Expansão da OTAN: EUA traiu a Rússia?

Entre as narrativas russas para a invasão da Ucrânia está a frequente afirmação de que Vladimir Putin afirma com frequência que, após a queda do Muro de Berlim, os EUA prometeram aos russos que não expandiriam a OTAN para além da Alemanha Oriental. Os EUA costumam dizer que nunca fizeram tal promessa. Quem está certo?

As alegações de Vladmir Putin

O presidente russo costuma falar do episódio para argumentar que a atual crise na Ucrânia é culpa dos Estados Unidos, os quais não honraram sua promessa e acabaram se metendo na esfera de influência da Rússia — que agora se vê obrigada a retificar uma injustiça geopolítica.

Afinal, Putin (e muitos outros líderes) sabem que nada mobiliza pessoas mais do que um sentimento de traição, uma injustiça histórica contra o próprio povo. Mas, afinal, a interpretação histórica do presidente russo tem fundamento?

A análise de Mary E. Sarotte

O melhor livro sobre o tema é “Nem uma polegada: América, Rússia e a criação do impasse pós-Guerra Fria”, da historiadora premiada Mary E. Sarotte. “Nem uma polegada” se refere à suposta promessa feita pelos EUA de não expandir a OTAN.

A professora Sarotte leu milhares de anotações feitas por diplomatas na época, conduziu entrevistas de história oral com tomadores de decisão de todos os lados e passou meses lendo telegramas recentemente liberados.

Ela escreve que, em 1990, o Secretário de Estado dos EUA, James Baker, perguntou a Mikhail Gorbachev, informalmente, se aceitaria a reunificação alemã caso os EUA fizessem a promessa de não expandir a OTAN para além da Alemanha. Gorbachev disse q seria uma ideia interessante.

Quando voltou para Washington, Baker, que tinha dado a entender que os EUA estariam, em princípio, dispostos a não expandir a OTAN, foi desautorizado pelo presidente Bush, o qual preferiu manter todas as opções se houvesse necessidade.

Em 1990, Hans-Dietrich Genscher, chanceler da Alemanha, ciente da importância do aval russo p/ a reunificação (efetivada em outubro), fez uma série de discursos afirmando que a OTAN não se expandiria. Ele tb foi desautorizado por Helmut Kohl, o qual percebera a fraqueza russa.

O Tratado sobre a Regulamentação Definitiva referente à Alemanha (conhecido como Tratado Dois-Mais-Quatro), celebrado em 12/9/1990, incluiu a proibição à presença de forças estrangeiras no território da antiga Alemanha Oriental, mas não menciona a OTAN https://treaties.un.org/doc/Publication/UNTS/Volume%201696/volume-1696-I-29226-English.pdf.

A postura de Bill Clinton

O então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, inicialmente estava cauteloso em relação à expansão da OTAN, mas mudou de ideia por causa de três fatores:

1) com a Guerra da Chechênia em 1994, países do Leste Europeu, como Polônia e Hungria, ficaram com medo e pediram para entrar na OTAN assim que possível (entraram em 1999);

2) Em 1994, os Republicanos ganharam os midterms, chamaram Clinton de fraco e o pressionaram para acelerar a expansão da OTAN;

3) A Rússia, fragilizada, passou por momento caótico e ñ conseguiu resistir à expansão. Yeltsin, lutando contra o alcoolismo, virou símbolo do declínio russo.

Na Cúpula de Helsinki em 1997, Clinton ofereceu investimentos de US$ 4 bilhões na Rússia e disse que convidaria os russos para integrar a Organização Mundial do Comércio (OMC) se Yeltsin aceitasse a expansão da OTAN — proposta irrecusável para um país em frangalhos.

O presidente polonês Lech Wałęsa lutou incansavelmente para que a Polônia fosse admitida. Logo dps da adesão, o chanceler Geremek expressou sua gratidão aos EUA. Ele disse que a ampliação da OTAN foi “o evento mais importante que aconteceu na Polônia desde o início do cristianismo”.

Considerações finais

Quem, então, está certo? Sarotte diz que a resposta não é tão simples. A promessa de não-expansão nunca foi feita por escrito. A Rússia até pode alegar que os americanos deram a entender que não expandiriam a OTAN, mas os EUA não se comprometeram oficialmente.

Ao mesmo tempo, Sarrote também diz que os EUA não foram magnânimos no momento da vitória e sugere que Clinton se aproveitou, talvez excessivamente, da fraqueza e disposição russa em basicamente aceitar qualquer coisa desde que Washington desse ajuda econômica a Moscou.

Este texto é uma adaptação de uma thread de Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV em São Paulo. Autor de ‘Post-Western World’/ ‘O Mundo Pós-Ocidental’ e colunista AQ e The New Statesman. Você pode seguí-lo no Twitter, onde ele faz threads como esta.

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