O que foram as Grandes Purgas de Stalin

Muitos fatos importantes relacionados aos regimes comunistas ao longo da história ainda são pouco conhecidos. Entre estes, está um dos episódios mais marcantes da Rússia: as Grandes Purgas, ou Expurgos, orquestrados pelo ex-líder soviético Josef Stalin.

As Grandes Purgas como parte de um projeto de poder

Em 1936, iniciou-se, na União Soviética, que já havia passado pelo processo da Revolução Russa, um grande movimento de repressão política, cujo objetivo era afastar da sociedade certos indivíduos que Stalin considerava como dissidentes, contrarrevolucionários. Ou, como se dizia na época, “inimigos do povo”.

Como é fácil reparar, este termo é tremendamente amplo e impreciso, o que servia perfeitamente para facilitar que o governo soviético perseguisse, acusasse e processasse qualquer pessoa considerada “potencialmente inimiga”. Porém, a motivação principal do líder era remover qualquer resquício de dissidência dentro do Partido Comunista, consolidando, assim, a sua autoridade e o seu poder.

Em suma, as Grandes Purgas foram oficialmente divulgadas como um suposto combate a grupos internos terroristas e sabotadores, afetando praticamente todos os setores da sociedade soviética da época. Entre os principais alvos estavam: líderes políticos, burocratas, membros das forças armadas, intelectuais, empresários, industriais e camponeses.

Fotos falsificadas da União Soviética. A versão original desta foto (acima) mostra Nikolai Yezhov, o jovem à esquerda de Stalin. Na versão modificada (abaixo), a sua imagem foi removida pelos censores soviéticos.

A insatisfação do povo

No início dos anos 1930, os líderes soviéticos viam com preocupação a crescente insatisfação popular, resultado da coletivização forçada dos camponeses. Assim como, da Grande Fome que afetou vastas porções da Ucrânia, do Cáucaso e do Cazaquistão, acarretando a morte de milhões de pessoas.

grandes purgas ucrânia
Holodomor, ou Grande Fome na Ucrânia.

Na prática, Stalin temia que essa insatisfação popular pudesse crescer e se transformar em uma nova Guerra Civil. Logo, para remediar este mal, ele passou a encarar antigos amigos e aliados como potenciais opositores e líderes do que costumava se referir como Contrarrevolução.

Após a morte de Vladmir Lênin e do afastamento de Léon Trotsky, que tinha sido expulso da União Soviética em 1929, Stalin queria consolidar a sua visão ideológica particular como a única no país. Para isso, precisava eliminar fisicamente os apoiadores dessas antigas figuras de topo. Neste ponto, as Grandes Purgas assumiram um papel importante.

Além disso, Stalin também temia uma nova Guerra Europeia, vendo com desconfiança o crescimento da Alemanha na Europa Central e do Japão no extremo Oriente. Nesse cenário, o líder soviético sentia-se duplamente ameaçado com o seu país cercado por países potencialmente inimigos e repleto de pessoas às quais ele reconhecia como rivais.

Em caso de guerra, estaria em risco o controle do poder central, o que foi mais um motivo para o início das Grandes Purgas.

Os julgamentos recorrentes

Em 1936, o NKVD, considerado como o ‘’Ministério do Interior da URSS’’, sob a direção de Guenrikh Yagoda, iniciou a perseguição formal contra antigos líderes e burocratas do partido.

Já em agosto deste mesmo ano, seguiu com aquele que seria considerado o Primeiro Julgamento de Moscou, quando Grigori Zinoviev e Lev Kamenev, foram acusados de serem os mandantes da morte de Serguei Kirov, amigo pessoal de Stálin.

Ambos os acusados haviam sido membros do Politburo original formado em 1917. Este, por sua vez, tratava-se do máximo órgão de governo e direção do Partido Comunista.

Símbolo da NKVD

Como sempre acontecia nesse tipo de julgamento, os réus confessaram todos os crimes, sendo posteriormente executados.

Logo após esse julgamento, Yagoda perdeu o posto de chefe do NKVD, sendo substituído por Nikolai Iezhov. Assim, sob seu novo comando, foi iniciada a Era Iezhov, quando as Grandes Purgas assumiriam proporções muito maiores.

