Os pontos mais “feios” do governo Donald Trump

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Os pontos mais “feios” do governo Donald Trump

Este texto é a terceira parte de três artigos em que se analisa os 42 primeiros meses de mandato de Donald Trump. No primeiro, abordamos os pontos mais positivos da administração, e no segundo abordamos os pontos negativos. Neste, abordaremos posturas institucionais de sua presidência que destoam de políticas governamentais. Para compreender as regras das eleições presidenciais, clique aqui. Confira ainda nossa análise preliminar do concorrente democrata Joe Biden.

Nem sempre as medidas de um presidente se dão na esfera de políticas públicas. No debate americano, é muito comum se ouvir falar do bully pulpit atribuído a qualquer político ou influenciador do debate e que tem uma importância tão grande ou maior que medidas administrativas.

Isso porque um presidente governa com ações, exemplos e palavras. E se por um lado o governo Trump teve medidas algumas governamentais positivas e outras negativas, por outro o seu exemplo de conduta e declarações ao longo de sua campanha em 2016 e presidência deixaram muito a desejar.

[O título deste texto é referência a uma brincadeira com o filme de Clint Eastwood (um apoiador do candidato Trump em 2016 e que em 2020 apoiou o pré-candidato Mike Bloomberg: como no primeiro artigo foram levantados os aspectos bons e no segundo os maus, neste falaremos dos “feios”.]

Amplificações das cisões do país

Um elemento importante da eleição americana de 2016: tanto Trump como Hillary eram os candidatos mais impopulares escolhidos pelos seus respectivos partidos para concorrerem à presidência. Se Trump foi o candidato mais impopular da história, Hillary foi a segunda.

Passados mais de três anos, o cenário não mudou muito. Trump pouco ou nada fez para unir um país polarizado em torno de um projeto para a América. Muito menos moderou sua retórica e seu hábito de “colocar os pés pelas mãos” em temáticas importantes ou divisivas.

Não, isso não é mérito exclusivo dele. Ele não foi o primeiro a fazer isso, nem será o último. Barack Obama foi tão responsável pelo nível de cisão social do país em 2016 quanto Trump (por exemplo, como seu comportamento no caso de Trayvon Martin).

Mas, desde 2017, Trump é o presidente americano e deveria se portar como tal. Sua fúria no Twitter, seus pronunciamentos mal colocados, como no caso de minimizar a retórica identitária dos manifestantes em Charlottesvill ou durante todo o processo de impeachment não ajudam. Seu apreço por políticos de retórica e atitude autoritária também demonstra uma dissonância com os valores essenciais ao país que ele preside.

O problema de retóricas inflamadas

Mesmo discursos inflamados que não se transformam em políticas públicas e governamentais possuem um grande problema: essa retórica estapafúrdia permite que políticos se escondam em debates importantes e não avancem em situações que poderiam beneficiar o país.

Um exemplo disso foi na discussão sobre a questão imigratória: Trump, por várias vezes, falou que aceitaria uma regularização dos imigrantes chamados Dreamers (pessoas de até 18 anos quando de sua chegada aos EUA e que foram trazidos para o país ilegalmente) em troca de alguns bilhões de dólares para a construção do seu muro, mas em seguida fazia pronunciamentos escolhendo palavras dúbias e ambíguas. Com isso, a mídia podia facilmente criar o senso de que o presidente era completamente anti-imigração (porque sempre havia trechos que fortaleciam essa narrativa), permitindo que Democratas não agissem no tópico.

Como não é do interesse dos Democratas resolver a situação — eles precisam que essa narrativa se mantenha viva para conseguir mobilizar sua base eleitoral e demonizar a oposição — assim como Republicanos não fazem nada significativo relacionado a reforma dos programas assistenciais ou a corte de gastos e da dívida estatal —, o problema é empurrado com a barriga, a insegurança jurídica apenas aumenta e um status quo ruim permanece.

