Henry Maksoud: ícone do liberalismo tupiniquim

Prisioneiro do estado: foi assim que Henry Maksoud, um dos maiores empresários do Brasil – e ícone do liberalismo tupiniquim – se autointitulou. Um senhor não muito alto, calvo e cujas gravatas eram exuberantes. Maksoud, mato-grossense de nascença, mas paulista de corpo e alma, além de um engenheiro e um homem de negócios, foi um dos maiores defensores das liberdades individuais na história recente do país (chegou, inclusive, a propor uma constituição liberal para os brasileiros). 

Talvez você o conheça pelo luxuoso hotel Maksoud Plaza, fundado por Henry e localizada na Avenida Paulista, em São Paulo: e onde cantores como Budd Guy, Tom Jobim e ninguém menos que Frank Sinatra fizeram suas apresentações. Todavia, Maksoud foi muito além disso. 

O empresário foi responsável por trazer o economista Friedrich August von Hayek mais de uma vez ao Brasil. Aqui, Hayek realizou inúmeras palestras – entre as quais, uma das que ficou mais famosa, a participação do intelectual austríaco na Universidade de Brasília (UNB) em 1981; que, inclusive, virou um livro: Hayek na UNB. O proprietário do Maksoud Plaza também é um dos responsáveis pela tradução das obras de Hayek: “Fundamentos da Liberdade” e “Arrogância Fatal – Erros do Socialismo”. 

Nos comentários feitos por Maksoud durante uma das palestras, ele admite toda admiração que sente por Hayek: “creio que o professor Hayek, a quem, como todos sabem, eu admiro bastante – e conheço relativamente bem suas ideias”. Maksoud ainda propôs a Hayek, nesse mesmo evento, que classificasse os filósofos políticos da história do mundo, desafio que foi aceito com a ressalva que para isso “seria necessário um ano de conferências sobre filosofia política, ao invés de se proceder uma simples classificação”. 

Foto: Maksoud Plaza – Município Assessoria

Maksoud e a imprensa

Mesmo antes de trazer Hayek ao Brasil, Maksoud já era aficionado pelo liberalismo. Em 1974 – ou seja, durante o período militar brasileiro (no ano, em específico, o país estava sob gestão do general Geisel) —, o empresário comprou a Revista Visão, uma publicação de tendência esquerdista, mas que se transformou no epicentro de ideias liberais na imprensa escrita brasileira. 

Conforme citado no artigo “Páginas de cultura, resistência e submissão: livros na revista Visão (1968-1978)”, o diretor de redação do Grupo Visão considerou a compra da revista um divisor de águas ideológico:

“Na fase Maksoud, tendência para o chamado liberalismo, Hayek, seu principal mentor intelectual, foi frequente na linha editorial da revista, com marcante presença de temas políticos-filosóficos”, conta no artigo.

Apesar da tendência de esquerda na era pré-Maksoud, foram as ideias liberais que incomodaram o regime militar. Os militares retaliaram com cortes na publicidade governamental até então destinada à revista e pressão sobre seus anunciantes empresariais, levando a Visão a uma frágil situação financeira. O governo também proibiu Henry de escrever em sua própria revista por não possuir o diploma de jornalista.

“O governo federal deixou de investir em publicidade na revista e inibiu a participação de empresários que mantinham relações com a esfera federal e também passaram a não anunciar em Visão, temendo represálias”, afirma o artigo. 

Com José Ítalo Stelle em seu auxílio na revista, Henry conseguiu transmitir o que era o movimento e, por isso, irritar o comando nacional. Stelle, cujos artigos foram publicados na Reason Magazine e na Freeman, chamou a atenção de Henry pois esteve em contato com o ideal libertário nos Estados Unidos na década de 1970, onde se tornou ativo no movimento.  

Armado de bons argumentos e munido de coragem, Maksoud desafiava a ditadura promovendo as ideias da liberdade. Além da Revista Visão, pôde traduzir as obras de Hayek e começar a ousada empreitada de criticar o estado e o seu intervencionismo, justo no auge do autoritarismo. 

Homem da TV

Foto: o empresário Henry Maksoud em 2007/ Bruno Fernandes/Folhapress/VEJA

No ano de 1988, Maksoud comprou um horário na TV Bandeirantes para exibir o “Henry Maksoud e você”, um programa de entrevistas e divulgação de temas liberais voltados à economia e política brasileira. Com a exibição, o empresário recebeu convidados como o jurista Ives Gandra Filho e o político José Serra, que debateram a Fúria Tributária na Constituição.

Ao todo, 171 programas foram ao ar, com temas ainda hoje tão polêmicos como “nova constituição ou outro contrato de escravização?”, “o regime socialista brasileiro terá sua perestroika?” e “devemos manter virgem a bela Amazônia?”. 

Uilson de Jesus Carvalho, que compilou todos os 171 programas para os futuros arqueólogos, lembra que Maksoud dizia que enterraria as fitas em um local secreto para protegê-las da perseguição que sofria por parte das autoridades que criticava. Dizia ainda que, no ano 3000 um arqueólogo iria desenterrá-las e constataria então, no Brasil do futuro, já num regime de ampla liberdade individual, que houve no passado um tal de Maksoud que defendeu estes ideais.

