ESG: o que faz sentido e o que não levar a sério?

Desde o fim do século XX até os dias de hoje, é notória uma grande mudança que tem ocorrido em relação à percepção das pessoas acerca do papel das empresas e de suas responsabilidades. Como consequência, pode ser vista uma grande transformação nas práticas de companhias, fato refletido até em suas campanhas de marketing, que, muitas vezes, até esquecem do produto e focam no quão gentil é a empresa.

O resultado dessas pressões foi o surgimento do modelo ESG de governança. Abaixo, discutirei o (E de Environmental; S de Social; G de Corporate Governance), falando um pouco sobre cada aspecto do ESG, suas causas e suas consequências.

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E de Environmental

Na tradução para o português, Environmental significa “ambiental”. Portanto, na sigla, a letra E serve para indicar as práticas envolvendo a proteção e preservação do meio ambiente.

Ambientalismo sobre a óptica empresarial

Um grande erro seria acreditar que as práticas ambientais são opostas às necessidades e desejos das empresas. Afinal, fato é que todas as companhias – sem exceção – dependem de recursos naturais direto ou indiretamente para seu sucesso. Desse modo, as tentativas de preservar, reutilizar e repor recursos naturais que são, por natureza, escassos vão de encontro com o que as empresas precisam, até certo ponto.

Esse fato é corroborado pela crescente atuação consumidora, acionária e creditícia. Como descreveu brilhantemente Henry Ford (e também Ludwig von Mises), em última instância, o controle da empresa recai sobre os consumidores. Isso porque, o objetivo empresarial é vender seu produto ou serviço e, para tanto, deve atender às exigências da sua base consumidora. Por conseguinte, caso esse grupo deseje – como tem desejado – que as companhias realizem concessões pelo meio ambiente, e isso seja refletido na atitude de priorizar mercadorias das empresas que atendem a essas demandas, o mundo empresarial não apresenta outra saída senão obedecer aos desejos do consumidor.

O mesmo pode ser dito sobre as bases acionárias das empresas e sobre os credores. Com cada vez mais frequência, o mercado financeiro tem beneficiado aquelas companhias que apresentam boas práticas ambientais. Esse fenômeno pode ser visto no crescente número de Fundos de Ações que foquem no ESG e na emissão dos chamados green bonds, títulos de dívida que, por estarem associados a uma empresa com baixo impacto ambiental, apresentam menores custos. Em outras palavras, práticas ambientais positivas não somente podem aumentar o valor de mercado de uma empresa, como também reduzir seu custo de capital.

Essas circunstâncias refletem a real essência do capitalismo e, especialmente, do liberalismo econômico. Já dizia Adam Smith que não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que devemos esperar nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos próprios interesses. Ou seja, mudanças positivas nas atitudes empresariais contra o meio ambiente não devem ser esperadas por livre e espontânea vontade das empresas. Afinal, elas querem o melhor para elas. Logo, boas práticas somente ocorrerão caso consumidores, acionistas e credores consigam alinhar os interesses empresariais com as boas práticas. Essa é a virtude do egoísmo: na tentativa de obter o melhor para si, você realiza o melhor para o outro. 

Um outro lado

Obviamente, no entanto, muitas atividades empresariais implicam, necessariamente, um alto dano ao meio ambiente. Esse é o caso, a título de exemplo, das empresas do setor petrolífero, relacionadas diretamente à emissão de gás carbônico e metano, ou do setor da mineração. Isso é especialmente comum na chamada “velha economia”, que, predominantemente, se estabelece nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, como o próprio Brasil.

A prática ambiental, em diversos casos, mas principalmente nos países em que a economia não se maturou, é vista como uma âncora que segura o desenvolvimento da nação. Essa situação piora pelo fato de as atuais potências mundiais terem atingido seu posto de destaque justamente pelo desenvolvimento dessas áreas no passado. Assim, as pressões realizadas pela Europa ou pelos Estados Unidos são mal-recebidas.

