejudicar o bem-estar de uma pessoa. Esta sensação pode também ser prejudicada quando o nível geral de funcionamento de uma pessoa foi danificado ou degradado de alguma forma.

Para atestar isso, Platão perguntou a seus leitores se eles estariam dispostos a ser transformados em ostras totalmente satisfeitas. Ao responderem que não, entende-se que o bem-estar não consiste simplesmente no prazer de desejos ou preferências satisfeitos.

Uma abordagem alternativa

Nesta terceira perspectiva, o ponto de partida é a noção de que existe um modo de funcionamento apropriado para os seres humanos, o que na maioria das versões da teoria inclui pensar e/ou agir racionalmente.

Logo, o nosso interesse é fundamentalmente funcionar de forma racional tão bem quanto possível. Nesse sentido, o exemplo mais citado é, sem dúvida, a noção de eudaimonia de Aristóteles, traduzida de várias maneiras como “felicidade” ou “florescimento”.

Muitos pensadores libertários suspeitam, com razão, da visão visionária, dessa abordagem. Historicamente, muitos dos defensores dessa perspectiva, incluindo Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino e Karl Marx, falharam em ser simpáticos à liberdade individual. Podemos ver uma razão provável para essa falta de simpatia ao contrastar tal visão com a ideia de preferências subjetivas.

Se supomos que as pessoas devam, tanto quanto possível, atingir o que é de seu interesse, então a visão dos desejos ou preferências parece criar imediatamente uma presunção a favor da liberdade.

Afinal, os desejos e preferências tendem a variar de uma pessoa para outra. É provável que os indivíduos saibam mais sobre seus próprios desejos e preferências do que algum mestre que deseja planejar suas vidas. Assim, o caminho mais provável para obterem o que é bom para eles parece ser deixá-los livres para agir de acordo com seus próprios impulsos.

Suponha, porém, que um dos principais componentes do bem-estar é se conformar com um modo de funcionamento apropriado para os seres humanos em geral.

Essa suposição não parece ter as mesmas implicações libertárias, pois se há um modo “apropriado” de ser, então algum filósofo deve compreender isso melhor do que as pessoas que não têm nenhum conhecimento notável ou habilidades mentais.

Pelo menos à primeira vista, parece que essa visão poderia ser usada para capacitar o filósofo a forçar esse modo de funcionamento para todos. E, mesmo que algumas pessoas não gostem, de acordo com a visão visionária, o mais importante é encontrar um modo de vida adequado para um ser humano.

Considerações finais

Não é fácil dizer que os libertários deveriam simplesmente abandonar completamente a visão visionária em favor da visão da preferência subjetiva. Na medida em que a defesa da liberdade se baseia em um apelo ao entendimento das pessoas sobre o que é de seu interesse, esta última visão sofre de uma desvantagem retórica óbvia.

Afinal, prometer às pessoas que elas obterão o que desejam, independentemente do quê, parece menos inspirador. Na verdade, parece positivamente ignóbil em comparação à promessa de que elas serão capazes de viver de uma maneira compatível com sua posição como seres humanos.

Talvez seja por essa razão que os defensores da liberdade que influenciaram multidões fora dos limites estreitos de alguma especialidade acadêmica — como John Stuart Mill, Henry David Thoreau e Ayn Rand —, de uma forma ou de outra, fizeram uso da concepção visionária de interesse próprio.

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Desde 2015 o Ideias Radicais busca difundir o libertarianismo e ajudar a construir uma sociedade livre.

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