Impressão de moeda não é a solução para a crise

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Impressão de moeda não é a solução para a crise

Em resposta ao coronavírus, os bancos centrais de todo o mundo estão propondo a impressão de moeda.

A justificativa é de que isso vai impedir os efeitos colaterais econômicos negativos que o pânico relacionado à pandemia tem causado nas economias. 

Por mais atraente que pareça, essa visão é incorreta.

A ideia de que mais dinheiro pode reviver uma economia se baseia na crença de que o dinheiro transmite seu efeito por meio de gastos agregados.

Dessa forma, com mais dinheiro no bolso, as pessoas poderão gastar mais e o resto seguirá o exemplo. 

A partir dessa perspectiva, dinheiro é uma forma de pagamento, assim como um meio de financiamento.

Porém, na verdade, dinheiro é um meio de troca e não um meio de pagamento. Isto é, ele não tem vida própria; só possibilita que um produtor troque sua produção pela de outro.

Os meios de pagamento são sempre bens e serviços reais, que pagam por outros bens e serviços. Tudo o que o dinheiro faz é facilitar esses pagamento.

Assim, quando um padeiro troca seu pão por dinheiro e depois usa dinheiro para comprar sapatos, ele paga sapatos não com dinheiro, mas com o pão que ele produziu. O dinheiro apenas permitiu que ele fizesse esse pagamento.

Quando falamos em demanda por dinheiro, o que realmente queremos dizer é a demanda pelo poder de compra do dinheiro.

Afinal, as pessoas não querem uma quantia maior de dinheiro nos bolsos, mas um poder de compra maior.

Sobre isso, Mises escreveu:

Os serviços prestados são condicionados pela altura de seu poder de compra. Ninguém quer ter um número definido de moedas ou um peso definido para o seu dinheiro; ele quer manter uma quantia definida de poder de compra em dinheiro.

Ação Humana, Ludwig won Mises

A moeda é sujeita à oferta e demanda

Em um mercado livre, à semelhança com outros bens, o preço do dinheiro é determinado pela lei de oferta e demanda.

Consequentemente, se houver menos dinheiro, seu valor de troca aumentará. Por outro lado, o valor da troca cairá quando houver mais dinheiro.

No âmbito de um mercado livre, não pode haver dinheiro “pouco” ou “muito”. Enquanto o mercado estiver liberado, não haverá escassez ou excesso de dinheiro.

Dessa forma, uma vez que o mercado tenha escolhido uma mercadoria em particular como moeda, o estoque fornecido dessa mercadoria sempre será suficiente para garantir os serviços que a moeda fornece.

Portanto, em um mercado livre, toda a ideia da taxa ótima de crescimento da base monetária é absurda.

De acordo com Mises:

Como a operação do mercado tende a determinar o estado final do poder de compra da moeda a uma altura em que a oferta e a demanda por moeda coincidem, nunca pode haver excesso ou deficiência de moeda.

Cada indivíduo e todos os indivíduos juntos sempre desfrutam plenamente das vantagens que podem derivar da troca indireta e do uso do dinheiro, independentemente de a quantidade total de dinheiro ser grande ou pequena. […] os serviços prestados pelo dinheiro não podem ser aprimorados nem reparados, alterando a oferta de dinheiro.

A quantidade de dinheiro disponível em toda a economia é sempre suficiente para garantir a todos aquilo que todo o dinheiro faz e pode fazer.

Ação Humana, Ludwig won Mises

Produção e consumo se retroalimentam

Em uma economia de mercado, o objetivo da produção é o consumo. As pessoas produzem e trocam bens e serviços entre si, para melhorar sua vida e bem-estar.

Por sua vez, isso significa que o consumo não pode surgir sem produção, enquanto a produção sem consumo estimado não faz sentido.

Portanto, em uma economia de livre mercado, tanto o consumo quanto a produção estão em harmonia. Nesse cenário, o consumo é totalmente respaldado pela produção.

Logo, o que permite ao padeiro consumir pão e sapatos é a sua produção de pão. Assim, uma parte dos pães é consumida diretamente, enquanto a outra é usada para pagar pelos sapatos.

Observe que seu consumo é totalmente respaldado, ou seja, pago por sua produção.

Qualquer tentativa de aumentar o consumo na ausência de uma produção correspondente leva a um consumo não financiado, que deverá ser custeado por outra pessoa.

É exatamente isso que a injeção de moeda faz. Ele gera uma demanda que não é suportada por nenhuma produção.

A impressão de moeda distorce a poupança

Uma vez gerada, essa demanda prejudica o fluxo de poupança real e, por seu turno, enfraquece a formação de capital real, sufocando ao invés de impulsionar o crescimento econômico.

São economias reais e não dinheiro que financiam e possibilitam a produção de melhores ferramentas e máquinas.

E, com esses insumos, é possível elevar a produção de bens e serviços finais — é disso que se trata o crescimento econômico.

Portanto, contrariamente à maneira popular de pensar, que põe em movimento um consumo artificial pela produção por meio da impressão de moeda, não será promovido crescimento econômico.

Afinal, o consumo não financiado enfraquece o fluxo de poupança real e, consequentemente, enfraquece também a fonte que financia o crescimento econômico real.

Caso contrário, a pobreza no mundo já teria sido eliminada há muito tempo. Afinal, todo mundo sabe como exigir e consumir.

A única razão pela qual no passado as políticas monetárias frouxas pareciam crescer a economia é por que o ritmo da geração real de poupança era forte o suficiente para absorver aumentos no consumo não financiado.

No entanto, uma vez que o ritmo do consumo não financiado chega a um estágio em que o fluxo de poupança real enfraquece a economia, acontecem recessões graves.

Por esse motivo, qualquer tentativa de o banco central retirar a economia da crise, por meio de mais impressão de moeda, torna as coisas muito piores.

A economia real

Certamente, os governos e os bancos centrais tentarão impedir a deterioração econômica causada pelo coronavírus.

Mas, nem esses bancos centrais ou qualquer governo têm os recursos reais para fazer uma economia crescer, pois nenhum dos dois é gerador de riqueza. Ambos se sustentam do desvio de recursos do setor privado.

Isso significa que todas as medidas que o governo tomará devem ser às custas das atividades que estão gerando riqueza. Obviamente, esse processo enfraquecerá a capacidade da economia de gerar bens e serviços.

Portanto, independente das boas intenções, nem o banco central nem o governo são capazes de ajudar a economia a combater os danos infligidos pelo coronavírus.

Somente o setor privado gerador de riqueza é capaz de fazê-lo.

Os que criticam a nossa visão argumentam que a impressão de moeda cria uma ilusão temporária de riqueza, cujo efeito é aumentar a demanda por bens e serviços.

Dessa maneira, um aumento da demanda provocaria um aumento da oferta, isto é, da produção de bens e serviços.

No entanto, vimos que, sem o aumento da economia real, não é possível aumentar a produção de bens e serviços.

Portanto, se a capacidade da economia foi danificada, o aumento da demanda não vai reparar o problema enquanto o fluxo de poupança real estiver enfraquecido.

*Frank Shostak é economista austríaco e pesquisador do Mises Institute.

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Por | 2020-05-25T03:18:57-03:00 15/04/2020|Economia|Comentários desativados em Impressão de moeda não é a solução para a crise