Hipocrisias e Falácias

Em recente palestra promovida pelo IFL São Paulo (Instituto Formação de Líderes), Aswath Damodaran (considerado o pai do valuation) e Florian Bartunek (fundador da gestora Constellation) realizaram uma interessante discussão sobre as atitudes ambientais das empresas. De forma certeira, o renomado professor Damodaran trouxe algumas de suas preocupações acerca das companhias atuais.

Aswath Damodaran, o “Papa do Valuation” - Suno

Como ele estabeleceu, o jogo agora envolve não somente ter um bom produto e um bom serviço, mas também de ter uma boa aparência. O problema, entretanto, é que ter um bom visual não necessariamente significa que algo está correto por dentro. Ou seja, não é porque alguma empresa faz propagandas das suas grandes ações que realmente ela possui um bom impacto no meio em que está.

Isso é especialmente perigoso, pois as práticas ESG (mas em especial a pauta ambiental) pode tornar-se mais um jogo de marketing. Outro perigo é quando há uma narrativa falsa, uma vez que atualmente existem empresas com alto impacto ambiental recebendo selos de aprovação ESG.

Por isso, é necessário fugir do jogo das aparências e realmente entender quais empresas cumprem seu papel. O motivo para tal é que, caso os indivíduos esqueçam da sua influência nas práticas empresariais, os esforços para a melhora da situação ambiental serão em vão.

S de Social

Como o próprio nome evidencia, essa parte da sigla ESG relaciona-se com a parte social das empresas. Em outras palavras, de que maneira uma companhia colabora para uma comunidade e seus indivíduos.

Papel das Empresas em uma Sociedade

Primeiramente, é importante salientar que a nova ideia de Social sobre as companhias entra em conflito com as antigas definições sobre a contribuição de uma empresa para os indivíduos.

O motivo para tal é que a visão clássica é que as atividades empresariais são, por si só, programas sociais. Afinal, a Microsoft, quando produz computadores e softwares que permitem que bilhões de pessoas trabalhem e sejam eficientes, já está realizando uma enorme contribuição para a população.

No entanto, a nova definição de Social, trazida pelo movimento ESG, pede por atuações fora da área natural da empresa. Um exemplo disso é a atuação da Ferbasa, empresa brasileira de mineração, que sustenta a Fundação José Carvalho, a qual oferece educação a diversas crianças carentes. Essa demanda vem sob a visão de que, em especial empresas mais maduras, que apresentam já uma boa geração de caixa e que não apresentam muitas possibilidades de alocação de capital, possam contribuir de outras formas com a comunidade ao invés de distribuir proventos.

Além disso, Social também representa, de certa forma, a relação da empresa com seus colaboradores. Assim, torna-se responsabilidade da empresa ser amigável a seus empregadores, fornecedores e clientes.

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Lucro: qual seu significado?

O lucro, como pode-se imaginar, é uma consequência de (i) eficiência operacional e (ii) preço de venda do serviço/produto. Assim, o lucro é, como descreve Friedrich von Hayek, um indicador do mercado se uma determinada atividade deveria existir. Em outras palavras, a razão para que uma atividade não consiga gerar lucro indica que referida tarefa não representa a melhor alocação de recursos da economia. É sob essa forma que a “mão invisível” do mercado consegue gerar a melhor geração de riqueza.

O lucro, por sua vez, representa a recompensa ao dono de um negócio (que assumiu riscos, obteve a ideia da empresa e a colocou em prática) por realizar uma boa atividade. Ou seja, o lucro é, mais do que tudo, um indicador de quanto uma companhia é essencial para a sobrevivência de uma sociedade.

Não somente isso como, quando as empresas querem gerar maior eficiência operacional, elas geram empregos e educam essas pessoas (prática comum com o crescimento do toyotismo). Portanto, a empresa, por natureza, realiza outros papéis sociais ao fornecer trabalho às pessoas e investir em suas qualificações. Um exemplo disso é a Tupy, empresa brasileira de bens industriais, que tem que investir na educação de seus funcionários para que consigam operar máquinas e realizar projetos.

Por esses motivos, o viés social do ESG pode enganar e mascarar a real contribuição das empresas para a comunidade, uma vez que se associa, especialmente no meio político, o lucro a uma coisa ruim. Em consequência, o maior benefício que uma companhia pode gerar à sociedade é demonificado e desincentivado.