Sim, Maksoud propôs uma nova constituição

Em meados de 1987, Henry Maksoud apresentou uma proposta de Constituição para o Brasil. A forma de governo proposta pelo liberal era baseada nas ideias de Hayek, visando a Demarquia

De acordo com o empresário, com base nas ideias austríacas, a Carta Magna teria como objetivo principal garantir as liberdades individuais, até mesmo acima da Democracia, sob a égide do Estado de Direito e observando a separação entre os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário onde “nenhum poder, nem mesmo o do povo soberano é ilimitado”. Dessa forma, o país deveria adotar uma forma de governo na qual a Lei imperasse, e não os homens ou os partidos. 

“Um governo limitado por normas gerais, para propiciar o florescimento de uma sociedade aberta, de pessoas livres. Não é apenas um governo democrático de predomínio da maioria, mas de um do povo subordinado à lei”, afirmou Henry. 

Maksoud destacou que nenhuma constituição brasileira (1824, 1891, 1934, 1937, 1946, 1967 e 1969) contiveram esses princípios. Segundo ele, “além de não definirem os atributos que todas as leis devem possuir, elas não organizavam a forma de governo de modo a realizar a efetiva separação de poderes, que tem sido apenas formal e não aplicada na prática (…) também não tivemos um sistema de governo que respeitasse a tradição do Federalismo ou que considerasse a Federação na sua montagem.”

“São uns merdas” 

Foto: Henry Maksoud

No dia 24 de dezembro de 2007, Henry Maksoud deu uma entrevista para a Folha de São Paulo onde propôs algumas soluções “diferentes” para o Brasil, demonstrando o que pensa sobre o governo. Ao comparar os governos Lula e FHC, disse: “Se for para considerar o que o mundo pensa do Brasil, o governo do Lula é melhor. E, se for para considerar o que eu penso do Brasil, esse e o outro são umas merdas”. 

Maksoud também destacou a força do pensamento liberal e de como, apesar de ter sido localizado em alguns países, resiste até hoje.  

“O conceito liberal que eu defendo não é o que se tem hoje. Essa bobagem chamada neoliberal não existe. Pode escrever. Neoliberal é besteira. Não existe essa asneira. O que aconteceu na Inglaterra e na Escócia é algo que poderia ser chamado de liberalismo clássico, mas aconteceu só lá. Foi apenas uma pequena mancha tão forte que as ideias foram para alguns outros lugares. Mas isso não quer dizer que, depois disso, o liberalismo clássico, a economia de mercado, espalhou-se pelo mundo. Não. Se você procurar onde existe a economia de mercado, vai ver só algumas manchas.”

E quando questionado se já existiu liberalismo no Brasil responde que “no Brasil, zero. No Brasil, quase nenhuma mancha. Não, não existe. Aqui tem [no seu escritório], mas às vezes me vejo infectado porque vivo aqui, sou um prisioneiro. Vivo prisioneiro de um estado, igual a um clube ao qual sou filiado compulsoriamente. Eu me revolto contra o estado, mas eles me punem”, esbravejou. 

Maksoud ainda criticou o governo Lula. Segundo o empresário, o erro do presidente foi que “comprou só um avião. Ele deveria ter comprado uns 15 aviões e colocado o governo o tempo todo viajando”. 

“Aí não teríamos governo. Você está rindo, eu estou falando sério. Sou anarquista. As pessoas pensam que anarquia é bagunça. Anarquia é um sistema de governo. Quer dizer governo mínimo. Alguns amigos me acusavam de eu ficar criticando, escrevendo, falando e nunca apontar uma solução. E aí dei uma solução: férias coletivas para o governo. Olha o mapa do mundo [aponta um mapa-múndi], há umas ilhas ali do lado da Austrália, do lado do Pacífico, compra umas belas ilhas e põe o governo lá em férias.” 

Jardim liberal

Por tudo que foi falado, resta claro que Maksoud foi um dos maiores ativistas liberais que o Brasil já teve, lutando pela liberdade em diversas frentes: na cultura, na imprensa, na academia, na política e no meio empresarial.

É difícil imaginar alguém tão engajado na defesa dos ideais libertários como Henry foi. Num cenário de completo autoritarismo, ele surgiu como uma oposição, não político-partidária, mas de ideias repletas de coerência, ousadia e paixão.

Falecido em 17 de abril de 2014, um dos ícones do liberalismo brasileiro se foi, mas suas ideias estão mais viva do que nunca e inspiram novos floresceres num jardim que está cada vez mais livre.

O texto é uma edição de produções de Rodrigo Saraiva, Luciana Lopes e Nathan Reginaldo

, , , , ,

Diversos Autores

Por:

Desde 2015 o Ideias Radicais busca difundir o libertarianismo e ajudar a construir uma sociedade livre.

Relacionados

BitPreço
Settee