Instituições privadas: qual sua importância no caminho para a liberdade?

Em ano de eleições, é importante relembrar aos defensores da liberdade sobre como se dá a construção de uma sociedade libertária e qual a utilidade da via eleitoral e política para isso.

O que cria e mantém uma sociedade libertária é a criação e preservação de instituições privadas. Por meio da atuação política é possível impedir o estado de destruir ou retardar essas instituições; além de revogar proibições e barreiras que o estado impõe à criação destas.

Em suma, uma instituição pode ser um lugar, uma coisa, uma ideia ou uma associação de pessoas. À exceção dos objetos, elas podem ser entendidas como um grupo de comportamentos recorrentes por um ou mais seres humanos. Elas têm uma ou mais funções que, embora incompreendidas até por quem as executem, ainda assim possui um propósito, servindo ou produzindo algo.

É em instituições privadas que a maioria dos nossos problemas como seres humanos são resolvidos, sejam estes internos (você com você mesmo); ou externos (você com outra pessoa ou grupo de pessoas). E quem quer resolver um problema, precisará comportar-se de certa forma e obedecer a determinadas regras para ganhar o que quer.

Entretanto, isso pode incluir defender intelectualmente ou até fisicamente a instituição, caso esta esteja sob ameaça.

Esses comportamentos são recompensados pelo resultado obtido e/ou pelas pessoas dentro dessa instituição. Como, por exemplo, a partir de elogios ou qualquer outra coisa ou ação que tenha valor para o participante.

Nesse sentido, estes comportamentos tornam-se parte do hábito das pessoas, que expandem seus significados a outras esferas da vida. E isso não precisa ser explícito. Ou seja, você pode sequer perceber que participa de uma instituição e que está sendo moldado por ela.

Como o Jiu-Jitsu pode moldar seu comportamento

Entre várias regras, você precisa chegar no horário, respeitar seus instrutores, prestar atenção, aprender técnicas e aprender a aprender. Afinal, nem todo mundo está habituado a ser paciente ou tem resistência à frustração. Além disso, você também precisa respeitar não apenas os mais graduados, mas também os menos.

Em suma, a humildade é essencial, pois dadas as condições corretas – e muitas vezes inesperadas – qualquer um pode te derrotar, ou te ensinar alguma coisa extremamente importante. Às vezes, os dois ao mesmo tempo.

Também é preciso algum nível de cuidado com o próprio corpo. Ou seja, boa alimentação, exercícios para fortalecimento, alongamentos e descanso.

Tudo isso são comportamentos, e isso pode se tornar, em algum grau, generalizado na vida do praticante. Isto é, o Jiu-Jitsu não te ensina apenas a como estrangular pessoas. De maneira indireta, ele te ensina uma forma de viver a vida.

Para tanto, esses comportamentos são recompensados de várias maneiras.

Internamente: a liberação de endorfinas durante o exercício até a sensação de vitória e conquista ao aprender a executar técnicas, vencer lutas, como uma evolução pessoal. Também pode ser um reforço por retirar algo incômodo. Afinal, é consideravelmente difícil pensar nos problemas da sua vida enquanto você está tentando não ser estrangulado por alguém.

Externamente: um dos fatores mais poderosos de reforço é a comunidade criada. É um espaço onde é fácil criar amizades e conhecer pessoas de todos os tipos diferentes. Não importa onde você esteja no mundo, você pode colocar um kimono, ir para a academia local e fazer amigos.

Não à toa, é normal que pais tragam os filhos e os coloquem em aulas também. Se você como praticante aprecia os valores e conhece a comunidade que os ensina e confia neles, por que não expor seus filhos a esse processo de sucesso?

Intervenções estatais na pandemia

Também não é à toa que muitos praticantes mostraram-se vocais contra as malucas proibições estatais durante a pandemia da Covid-19. Para eles, não se trata apenas de exercício, se trata de comunidade, de crescimento pessoal, da educação moral de seus filhos e muito mais. Portanto, quando a instituição é atacada, eles a defendem.

Finalmente, isso é um exemplo para os outros não praticantes. Mesmo que você não tenha interesse em Jiu-Jitsu, você vê os praticantes sendo recompensados, e pode expandir isso para a importância do esporte, do respeito, entre outros valores. Afinal, não é preciso que você participe diretamente da instituição para ser influenciado por ela.

Agora, aplique a mesma lógica às instituições do estado. Elas exigem comportamentos e, em troca deles, oferecem vantagens aos participantes. Nesse sentido, o problema mora nos comportamentos exigidos e nas vantagens dadas.

Por exemplo, sindicatos que restringem entrada na profissão e exigem ganhos de forma coercitiva via estado. Para tanto, são exigidas certas crenças, valores e comportamentos, como a defesa de ideologias trabalhistas, socialistas ou anarquistas de esquerda; assim como o apoio e filiação partidária em algum nível; participação em manifestações, divulgação ideológica; e o “combate” aos opositores.