Além disso, a noção de que as companhias que geram excedentes deveriam reinvestir esse montante em programas sociais pode ser muito perigoso. Primeiro porque aquela não é a área de expertise da empresa, logo é provável que o investimento não seja o mais eficiente o possível. Segundo, e o mais importante, porque essa mesma empresa deixou de direcionar dinheiro para pesquisas em sua área que, potencialmente, diminuiriam seus custos, abaixando os preços dos seus serviços e produtos, ou levariam a uma inovação que traria diversas novas soluções. De qualquer forma, é um benefício social sendo trocado por outro.

Isso não significa que o Social não serve para nada. A intenção é mostrar que não há almoço grátis e que, no fim, pode-se estar trocando uma coisa por outra. Não obstante, é minha opinião que até certa medida as práticas sociais fora sua atividade recorrente por parte das companhias são boas atitudes que devem ser incentivadas.

Environmental x Social

Voltemos ao início. Como afirmei, a atividade mais essencial de uma empresa (e, por conseguinte, a mais contribuinte à sociedade) é sua atuação de natureza. Isso é representado pelo lucro e ganhos auferidos pela companhia.

Porém, fato é que muitas empresas consideradas como grandes poluentes conseguem grandes lucros. Desse modo, assumindo que isso ocorra sem nenhuma ajuda governamental, é viável assumir que a atividade da companhia é indispensável à sociedade. Isso, por sua vez, gera um conflito, pois as funções sociais da companhia entram em conflito com as demandas ambientais da população.

Essa situação é notória quando observamos talvez a mais importante commodity do planeta: o petróleo. Na última década, houve uma grande luta contra as empresas petrolíferas devido à emissão de gás carbônico. No entanto, é evidente que várias partes do mundo simplesmente não ficariam de pé sem a atividade econômica, seja porque sua matriz energética é dependente nele, seja porque sua riqueza vem da exploração desse produto. Como consequência, nesse caso, quando defende-se causas ambientais, ao mesmo tempo, ataca-se causas sociais.

Esse fenômeno está se tornando cada vez mais evidente. Alguns exemplos mais comuns são as constantes discussões sobre a Amazônia (desenvolvimento x preservação), a luta dos EUA contra a produção de petróleo (que elevou o preço da commodity e de derivados) ou a radical postura alemã quanto sua matriz energética (que aumentou o custo da energia em mais de 30%).

G de Corporate Governance

Talvez o menos conhecido aspecto do ESG, corporate governance é um tremendo avanço no campo empresarial, principalmente em uma época que, cada vez mais, as empresas tornam-se públicas como meio de financiamento. Em poucas palavras, o G engloba as boas práticas de governança em uma companhia.

IPO e o Mercado de Ações

O IPO (Initial Public Offering) é o processo pelo o qual uma companhia abre seu capital na bolsa de valores e, para tal, vende parte de seu capital social. Infelizmente, no entanto, fato é que, no Brasil atual, a visão acerca do mercado de ações é muito precária.

É comum escutarmos que o mercado financeiro não passa de um meio para especulação. Segundo essa visão, todo capital destinado a esse mercado não serve a produtividade e, assim, torna-se somente mais uma maneira das classes com maior condições financeiras ampliarem seu patrimônio sem a devida contribuição para a sociedade.

Essa, por sua vez, é uma percepção totalmente equivocada. Na realidade, o papel dos mercados de ações é muito maior do que foi descrito. Tudo começa no IPO, afinal, é por meio dele que as empresas conseguem adquirir seu financiamento sem contrair dívidas. Isso porque, nesse caso, a empresa dispõe parte do seu capital próprio e, dessa forma, não precisa recorrer a capital de terceiros. Como consequência, não somente o risco do negócio diminui, como também possibilita que outras pessoas se beneficiem do crescimento da companhia. Além disso, em última instância, o mercado acionário é também um programa de incentivos: as boas empresas são recompensadas, as ruins, prejudicadas. A título de exemplo, companhias que apresentem responsabilidade ambiental e social, além de adquirirem bons lucros e geração de caixa, apresentam um maior market cap do que aquelas que não dispõem tais características. Assim, a boa governança é recompensada pelo mercado, incentivando tais atitudes.

