Quem foi Henry David Thoreau: o melhor governo não governa

Henry David Thoreau (1817-1862) foi um naturalista americano, escritor e abolicionista. É autor de um dos ensaios mais radicais e influentes da história da filosofia política: Desobediência Civil.

Trata-se de uma série de reflexões ao longo de uma noite de 1846 que ele passou na prisão em virtude de sua resistência tributária. Thoreau proclamou “que o melhor governo é o que não governa” e exortou seus leitores a “retirar seu apoio, tanto em pessoa como na propriedade” aos governos que fazem e aplicam leis injustas.

A resistência de Thoreau aos impostos, que o levou à prisão, foi ocasionada por sua oposição à escravidão. Henry David Thoreau foi um abolicionista, assim como seu pai, e há algumas evidências de que tanto a casa de sua família em Concord quanto a famosa casa de campo de Henry em Walden Pond, eram paradas na Ferrovia Subterrânea que transportava escravos fugitivos para a liberdade.

A vida e obra do ensaísta, portanto, defende “a moralidade da objeção conscienciosa a leis injustas”.

Morador ao longo da vida em Concord, Thoreau e suas opiniões antiescravistas eram bem conhecidas por seus vizinhos e há registros de que não eram consideradas chocantes ou escandalosas.

Desobediência civil

Contudo, Thoreau ficou escandalizado ao encontrar seus vizinhos se preparando com entusiasmo para a recém-declarada Guerra do México.

Ele enxergava que a guerra é uma tentativa de levar a escravidão para outros territórios e, portanto, ilegítima.

Quando lhe pediram o pagamento de seu poll tax anual — um tipo de imposto muito necessário naquele ano por causa do esforço de guerra — ele simplesmente recusou.

O policial, um amigo de longa data, disse a Thoreau que não tinha interesse em prendê-lo e que pagaria o imposto por ele caso não pudesse levantar os fundos necessários. Porém, Thoreau recusou novamente e, desta vez, foi preso.

Em 24 horas, seu imposto foi pago contra sua vontade por membros de sua família, então ele passou apenas uma noite na prisão. Aquela noite foi tempo suficiente, no entanto, para ele reunir seus pensamentos sobre a relação adequada do indivíduo com o estado.

Dois anos depois, ele colocou esses pensamentos no papel para uma palestra que chamou de “Os Direitos e Deveres do Indivíduo em Relação ao Governo”, que foi posteriormente publicada como “Resistência ao Governo Civil” (1849) e finalmente como “Desobediência Civil” (1866), o título sob o qual o conhecemos hoje.

Thoreau começa seu famoso ensaio investigando a natureza e a justificativa do estado.

Eu aceito de coração o lema — “O melhor governo é aquele que menos governa”; e eu gostaria de ver isso agindo mais rápida e sistematicamente. Levada a cabo, chega-se finalmente a isto, o que também creio: — “O melhor é o governo que não governa de modo algum”; e quando os homens estiverem preparados para isso, esse será o tipo de governo que eles terão.

As ideias de Thoreau

Henry David Thoreau argumentava que um indivíduo deveria fazer aquilo que sua consciência moral lhe dissesse ser o certo, não as leis. Caso não o fizessem, logo os governos se tornariam agentes da injustiça e do autoritarismo.

O fundamento do pensamento dele se dá em um contexto dos Estados Unidos antes da guerra com o México (1846-1848), a qual os norte-americanos venceram e anexaram territórios mexicanos.

O autor enxergava que a existência da escravidão tornava os Estados Unidos um governo ilegítimo. Ele ainda afirmava que cidadãos não poderiam se comportar de forma passiva diante desse tipo de injustiça imposta pelo estado.

Thoreau comparou os homens de sentimentos morais indiferentes a paus ou pedras usados na máquina da opressão. Para ele, não eram apenas os senhores de escravos que seriam moralmente culpados pela escravidão. Isso porque os moradores de Massachusetts pareciam não ter nada a ver com a escravidão do sul, mas ao concordarem com um governo que a legitimava, permitiam que ela continuasse.

