O que aprendi em minha viagem à Venezuela em 38 fotos

Em décadas passadas, a Venezuela tinha muito pelo que se orgulhar. O país sul-americano possuía o 4º maior PIB per capita do mundo por volta dos anos 1950. Riquezas naturais, como o petróleo, davam ao país uma grande vantagem competitiva, com grande potencial de desenvolvimento.

Ao longo dos anos, conforme foi rumando em direção ao socialismo e sendo conduzida por líderes autoritários, que desvirtuaram as instituições, o país transformou-se em uma das piores ditaduras do mundo moderno. 

No entanto, a Venezuela não é uma exceção: engana-se quem acha que o mundo está livre do socialismo. Há estudos que indicam que, atualmente, mais pessoas vivem em regimes autodeclarados socialistas do que em 1989, antes da Queda do Muro de Berlim.

Em meio à pobreza, que já atinge cerca de 96% de sua população, resolvi registrar o que acontece sob o regime socialista da Venezuela durante uma viagem ao final de 2018. Lá, vi de perto os efeitos nefastos de políticas altamente intervencionistas, supressão de liberdades, condutas econômicas ineficientes, corrupção, aparelhamento e violência estatal.

Durante os dias em que fiquei no país, hospedado em um antigo hotel, pude tirar fotos raramente encontradas na internet mundo afora e analisar pontos concretos da situação venezuelana.

De início, a dificuldade para achar um voo

Antes de tudo, a missão já começou em achar um voo em direção a um dos regimes mais fechados do mundo. Depois de um longo período procurando, a única opção que encontrei saía de Manaus. Vale lembrar que o Itamaraty não recomenda viagens ao país “que não sejam essenciais”.

A Avior Airline, que realiza o voo para o território venezuelano, e é a única companhia que opera viagens para a Ilha de Margarita, lugar turístico para onde decidi ir.

Totalidade das pessoas que viajariam com Gabriel na ligação Manaus-Caracas.

No voo, era possível observar aproximadamente 25 pessoas em um avião com capacidade para 100 pessoas. Com a aeronave bastante degradada, eu já havia recebido os primeiros indicadores da experiência atípica em que estava me inserindo.

Voo vazio. Quem é louco de ir para a Venezuela de Maduro?

O culto à personalidade dos ditadores

Chegando à Venezuela, já pude observar o modus operandi das autoridades governamentais em moldar o pensamento de seus cidadãos. Para doutriná-los em prol do regime, é estabelecido um ideário nacional de subserviência aos seus líderes.

Em diversos espaços do aeroporto, o que não faltava eram fotos dos líderes socialistas Nicolás Maduro e Hugo Chávez, agradecendo ao socialismo bolivariano por tudo o que havia por ali.

Em geral, as imagens expõem um culto bem personalista, ligado a um líder e suas supostas virtudes, não somente ao estado. Getúlio Vargas acharia uma boa ideia.

Hugo Chávez, o líder eterno e sábio, segundo o culto à personalidade, que começou desde o aeroporto.
Hugo Chávez, o leal.
Socialismo e liberdade?
Hugo Chávez e a honra de servir ao povo venezuelano.
Devem ter pegado o alfabeto e listado todos os adjetivos positivos possíveis.
Chávez na entrevista de emprego disse que o problema era ser humilde demais.
Faltou taxista
Cansei, vocês já entenderam, né?

Assim, o louvor ao regime socialista continua por todos os cantos do aeroporto:

E, nas ruas, também observa-se a divulgação e o culto ao partido do governo, o PSUV, de Nicolás Maduro.

A perseguição política na Venezuela

São muitos os relatos e as evidências de uso violento das forças estatais para reprimir protestos e opositores contra o regime venezuelano.

De acordo com a ONG Foro Penal, em poucos meses de 2019 o país teve mais de 2 mil prisões políticas.

Em uma parede do aeroporto, exibições de cidadãos procurados pelo regime por afronta ao governo.

Burocracia por toda a parte 

No Brasil, nos assustamos com a alta burocracia a que a maioria dos processos do dia a dia são submetidos por imposições estatais. Se nosso país decepciona ao figurar na 124ª colocação no Ranking Doing Business, que avalia a facilidade de se fazer negócios em relação aos demais países, e na 144ª colocação em liberdade econômica, de acordo com o Índice da Heritage Foundation, a situação venezuelana é ainda pior.

A Venezuela está na antepenúltima posição do ranking Doing Business, em 188º lugar, na frente apenas de Eritréia e Somália. Em relação à Liberdade Econômica, também é um dos últimos, ficando na 179º colocação, apenas na frente de outro regime socialista: a Coreia do Norte.

Nesse sentido, a foto abaixo explica um pouco isso:

Alvarás expostos 

Em suma, a alta regulamentação na Venezuela pode ser apontada como um dos vários fatores que barram seu crescimento.

Hotel parado no tempo

Chegando ao hotel, em que estavam hospedadas outras quatro ou cinco famílias aproximadamente, pude evidenciar o contraste entre a antiga bonança venezuelana e os dias atuais, marcados pela degradação de capital no país.

Hotel estava com ocupação bem abaixo de sua capacidade.

A estrutura do estabelecimento remete aos períodos prósperos da Venezuela, até a década de 1990. A partir de 1997, com a tomada do poder por Hugo Chávez e a instauração de diversas medidas degradantes, a decadência se instaurou.

O hotel, por sua vez, foi pago por um valor que, com a moeda do Brasil, poderiam ser pagas inúmeras diárias.