É nesse cenário que o corporate governance entra. No passado, grande parte das empresas que abriam seu capital tentavam se esconder do mercado, ou seja, ignoravam seus investidores minoritários nas tomadas de decisão. Não somente isso, mas também não dispunham de nenhuma transparência quanto a seus projetos e aos números nas demonstrações financeiras, às vezes os falsificando.

Desse modo, a comunidade investidora organizou-se junto às donas das bolsas (Exemplo: B3, Nasdaq, etc) para montar padrões de transparência para as companhias. Surgiram, logo, níveis de governança, como o Novo Mercado, Nível I, Nível II, que dão mais confiança para o investidor quanto à companhia. Ainda assim, alguns casos de fraude ocorreram, como a recente situação da IRB Brasil. De qualquer forma, no entanto, isso mostra a capacidade de, espontaneamente, o mercado se organizar para garantir a segurança dos investidores sem a necessidade do governo.

Tomada de decisão

Dentro das práticas de corporate governance, está incluso uma crescente responsabilidade pelos acionistas minoritários. Nesse sentido, cada vez mais as empresas têm adotado conselhos administrativos, executivos, financeiros e assim em diante.

Referidas práticas são muito importantes, especialmente no caso de conselheiros independentes. A realidade é que muitas empresas chegam ao mercado como companhias familiares e, portanto, pode haver um conflito de interesses entre os controladores e os minoritários. Nesse viés, os conselhos tornam muito mais difíceis práticas contra a base minoritária, além de possibilitar uma melhor coordenação das atividades da empresa. Isso, entretanto, também vem com seus problemas, uma vez que é inevitável a criação de certas “burocracias”, que acabam por retardar certas tomadas de decisões.

As empresas sem dono

Quando pensamos em uma companhia, geralmente entende-se como alguma instituição que, de qualquer forma, é controlada por indivíduo que detém participação majoritária no negócio. Não obstante, cada vez mais percebe-se a formação de corporativas, isto é, companhias que não apresentam nenhum sócio majoritário.

Isso é especialmente comum quando a empresa atinge um estágio mais maduro de seu desenvolvimento. Nesse caso, é possível que o criador ou antigo controlador da empresa já tenha alienado grande parte de sua posição para fins pessoais ou para diversificação de seu patrimônio. O resultado é que, com uma empresa de capitalização muito grande, não existe nenhum investidor disposto a adquirir uma participação majoritária. Por conseguinte, a maior parte das ações da empresa ficam em free float, somente com participações minoritárias. Esse fenômeno, então, forma as corporativas, empresas sem dono.

Obviamente, os donos existem e são simplesmente os acionistas minoritários, mas o ponto é que ninguém possui participação suficiente para mandar e desmandar nas atividades empresariais. Esse é a situação da Vale S.A. (VALE3), companhia com maior capitalização de mercado no Brasil. Nesse caso, o corporate governance torna-se ainda mais vital, pois, em essência, os executivos da empresa não respondem a uma pessoa diretamente, assim podendo explorar a empresa, obtendo remunerações absurdamente altas, por exemplo. Portanto, o sistema dos conselhos mostra-se extremamente importante para representar as vontades dos minoritários e manter uma relação saudável da empresa com seus acionistas, alinhando seus interesses.

Novamente, isso mostra uma adaptação do capitalismo de livre mercado que permite a democratização da participação nas empresas. Ademais, mostra possibilidade de adaptação dos mercados para o alinhamento dos interesses de cada segmento da sociedade.

Conclusão sobre o ESG

O modelo de governança ESG sem dúvida expressa um grande avanço para o mundo empresarial como um todo. Por meio de seus lemas – meio ambiente, social e governança corporativa -, pode resultar em um impacto positivo na sociedade, mostrando, assim, a capacidade do livre mercado de adaptar-se e aplicar suas demandas. Entretanto, algumas pautas ESG devem ser olhadas com cuidado para não se tornarem mero marketing e populismo, sob pena de prejudicarem as próprias empresas em suas tomadas de decisão.

Alexandre Barsam Junqueira é estudante

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