A conclusão lógica de seu pensamento pode ser resumida em sua declaração de que “o melhor governo é aquele que não governa”. Adepto ao individualismo, afirmou que o progresso na América não veio do governo, mas da engenhosidade dos indivíduos. Dessa forma, o melhor que um governo poderia fazer seria “sair do caminho do povo e deixá-lo se desenvolver”.

Thoreau dizia que o indivíduo insatisfeito precisava fazer mais do que somente registrar sua desaprovação no dia da eleição: a urna é parte do estado, mas a consciência moral do indivíduo está acima e fora de tais instituições. “Deposite todo o seu voto, não apenas uma tira de papel, mas toda a sua influência”, defendia.

Influência de Henry David Thoreau

Thoreau argumentou que até estarmos totalmente preparados para um governo que “não governa”, devemos viver em paz com o estado — a menos e até que este adote políticas que exijam que participemos da perpetração de injustiças.

Nesse ponto, afirmou ser “obrigação de toda pessoa moral recusar a cooperação com o estado”. Portanto, à luz da persistência da escravidão e do travamento da Guerra do México, “[como] um homem deve se comportar em relação a este governo americano hoje? Eu respondo que ele não pode ser associado a isso sem desgraça”, escreveu.

Quanto a Thoreau, ele não apenas se recusou a pagar seus impostos; não apenas escreveu que “não posso reconhecer por um instante essa organização política como meu governo, que também é o governo dos escravos”. Ele registrou em seu diário que “[meus] pensamentos são assassinato para o estado; Eu me esforço em vão para observar a natureza; meus pensamentos vão involuntariamente conspirando contra o estado. Acredito que todos os homens justos conspirarão. ”

Embora nem todos os homens tenham aderido ao apelo de Henry David Thoreau por apoio e solidariedade, muitos o fizeram. Suas opiniões políticas não tiveram tanta influência ao longo de sua vida, mas o impacto de sua obra cresceu continuamente ao longo das décadas seguintes.

Duas das figuras mais importantes na história do anarquismo filosófico, Leo Tolstoy e Emma Goldman, aprenderam muito com a breve excursão de Thoreau à filosofia política, por exemplo.

O poder de suas ideias se tornou mais conhecido depois que as sufragistas quebrarem a lei no Reino Unido para protestar pelo direito de voto das mulheres; que Mahatma Gandhi as usou para criar a Satyagraha e colocar o Império Britânico de joelhos; e após Martin Luther King Jr. se espelhar nelas para levantar a bandeira dos direitos civis na terra natal de Henry David Thoreau.

A vida de Henry David Thoreau

Nascido em Concord no ano de 1817, Henry era filho de um produtor de canetas. Estudou em Harvard, onde aprendeu retórica, os clássicos, filosofia e ciência. Também foi dono de uma escola com um de seus irmãos até a morte deste em 1842.

Aos 28 anos, construiu uma cabana no lago Walden, na propriedade do escritor Ralph Waldo Emerson, vivendo por lá ao longo de dois anos. Seu livro Walden é um estudo sobre a vida simples e a autossuficiência, exaltando os benefícios da solidão e da experiência direta com a natureza. É, portanto, um dos influenciadores da filosofia minimalista.

Thoreau juntou-se a Emerson e aos “transcendentalistas” que acreditavam na bondade básica do indivíduo.

Seu pensamento pode ser resumido a partir da ideia de que um senso de justiça natural talvez clame por ações diretas independentes da máquina do governo ou da visão das maiorias. Essas ações poderiam incluir, afinal, “não reconhecer o estado, não cooperar com seus funcionários ou não pagar impostos.”

Em 1862, Henry morreu de tuberculose. Suas últimas palavras — que dizem ter sido “alce, índios” — é vista como exemplo de seu amor pela vida na natureza.

Gostou do artigo? Então apoie o Ideias Radicais!

, , , , , ,

Avatar

Por:

É jornalista e membro da Organization of American Historians.

Relacionados