Para prestar reclamações acerca de serviços mal prestados durante a hospedagem, o envio deveria ser feito em um livro cujo destinatário seria o Ministério do Poder e Turismo.

Livro de sugestões e reclamações ao Ministério venezuelano.

Ao longo dos anos, grande parte dos hotéis venezuelanos foram nacionalizados e estatizados. Já imaginou?

Em contraponto à realidade, o site do Ministério do Poder e Turismo apresenta propagandas sobre como ‘’a Venezuela mostra seu potencial turístico em feira de Havana’’. Isto é, tudo gira entorno somente de seu bloco e de seus (pouco) aliados.

O mercado do dia a dia em seu mais puro modelo socialista

É de assustar o estado e o funcionamento dos mercados de lá, assim como as condições a que são submetidas a população local.

No país, existem dois tipos de mercado: os que tem que seguir os preços tabelados – que são os maiores do ramo – e os que podem praticar o chamado ‘’câmbio negro’’, com preços livres. Nesse segundo modo de sistema, no qual o mercado tem preços liberados, não há tanta escassez como no outro.

Contudo, o público alvo, por sua vez, são os turistas, que usufruem de dólar – com preço internacional – para fazer suas compras. Enquanto isso, nos mercados tabelados, faltam produtos para a população.

Supermercado que fui na Venezuela.
Prateleiras vazias são comuns.
Em tabelas, a regulação dos preços que cada produto deve ter.
É estabelecida até a margem de lucro, dada como “ganância”, dos vendedores.
Nos estabelecimentos, amostras de autorização que se devem ter para reajustar os preços.

Cada pedido de autorização demora cerca de 30 dias para se ter resposta das autoridades. Até lá, o preço geralmente já mudou de valor. O funcionamento é inviável.

Devido à ineficiência dos serviços, as filas dentro e fora dos supermercados também são comuns.

Às pessoas que ficam na espera na fila do mercado, dá-se até um nome: bachaqueros.
Onde há comida, há forças policiais.

O controle de comida é feito pela Polícia Nacional Bolivariana, que orienta a fila e seleciona quem pode comprar ou não. Faz-se uso de um carnê, chamado ‘’Carnê La Pátria’’, que é uma forma do governo controlar o consumo de cada um.

O mercado também possui propagandas do governo, e a regulamentação reina nesse setor. É uma aula do que não fazer com um país, e uma situação lamentável de se presenciar.

Os valores absurdos da moeda venezuelana

A moeda do país e sua desvalorização chama muito a atenção. Em 2020, estima-se que a inflação venezuelana já passou de 1.000%. Na época de minha viagem, o estado monetário da região já estava fora de controle há muitos anos.

Assim, pude observar, em vários produtos, o valor de cada objeto. Embora a precificação fosse difícil de entender, foi possível observar os números altos em questão. 

Isso ai tudo era igual a 15 dólares em 2018.

Por exemplo, 1.800 bolívares venezuelanos, que equivalem a 180 milhões de bolívares fortes, correspondiam a um salário mínimo, ou, então, 15 dólares.

Um azeite de oliva, por exemplo, custava à época 338 milhões de bolívares fortes, ou 2 salários (30 dólares).

O costume às filas

Não é só no mercado que a população venezuelana precisa encarar filas extensas diariamente.

Pontos de ônibus com superlotação.

Um sábado à noite vazio

Pude presenciar o Hard Rock Café, em um Shopping da Ilha, vazio em um sábado a noite: um dos vários retratos da infelicidade de viver em lugares assim.

A loja Victoria’s Secret, famosa ao redor do mundo inteiro, também foi vítima do regime: estantes vazias e nenhum movimento.

Mais exemplos de estatização na Venezuela

Na Venezuela, até o cinema tem intervenção total do estado. 

A imagem abaixo traz uma carta, indicando que tudo é controlado pelo Conselho Nacional de Cinema Popular, e passado em lugares como o Centro Nacional Autônomo de Cinematografia.

O autoritarismo escancarado

Em uma delegacia da Guarda Nacional Bolivariana, há cartazes com os dizeres: “Aqui não se fala mal de Chávez”.

O culto ao “líder”.
O aspecto revolucionário é presente em diversos órgãos de estado.

Meu retorno com chave de ouro

Na volta da viagem, um avião com máquinas de despressurização defeituosas representavam bem a precariedade da trajetória inteira pela qual eu havia passado.

Não foi exagero dizer que tive medo de morrer nessa hora.

O caminho da servidão

Por fim, minha experiência na Venezuela foi uma grande oportunidade de ver com meus próprios olhos o destino ao qual o país foi levado em decorrência de seu sistema adotado.

Como Friedrich Hayek indicava em seu livro de sucesso, O Caminho da Servidão, o regime socialista e centralizador venezuelano não escapou da pobreza e do autoritarismo.

O que acontece na Venezuela até hoje, sob as mãos de Nicolás Maduro, é uma grande lição sobre como as nações fracassam ao impedirem a geração de riqueza, o desenvolvimento dos indivíduos, a liberdade e segurança das instituições.

, , , , , ,

Gabriel Cesar de Andrade

Por:

Graduando em Direito na Universidade Federal de Santa Catarina, seminarista do Mises Institute (Alabama) e da Fundação Vítimas do Comunismo (Washington).

Relacionados

8 setores que Chavez nacionalizou na Venezuela

Chávez nacionalizou na Venezuela muito mais do que o setor petrolífero: esta é uma lista de 8 setores que sofreram estatização e as suas conseqüências.

, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

BitPreço
Settee