Como fazer um cluster industrial em cidades charter

O Vale do Silício foi projetado para construir startups de tecnologia por meio de fontes de financiamento, talento e conhecimento inseridas em uma área geográfica relativamente pequena. Este sucesso do cluster da indústria de tecnologia é evidente. Não à toa o Vale do Silício se tornou um dos lugares mais ricos dos Estados Unidos, produzindo algumas das empresas mais conhecidas do mundo.

É o principal cluster industrial do mundo e entendê-lo é fundamental para adotar modelos similares em cidades charter, ou cidades privadas.

Os são os diferenciais do Vale do Silício

O conhecimento incorporado é essencial para o sucesso do Vale do Silício e de outros clusters da indústria.

Há uma compreensão compartilhada do que é uma startup, das etapas necessárias para construir um produto de tecnologia. Por exemplo, sobre qual é a adequação do produto ao mercado; como contratar e em que estágio tomar certas decisões.

Parte desse conhecimento já está explicitamente catalogado em blogs, podcasts e livros como “High Growth Handbook”. Outros conhecimentos estão implícitos e situacionais demais para justificar o compartilhamento amplamente.

Em vez disso, esse conhecimento implícito é mais frequentemente comunicado por meios mais suaves, como mentorias, conversas casuais e inúmeras outras maneiras de uma rede especializada se perpetuar.

Assim, os benefícios da aglomeração não são exclusivos do Vale do Silício. Los Angeles é um cluster da indústria focado em filmes e TV. Por outro lado, Nova York é um cluster da indústria financeira. Boston é um cluster da indústria de biotecnologia, assim como, Detroit foi um polo da indústria automobilística desde o início do século 20 até por volta dos anos 1970.

Ao longo da história, clusters industriais surgiram com o conhecimento e relacionamentos necessários que permitem o surgimento de ideias e negócios dentro de um determinado setor.

Em suma, combinar conhecimento mútuo e cadeias de suprimentos relevantes; bem como mecanismos de financiamento e relacionamentos; permite que os indivíduos se tornem muito mais produtivos do que se não estivessem inseridos no cluster da indústria.

A evolução dos clusters da indústria

A maioria dos clusters da indústria evoluiu organicamente. O início do Vale do Silício pode ser rastreado, de forma um tanto arbitrária, com os Oito Traidores, que deixaram o Laboratório de Semicondutores Shockley para fundar a Fairchild Semiconductor.

O legado dos Oito Traidores foi substancial, incluindo: Eugene Kleiner começar sua própria empresa em início de carreira e Gordon Moore. A princípio, não havia nenhum plano amplo para desenvolver o Vale do Silício em um cluster da indústria, produzindo startups de tecnologia. Simplesmente aconteceu.

Isso não quer dizer que os clusters da indústria não possam ser guiados. O Vale do Silício se beneficiou do fato de os não concorrentes não serem obrigados, permitindo que os funcionários partissem por conta própria.

Além disso, seu sucesso também está relacionado à parceria com a Universidade de Stanford e do investimento da indústria de defesa americana. Por fim, decisões específicas sobre o ambiente institucional e investimento inicial ajudaram a transformar o Vale do Silício no que é hoje.

Construindo um Cluster de Indústria em uma Cidade Charter

Embora haja alguma discussão e compartilhamento de ideias entre os empreendedores, ainda não há nada que possa ser descrito como um cluster da indústria.

A questão é: como podemos construir, ou pelo menos facilitar a criação de uma rede de desenvolvedores de cidades charter junto a outras partes interessadas, para turbinar estes esforços.

Imagine construir uma startup de tecnologia sem o suporte do ecossistema do Vale do Silício. Como você arrecadaria fundos, quem você contrataria, como você escalaria? Esses são os desafios enfrentados atualmente pelos desenvolvedores de uma charter city.

Dividindo os desafios em 10 componentes importantes

  1. Como adquirir terras, especialmente em um país que pode não ter título de propriedade claro? 
  2. De que forma arrecadar fundos para seu reconhecimento inicial? 
  3. Como trabalhar com o governo para aprovar legislação que permita a descentralização da autoridade para o nível municipal? 
  4. Qual o método para projetar o sistema jurídico de uma cidade charter? 
  5. Como construir o sistema administrativo para aplicar o sistema jurídico mencionado? 
  6. De que forma projetar um plano urbano, especialmente aquele que é acessível a residentes de baixa renda? 
  7. Como arrecadar centenas de milhões necessários para a construção inicial da infraestrutura? 
  8. Quais indústrias buscar para se mudar para a cidade? 
  9. Como atrair as primeiras empresas e milhares de residentes para a cidade para superar o problema do pioneiro? 
  10. Quem contratar e como avaliar sua capacidade de execução?

Esta não é uma lista exaustiva de desafios enfrentados pelos desenvolvedores de cidades charter, mas dá uma amostra. Em um cluster da indústria, essa lista de perguntas teria respostas que seriam de conhecimento comum.