Trump não entende quem é sua própria base

Um fator que também influencia a retórica de Trump é não entender quem realmente faz parte do seu partido e da sua base e como isso afeta sua reação a temas/controvérsias. Em 2016, ele demorou a recusar o apoio de David Duke, um líder supremacista branco, porque achava que ele representava uma facção majoritária entre os Republicanos. Outro exemplo interessante foi a perplexidade de Trump durante seu discurso na convenção partidária em 2016 quando Republicanos aplaudiram efusivamente uma fala nas linhas de “não podemos deixar impunes terroristas que matam americanos apenas por sua orientação sexual” — ele aparentemente acreditava que Republicanos querem “acabar com gays”, assim como o terrorista que atacou a boate Pulse em Orlando.

Agora em 2020 vimos o presidente sair em defesa da bandeira Confederada, um símbolo dos escravocratas derrotados na Guerra Civil do século XIX — diga-se de passagem, o partido Republicano de Trump foi fundado em parte para acabar com a escravidão e o primeiro presidente Republicano da história, Abraham Lincoln, foi responsável por derrotar os Democratas sulistas que haviam secessionado. O pior é que a defesa a bandeira confederada veio logo após um bom discurso de 4 Julho, proferido no monumento Mount Rushmore, em que Trump defendia a ideia dos pais fundadores da América e fez menções elogiosas a Lincoln.

Trump aumenta a polarização política e tensões sociais

Por fim, parte do abuso de poder por Trump permite que a narrativa e a polarização se amplifiquem.

Em junho de 2020, o presidente ordenou o uso de gás de pimenta e tropas federais para liberar uma praça e uma igreja em que ele faria uma sessão de fotos, algo totalmente injustificável.

Já em julho, todavia, forças federais foram acionadas para conter rioters que tentavam colocar fogo em um tribunal federal na cidade de Portland, Oregon. Como a primeira situação aconteceu, é fácil fingir que a segunda era um caso parecido — manifestantes pacíficos sendo expulsos por um governante intolerante que precisa de mídia para se reeleger — e essa tem sido a narrativa inclusive do ex-presidente Barack Obama durante a sua eulogia no funeral do ex-congressista John Lewis.

Nepotismo

Todo administrador público (e políticos são um grupo deles) devem seguir o princípio básico de que não adianta apenas ser honesto: é necessário parecer honesto. Mas o que isso quer dizer?

Por mais que uma pessoa esteja andando sempre na linha, se ela parece pouco confiável, sempre será alvo de suspeitas e escrutínios exagerados que geram um custo transacional muito maior.

Na administração pública, um dos bons exemplos relacionados a isso é a questão do nepotismo: muitas vezes os familiares nomeados podem ser realmente pessoas técnicas e capacitadas para exercer os cargos a que foram designados, muitas vezes outros administradores até os teriam contratado sem maiores problemas e sem “segundas intenções”. Mas quando é um presidente contratando sua filha e seu genro para posições de influência na Casa Branca, sempre haverá um “quê” de favoritismo e uma reticência sobre as habilidades das pessoas para exercerem os cargos.

Quando isso vem de um empresário cuja história está relacionada a patrimonialismo e senso de que o dever institucional é proteger a sua família, a situação fica pior ainda.

Donald Trump emprega seus filhos em posições estratégicas de sua companhia desde que eles sejam “velhos o suficiente” para assumir os cargos. Don Jr, Eric e Ivanka não são necessariamente as pessoas mais qualificadas para os cargos que exercem, mas, como a Trump Corporation é privada e não negociada na bolsa, com Donald Trump sendo o único sócio, os déficits de qualidade dos filhos apenas afetam a fortuna da família e não a de acionistas. Ou seja, Trump pode se dar ao luxo de ter uma empresa que é menos rentável do que poderia ser a fim de manter seus filhos (e a si mesmo) em posições de maior destaque do que talvez merecessem.

O nepotismo de Trump na presidência

Quando decidiu concorrer à presidência, Donald Trump aplicou a mesma lógica de nepotismo: seus filhos e genro ganharam posições de destaque na campanha pela nomeação presidencial. Na pior das hipóteses, ele teria perdido parte de sua fortuna e ninguém teria sido coagido a pagar pelas suas aventuras eleitorais (todas as contribuições da campanha foram voluntárias, sem obrigação do pagador de impostos em financiar os devaneios).

