Holodomor e os prejuízos da coletivização agrícola

Desde o século XIX, os níveis globais de alimentação aumentaram e a desnutrição está diminuindo. Nunca tivemos acesso a tantas calorias de tantos produtos diferentes disponíveis para tantas pessoas a preços tão baixos. A ameaça das grandes fomes, portanto, sem surpresa, desapareceu. Na década de 1870, cerca de 142 pessoas por 100 mil morreram devido à fome. Na década que acabou de terminar, esse número era de… 0,5 pessoas por 100 mil — uma redução de 99%. E, claro, graças ao capitalismo.

O paradoxo das grandes fomes na Era da Produtividade Agrícola

É no período de aumento dos níveis nutricionais que observamos as piores fomes da história humana. De fato, antes do século XX, a maioria das fomes causadas por fatores naturais (por exemplo, clima, doenças) não eram eventos exatamente extremos como aqueles que geralmente vêm à mente, como o Holodomor na Ucrânia durante a década de 1930 ou a Grande Fome na China durante o 1950 e 1960. Essas fomes anteriores ao século XX foram mais como períodos de escassez com desnutrição severa. É verdade que houve episódios horríveis causados ​​por eventos naturais como a Grande Fome Irlandesa, mas esta foi mais uma exceção do que uma regra.

A razão para essa distinção é que a fome e a escassez de alimentos causadas por eventos naturais diminuíram muito. Nenhuma economia de mercado com uma democracia liberal sofreu com a fome durante o século XX. No entanto, a fome produzida a partir do projeto humano aumentou consideravelmente. As dez piores fomes do século XX podem ser atribuídas diretamente (por exemplo, o Holodomor) ou indiretamente (como guerras) às políticas governamentais. E essas dez piores fomes estão entre as piores fomes de toda a história da humanidade.

No entanto, deve-se notar que acabei de distinguir entre “diretamente” e “indiretamente”. Essa distinção é importante porque aponta para o fato óbvio de que essas fomes nunca foram monocausais. Como tal, sempre há debates sobre essas fomes extremas: a fome foi iniciada por uma seca; A fome foi iniciada por uma política governamental, foram as mortes causadas pela fome devido ao fracasso dos governos em fornecer ajuda? Desemaranhar esses fios mais finos é uma tarefa muito difícil.

O caso Holodmor

Felizmente, um trabalho recente de Natalya Naumenko no Journal of Economic History nos fornece esse desemaranhamento no caso do Holodomor na Ucrânia durante os anos 1930.

O Holodomor é ideal para esse tipo de esforço. Em primeiro lugar, o número de mortos foi terrível: seis a oito milhões morreram em 1933. Em segundo lugar, muitos estudiosos debatem se a fome foi precipitada por uma seca e se as políticas governamentais (como a coletivização de fazendas que teve início na década de 1920 e a proibição do comércio privado de alimentos para facilitar a compra de trigo pelo governo para exportação) piorou as coisas.

Para fornecer o desemaranhamento, Naumenko coleta dados de nível distrital sobre mortalidade, clima, coletivização, insumos agrícolas, composição étnica e urbanização. Combinada com outras fontes de dados, ela primeiro desacreditou a ideia de que as secas haviam ocorrido antes de 1933 de forma a tornar as populações locais vulneráveis. As temperaturas nesses anos foram aproximadamente semelhantes aos anos anteriores, embora os meses de maio e junho de 1932 tenham sido marcados por níveis excepcionalmente altos de precipitação.

Em seguida, ela tenta avaliar a contribuição relativa em 1933 dos diferentes fatores. As variações nas características do clima apresentam muito pouco poder de fogo explicativo: elas explicam menos de 10% do excesso de mortalidade naquele ano. No entanto, os efeitos da coletivização e compras governamentais de trigo fornecem um forte poder explicativo: entre 52% e 57% do excesso de mortalidade é explicado por variações na taxa de coletivização da economia agrícola entre os distritos.

Como a coletivização agrícola gerou a tragédia em Holodomor

Para ligar esses fatos, Naumenko então investiga o efeito da coletivização na produção agrícola. Não é novidade que as áreas com maiores taxas de coletivização exibiram menor área semeada per capita. A coletivização também foi associada a uma queda na pecuária per capita. Esses dois mecanismos sugerem que havia claramente uma raiz institucional para a fome.

Como o pesquisador resumiu sucintamente, é necessário “colocar a culpa onde ela pertence”: aos pés das “políticas governamentais que tornam o abastecimento de alimentos suscetível a desastres quando as condições ambientais são menos do que perfeitas”.

Esta obra de história econômica não vale a pena ler apenas por causa de sua natureza bem executada, mas sim porque é um poderoso lembrete de como os governos podem alimentar alguns dos piores desastres da história humana.

Represália stalinista

Na Ucrânia existia, inclusive, um forte movimento nacionalista, que pedia a emancipação da URSS. Para sufocar essa dissidência, a propaganda soviética começou a retratar os camponeses ucranianos como inimigos da revolução.

Falava-se que a população da Ucrânia escondia comida, enquanto os trabalhadores das indústrias se sacrificavam para construir um novo mundo socialista.

O governo stalinista estipulou metas de produção e entrega de cereais, que só poderiam ser cumpridas caso os ucranianos parassem de se alimentar. O intuito era claro: acabar com o movimento nacionalista matando os opositores por inanição.

Para tal, o governo soviético confiscou toda a comida estocada. Além disso, as pessoas foram proibidas de saírem de sua região para procurarem comida. Uma linha militar foi, inclusive, estabelecida ao redor da fronteira ucraniana para deter fugitivos.

Para além dos efeitos da coletivização agrícola e do confisco, o número de mortos foi ainda maior a partir da deliberação explícita de Josef Stálin.

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Vincent Geloso

Por:

Vincent Geloso e PhD em História Econômica na London School of Economics, é professor assistente de Economia no King’s University College e escreve para o American Institute of Economic Research.

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