Isto é, haveria várias mídias, blogs, livros, podcasts, todos compartilhando insights diferenciados sobre como contratar agrimensores; que tipo de usina de energia construir; como garantir que a comunidade local se beneficie da cidade charter, etc. 

Além disso, haveria organizações e indivíduos especializados em diferentes aspectos do desenvolvimento de cidades charter. Entre elas, a contratação de pessoas para aconselhamento, fundos especializados em investimentos e empresas focadas no desenvolvimento e administração da estrutura legal.

Atualmente, essa rede não existe. Isso sobrecarrega os desenvolvedores e empreendedores de cidades charter, pois não há um manual, nenhum ecossistema de indivíduos e organizações que possam oferecer conselhos.

A importância de construir um cluster industrial em cidades charter

Primeiro, porque o horizonte de tempo mais longo das cidades charter aumenta a importância da coordenação. Algumas indústrias, como as startups de tecnologia, por exemplo, têm horizontes de tempo relativamente curtos. Uma empresa de bilhões de dólares pode ser construída em cinco anos ou menos. Esses horizontes de tempo relativamente breves permitem um curto ciclo de feedback que aumenta naturalmente a coordenação. 

As cidades charter, por outro lado, levam décadas para amadurecer completamente. A transição da ideação para movimentar a terra pode facilmente levar anos. Honduras, a única legislação de cidades charter no mundo, levou quase uma década para ver o primeiro desenvolvimento acontecer.

Logo, o horizonte de tempo mais longo das cidades charter significa duas coisas.

  1. O crescimento orgânico do cluster da indústria levaria muito mais tempo do que o crescimento coordenado.
  2. A janela limitada de urbanização rápida significa que a oportunidade de mercado para cidades charter diminui a cada dia.

Ou seja, atrair pessoas que já estão em processo de urbanização é muito mais fácil do que atrair residentes em um mundo onde o processo de urbanização praticamente parou. Portanto, tempo é essencial. 

Dispersão geográfica e promoção de charter cities

A segunda razão é a dispersão geográfica do desenvolvimento de uma charter city.

Como os projetos de novas cidades estão espalhados por todo o mundo, sem o envolvimento ativo, muitos dos empreendimentos podem não conhecer uns aos outros. Cada projeto é local, forçado a descobrir de forma independente as soluções para os desafios acima, tudo sozinho.

Isso aumenta substancialmente os custos de inicialização. Nesse sentido, um esforço consciente é necessário para garantir a interação e o aprendizado da cidade charter.

A terceira razão para a importância de coordenar o cluster da indústria de charter city é a existência de muitas partes interessadas que, uma vez engajadas, ajudam a promover as charter cities. E esta é uma via de mão dupla.

Quando estes agentes estão envolvidos ativamente, as cidades charter podem adquirir mais recursos. Por exemplo, organizações como as Nações Unidas e o Banco Mundial estão comprometidas com a melhoria da governança e com a urbanização sustentável. Ao alistá-los nesta causa, bilhões de dólares e uma infinidade de talentos técnicos podem ser liberados. 

Considerações finais

Construir um cluster de indústria é difícil. O espaço das cidades charter tem vários interessados, porém, muitos destes possuem modelos mentais diferentes do que uma estes projetos realmente são.

Este impasse na comunicação torna ainda mais difícil para as várias partes interessadas um envolvimento eficaz. Como os stakeholders vem de mundos diferentes e podem, portanto, ser ininteligíveis uns para os outros, leva tempo para desenvolver o conhecimento comum que lhes permite aprender rapidamente uns com os outros. 

Em suma, muitos dos desafios acima mencionados já têm soluções comprovadas. Contudo, estas soluções normalmente existem em um silo enclausurado dentro de uma parte interessada específica. Portanto, não são legíveis para outras partes interessadas dentro do ecossistema das cidades charter.

Por exemplo, a aquisição de terras em mercados emergentes já foi feita antes. Identificar as organizações que resolveram esses problemas e tornar essas soluções fáceis de entender em um espectro mais amplo é a chave para a proliferação de um cluster da indústria de cidades charter.

Por fim, para que as cidades charter tenham um impacto substancial, tirando milhões de pessoas da pobreza, estas devem se tornar uma indústria.

Não é suficiente para um único operador tentar construir cidades heroicamente do zero. É necessária uma cadeia de suprimentos em rede de atores especializados que sejam capazes de produzir dezenas de cidades charter.

Só então as cidades charter atingirão seu potencial.

Os voluntários da Free Private Cities Foundation, uma organização sem fins lucrativos que promove um modelo de cidades privadas, foi responsável pela tradução deste artigo.

Encontre a publicação original em inglês aqui.

Traduzido por Jhone Carrinho e revisado por Rafael Leandro

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Mark Lutter

Por:

Fundador e Diretor executivo do Charter Cities Institute.

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