Mas ao vencer as primárias, Trump capturou o partido Republicano e passou a usar a máquina partidária para avançar seus interesses, mantendo sua família à frente do processo — novamente, num sistema voluntário, em que (teoricamente) ninguém era coagido a financiar a campanha ou o partido.

Mas ao chegar a Casa Branca, a equação muda: por mais que Ivanka e Jared não recebam salários como conselheiros sênior do presidente, eles definem os rumos de políticas públicas e relações institucionais (internas e internacionais) que são financiadas com dinheiro de impostos — ou seja, em que os pagadores da conta não tem direito de se recusar a “contribuir”.

Nesse cenário, qualquer desvio de uma política de melhor custo-benefício/desenho/valores por influências patrimonialistas ou por “preferências da família” impõe um custo na sociedade como um todo. E ter uma figura que sabidamente toma decisões mais direcionado pelo que seus familiares recomendam do que por ser algo com evidências não é um bom cenário.

A postura patrimonialista de Trump

Além disso, a postura patrimonialista de Trump no topo da cadeia de comando cria um ambiente institucional em que ações similares se tornam “permissivas” em outras esferas.

Usar a máquina pública para avançar uma agenda pessoal deixa de ser tão mal visto e um dos pilares de controle institucional de apropriação dos recursos estatais rui.

Vemos, por exemplo, ministros pagando funcionários domésticos com dinheiro do seu ministério, mas sendo defendidos pelo presidente.

Os americanos viram senadores conseguindo a nomeação de seus cônjuges para cargos do alto escalão governamental, obviamente com a anuência do presidente Trump.

Há ainda mais e mais instâncias em que pessoas defendem ter acesso à máquina estatal para continuarem promovendo as suas famílias. E muitos dos controles que deveriam ser culturais, sociais e morais precisam ser legislados a fim de evitar ainda mais a erosão de integridade governamental — como no caso da 22ª emenda constitucional, que precisou ser proposta e aprovada para evitar a perpetuação de uma pessoa no cargo de presidente, a exemplo do proto-ditador Franklin Delano Roosevelt.

Ivanka e Jarred podem ser absolutamente competentes e terem boas ideias, mas o presidente não os escuta porque eles estão propondo coisas razoáveis e sim porque ela é sua filha e ele seu genro. Don Jr. pode ser um bom administrador, mas o presidente não apoiaria a sua pré-candidatura a prefeitura de Nova York por méritos e sim por ser o seu filho mais velho.

Se o padrão continuar se repetindo, a ideia dos pais fundadores de acabar com os títulos nobiliárquicos estará ameaçada: desde que sua família seja próxima ao poder, ela terá privilégios legais e espoliar os cidadãos americanos.

A perda de confiança institucional

Associada à divisão do país por causa da retórica do presidente (e do ambiente político gerado pela mídia), além do patrimonialismo da família Trump, está a perda de confiança institucional.

Na verdade, pode-se dizer que essa é em parte um resultado das outras duas: americanos em geral não acreditam que o governo responde a seus anseios e que as instituições estatais servem para proteger seus direitos e liberdades. Exemplos simples disso estão na perda de confiança no Congresso (em níveis historicamente baixos), perda de confiança na polícia (acentuada com o assassinato de George Floyd), perda de confiança nas agências de saúde pública em resposta à pandemia da Covid-19, à perda de confiança em geral na mídia, entre outras.

O uso de alguns dos poderes da presidência por parte de Trump também intensificam esse processo, como no caso da comutação da sentença de Roger Stone, um aliado político de Trump, ou do perdão presidencial a Rod Blagojevich, ex-governador de Illinois condenado por corrupção. 

Confiança cega e acrítica em instituições é perigoso, mas desconfiar acriticamente e de forma cega delas também o é — independente da natureza ser estatal ou privada dessas instituições.

Quando começamos a colocar “no mesmo saco” dados reais e importantes e teorias conspiratórias porque “eles têm a mesma natureza ou foram sujos por Trump, Obama ou Biden”, fica praticamente impossível se viver em sociedade sem “atacar o coleguinha” que pensa diferente.