Em 1937, aconteceu o Segundo Julgamento de Moscou, no qual 17 antigos líderes comunistas foram acusados de traição. Mais uma vez, todos confessaram os crimes e foram executados.

No ano seguinte, ocorreu o terceiro e último Julgamento de Moscou, também conhecido como o ‘’Julgamento dos 21’’, no qual 21 integrantes do topo do Partido Comunista foram acusados de pertencerem ao bloco de direitistas trotskistas.

Dentre estes, destacava-se Nikolai Bukharin, revolucionário bolchevique; Alexsei Rykov, ex-Primeiro Ministro da União Soviética; e, por ironia do destino, o próprio Guenrikh Yagoda, que fora responsável pelo início das Grandes Purgas.

Um dos Julgamentos de Moscou

Nesta ocasião, 18 indivíduos receberam a pena de morte e três foram condenados a penas de 15 e 25 anos. Poucos meses depois desse julgamento, seria a vez de Nikolai Yezhov seguir o mesmo destino de Yagoda: perderia o posto na organização NKVD, sendo depois julgado e executado.

Mais tarde, Yezhov foi sucedido por Lavrenti Beria, que em 1953, após a morte de Stalin, receberia o mesmo destino de seus antecessores.

Provas históricas sobre as Grandes Purgas não faltam

De acordo com documentos recentemente analisados, durante a era Yezhov, foram detidas mais de 1,5 milhão de pessoas, das quais cerca de 650 mil foram executadas. Isto é, uma média de mil execuções por dia.

Além disso, estes documentos também indicam que cerca de 6% da população soviética da época foi direta ou indiretamente afetada pelas Grandes Purgas. Ou seja, cerca de oito milhões tiveram seus nomes referidos em processos judiciais.

Por fim, as Grandes Purgas afetaram as forças militares soviéticas. Dos 15 comandantes do Exército, 13 foram afastados, presos ou executados. Outros oito almirantes da Marinha, 50 dos 57 comandantes de corpos do Exército e 154 dos 186 comandantes visionais também foram condenados à morte. Isso sem contar milhares de oficiais de menor patente.

Considerações finais

As Grandes Purgas foram tão profundas que acabaram afetando a capacidade ofensiva do Exército Vermelho, o que fomentou a vergonhosa campanha da Guerra de Inverno, entre 1939 e 1940. Tal investida contra a Finlândia resultou em cerca de 400 mil soldados soviéticos feridos ou mortos de uma frente de 740 mil homens.

Os efeitos destes massacres também se fizeram sentir em junho de 1941, quando a Alemanha invadiu a União Soviética. Após várias derrotas do Exército Vermelho, foram registradas aproximadamente 2 milhões de baixas durante apenas seis meses de invasão. A situação só começou a melhorar entre 1942 e 1943, quando foi consolidada a vitória soviética em Stalingrado.

Após a morte de Stalin em 1953, começaram a se levantar vozes contra as terríveis Grandes Purgas. Com destaque para o discurso de Nikita Kruschev em 1956, durante o qual ele apresentou documentos nos quais estavam evidentes confissões coletadas com base em torturas e provas plantadas com único objetivo de condenar potenciais rivais de Stalin.

grandes purgas
Nikita Kruschev, no Discurso Secreto de 1956, em que denunciou os crimes de Stálin contra a própria população soviética.

Em suma, as Grandes Purgas fizeram parte de uma das fases mais obscuras e cruéis da história soviética, motivada pela paranoia de Stalin e seu doentio desejo de perpetuar-se no poder. Por esse motivo, a compreensão deste fato histórico é uma das questões que todos devem aprender sobre o comunismo.

, , , , , , , ,

Avatar

Por:

Criador dos canais Hoje no Mundo Militar e Hoje na Segunda Guerra Mundial.

Relacionados

teoria whig

Teoria Whig: a história da ciência compartilhada por Kuhn e Rothbard

Thomas Kuhn, filósofo e físico, muito influenciou a perspectiva austríaca de Rothbard sobre a história da economia e da ciência, por meio da Teoria Whig.

, , , , , , , , , , , , , , ,

BitPreço
Settee