Em suma, isso é recompensado internamente por um senso de estar fazendo algo útil ou produtivo para a sua causa e pela emoção do enfrentamento. Além disso, a recompensa pode ser externa: um ambiente social reforçador, uma sensação de pertencimento e relacionamentos interpessoais. Assim, ganhos políticos são obtidos pela atividade de usar o estado em sua busca por recursos diversos.

O estado reprime a competição

Em geral, é por meio destes incentivos que os participantes se tornam mais favoráveis a agressão estatal e a outros tipos de agressão – mesmo que dentro de regras arbitrárias. Além disso, eles mostram ao mundo um caminho perverso para obtenção de recursos. Portanto, é inevitável que algumas pessoas, especialmente aquelas que não possuem inspirações melhores, acabem por copiar esses comportamentos de alguma forma.

Inclusive, não é necessário que o participante sinceramente defenda valores socialistas, trabalhistas ou o que for. Basta que ele finja defendê-los quando solicitado ou que não manifeste opinião contrária. Logo, ele estará contribuindo com sua força para que a instituição obtenha recursos via estado. Depois, cada participante receberá sua parte.

Por esse motivo, ele pode ser levado a defender a instituição embora não compreenda ou concorde com os seus valores. Seguindo o exemplo do sindicato, caso este seja extinto, o participante perde recursos, e isso pode bastar para que ele proteja essa instituição.

Por fim, é perfeitamente possível que uma grande parte – até uma maioria muito significativa – defenda uma instituição estatista em total ignorância.

Não à toa, o estado costuma regular pesadamente essa competição institucional ou proibi-la completamente. Isso por que, caso não seja feito, a existência do estado é diretamente ameaçada.

As escolas como instituição estatal

Outro exemplo é a proibição da educação domiciliar. O estado decide como a educação será fornecida, o que será ensinado. Assim como, o design geral das salas de aula, a metodologia e os horários em que ela será fornecida.

Ao carregar alunos com estudos desinteressantes e exaustivos, ele também evita que outras coisas sejam ensinadas. Afinal, sua instituição não só matou o interesse que o aluno poderia ter por aprendizado, mas também exauriu sua energia e seu tempo.

Praticamente todo aluno, professor, tutor, pai ou cuidador sabe que esse sistema possui defeitos profundos. Porém, eles não sabem de que outra forma a educação poderia ser realizada. Por meio da proibição do homeschooling, por exemplo, os participantes do sistema são levados a defender a educação estatal apesar de seus defeitos.

E, ao defendê-la, eles também internalizam e reproduzem valores e comportamentos estatistas.

Dessa forma, caso essas instituições estatais sejam atacadas diretamente em uma tentativa de eliminação, boa parte da população as defenderá, mesmo que reconheçam explicitamente que em algum grau são vítimas dela. Daí a importância de existir uma instituição privada como alternativa, preferencialmente, com um bom grau de funcionamento.

Afinal, caso a estrutura estatal seja destruída, mas não exista ainda uma estrutura libertária para substituí-la, pessoas podem simplesmente pedir que o estado volte a atuar naquela área.

Embora isso não signifique que devemos evitar destruir intervenções estatais até que tenhamos alternativas, este é um apontamento óbvio. Na ausência de opções, é muito razoável esperar que as pessoas peçam que as coisas voltem a ser como antes.

Considerações finais

Ao oferecer uma alternativa, esvazia-se continuamente o corpo de instituições estatais e enche-se o corpo de uma sociedade libertária.

Ao fazer isso, a proposta libertária será vista como um melhoramento para o indivíduo e para a sociedade como um todo. E, é justamente por isso que o estado e as organizações que dele vivem tanto trabalham para evitar a criação ou preservação destas instituições privadas.

Inclusive, isso acontece até de forma não intencional. Em suma, é fácil encontrar agentes estatais que acreditam estar melhorando a vida das pessoas ao impedir a organização privada da sociedade. Essa ação tem origem darwiniana: estados que combatem instituições privadas são mais bem sucedidos.

Em teoria, é possível supor que ainda assim o estado seja incapaz de impedir o crescimento delas e sucumba. Também é possível que ele não só consiga frear o crescimento delas, caso aprenda como fazer isso de maneira mais eficiente, criminalizando todos os defensores da liberdade e sentenciando-os à morte. De qualquer forma, o fato é que a ação estatal irá desacelerar ou impedir completamente o avanço dessas instituições.

Logo, é muito útil que exista uma atuação libertária dentro da política. Ela se pautará por guias simples. N melhor medida do possível: vai impedir que o estado proiba novas iniciativas de instituições libertárias e buscará revogar proibições atuais do estado para a existência de instituições privadas.

Contudo, isso não significa que a ação de libertários dentro da política irá acabar com estado, nem que esperamos que um dia seja aprovado um PL que revogue sua existência. Em suma, a atuação na política é parte de uma estratégia, um suporte ou acessório para a criação e preservação de instituições libertárias.

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Raphaël Lima

Por:

Fundador e CEO do Ideias Radicais.

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