Como o desapreço às instituições atrapalha a vida dos americanos

Como, infelizmente, instituições da sociedade civil têm sido substituídas por instituições estatais, muitos grupos têm como única coisa em “comum” estarem sujeitos ao mesmo governante e caso todas as entidades associadas a ele tenham perdido a confiança popular, o governo como um todo e as interações entre as pessoas em geral tendem a pagar um preço.

Os custos de transações aumentam (vide decisões de cortes que ao invés de analisar aspectos legais, tentam decidir sobre as intenções de legisladores e agentes) e as trocas voluntárias começam a ocorrer apenas dentro das próprias bolhas ideológicas, diminuindo a capacidade de a sociedade criar benefícios para todas as pessoas.

Essa fragmentação também aumenta o “valor percebido/atribuído” ao controle do poder político, o que intensifica ainda mais as divisões e as necessidades de se mantê-las — já que o outro não “pode só pensar diferente”, ele deve ser visto como inimigo.

Nesse processo, a conta mais pesada recai sobre os elementos mais frágeis da sociedade — que, em geral, também são os mais desproporcionalmente afetados pela pandemia da Covid de 2020 —, escancarando as portas para mais e mais populismo e cisões.

O que Trump poderia ter feito

Donald Trump poderia facilmente melhorar em todos esses aspectos, bastaria diminuir a ingestão de redes sociais e o uso performático da presidência. Mas, desde os anos de “simples” magnata imobiliário em NYC, o seu foco sempre foram os holofotes.

“Falem mal, mas falem de mim” é o moto e “consequences be damned” o resultado. Como ressaltou o analista político Yuval Levin, um dos elementos mais importantes de instituições é a capacidade de moldar as pessoas para melhor e não servir de plataforma para que cada um demonstre sua “autenticidade”.

A presidência deveria atuar da mesma forma, moderando o discurso e as formas daqueles que nela se encontram. Afinal, Trump ou Obama não são o presidentes apenas da suas bases, mas de todos que vivem nos EUA, mas não foi isso que vimos.

Infelizmente, essa capacidade de corromper instituições para fins pessoais leva outros órgãos a seguirem o mesmo caminho e virarem cada vez mais elementos performáticos.

Desde pelo menos 2012, parte dos congressistas, tanto Democratas quanto Republicanos, parecem atuar mais para gerar views em jornais, TV a cabo e mídias sociais do que avançar alguma agenda legislativa.

Trump não é diferente e sua persona larger than life permite que pessoas relativamente irrelevantes em termos políticos ganhem destaque midiático. A mídia seguiu o mesmo caminho e cada vez mais foca em si e em ampliar suas próprias histórias ou matérias que são relevantes apenas para seus membros — como muitos dos “escândalos” relacionados ao presidente falando de “fake news” ou reclamando de repórteres que realmente não têm cumprido o seu papel de buscar a verdade, procurando apenas cliques.

Conclusão

É verdade que a sociedade americana sempre foi mais cética sobre instituições estatais que o resto do mundo — não à toa os Estados Unidos são o único país fundado com base em fundamentos liberais. Também é verdade que o alto nível de confiança que o governo americano recebeu do pós 2ª Guerra até os anos 1990 foi algo realmente atípico para o país e para o que deveria ser o nível correto de fiscalização social da burocracia estatal.

Mas, de novo, o sentimento acrítico de que tudo é errado e visa “nos prejudicar” é tão ruim e conspiratório quanto o sentimento de que “o governo está na Terra para criar paz entre humanos”. E, entre bons feitos e mal feitos, a presidência de Donald Trump prejudicou a vida dos americanos ao levar o país para esse caminho.

Davi Lyra Leite é doutor em Engenharia Biomédica pela Universidade do Sul da Califórnia, pesquisador do Instituto Mercado Popular e especialista em políticas públicas de saúde. É residente dos Estados Unidos desde 2012.

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Por | 2020-09-22T10:42:04-03:00 04/09/2020|Eleições americanas, Política|Comentários desativados em Os pontos mais “feios” do governo Donald Trump