Entendendo melhor como funciona a educação domiciliar

//Entendendo melhor como funciona a educação domiciliar

Entendendo melhor como funciona a educação domiciliar

Ao longo dos anos a ideia de direito à educação se tornou obrigatoriedade de escolarização. O desejo de levar a educação aos jovens e crianças de todas as classes sociais a fim de propiciar-lhes um futuro melhor se transformou em dever de matriculá-los e fazê-los frequentar a escola.

O atual arranjo educacional possui grandes problemas, como altos índices de analfabetismo funcional, infraestrutura precária, professores mal remunerados e desmotivados, doutrinação político-partidária na sala de aula, além de insegurança, haja vista que boa parte dos estudantes já sofreram agressões nas escolas, inclusive partindo de professores.

Pensando nisso — e em diversas outras razões — muitos pais optam por educar seus filhos em casa, a despeito da nebulosidade jurídica existente sobre a questão no Brasil. Segundo o mapeamento feito em 2016 pela Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED) cerca de 3.201 famílias praticavam essa modalidade de ensino até aquele ano.

Contudo, como a modalidade de ensino, conhecida como homeschooling, é pouco conhecida no Brasil, há muitos mitos que permeiam o debate público sobre. Esse texto busca elucidar um pouco sobre.

Educação domiciliar como alternativa

Uma das principais preocupações acerca da permissão da educação domiciliar é sobre o desenvolvimento e resultados dos homeschoolers. De acordo com a Home School Legal Defense Association (HSLDA), no entanto, em provas realizadas com estudantes de escolas e estudantes educados em casa, o segundo grupo obteve de 15 a 30% a mais em sua nota final[.

Além do maior grau de aprendizado, outro benefício da educação domiciliar é a exposição das crianças a experiências únicas. Famílias costumam citar como componente curricular passeios para além dos muros de casa, aprendendo sobre ciência, arte, história no mundo real, e não apenas nos livros, o que acaba gerando uma melhor absorção de conteúdos.

Além do desenvolvimento do autodidatismo e da produção intelectual, a educação domiciliar oferece a adequação da educação às escolhas morais e filosóficas da família. O último ponto é uma das principais motivações para o crescimento da educação domiciliar pelo mundo, ao passo que também é uma das motivações para críticas. De fato, sempre haverá o perigo de uma educação domiciliar voltada a visões de mundo que não respeitem o outro. Mas precisamos lembrar que isso também pode ocorrer na educação escolar tradicional, seja por meio de um professor que transmita para suas aulas seu próprio fanatismo religioso, por meio de uma instituição que opte por trabalhar um currículo radicalmente laico, a ponto de impedir qualquer forma de expressão religiosa dos alunos sob o argumento do respeito aos demais sujeitos ali presentes, ou seja por meio de um currículo nacional comum, de cunho predominantemente marxista, ensinando e fomentando o ódio entre classes, a aversão ao lucro e ao empreendedorismo, e a busca inconsequente por igualdade.

A educação escolar sempre terá uma visão filosófica ou política específica ao instruir os alunos. O ensino jamais será imparcial, pois tanto as escolas quanto as famílias da educação domiciliar sempre propagarão alguma visão de mundo, a única diferença nessa questão é: quem escolherá a visão a ser transmitida? Se há perigo em permitir que os pais possam escolher quais ideias e valores serão transmitidos aos filhos, há menos perigo em permitir que um professor desconhecido ou o Estado faça essa escolha?

Outro ponto frequentemente questionado é a ideia da impossibilidade de socialização na educação domiciliar. Na realidade, crianças nessa condição fazem inúmeras atividades extracurriculares que oportunizam a socialização, como participação em ligas esportivas, cursos, aulas de música, de línguas estrangeiras, mesas redondas, entre outras, o que acaba as levando a conviver com diferentes faixas etárias, ao contrário das crianças da mesma idade matriculadas nas escolas, cujo trato social tende a ser fluente somente com outras crianças, e não com adultos ou idosos.

Também é comum a formação de cooperativas, nas quais famílias se agrupam para promover aulas e eventos. Nesses lugares, se combinam conteúdos de ensino que independam da faixa etária e possam ser trabalhados em grupo, como história, literatura ou artes, de forma que crianças de idades distintas estudem juntas o mesmo período histórico para, em seguida, receberem tarefas individuais adequadas à idade e às habilidades específicas de cada uma[.

Como se vê, a socialização não necessariamente precisa acontecer no ambiente escolar, afinal, o mundo está cheio de oportunidades para se conviver com o diferente, de forma saudável, inclusive, no que tange à consciência e participação política, as crianças educadas em casa também não costumam ficar em desvantagem. Uma pesquisa empírica realizada por Brian Ray com adultos que cresceram sob esse sistema educacional mostra que eles dão valor ao engajamento cívico e político, pois votam mais vezes do que as médias nacionais, e fazem trabalhos voluntários para organizações não governamentais a uma taxa muito maior[1].

MAIS PODER AOS PAIS, MENOS AO ESTADO

Em muitos casos as famílias contratam tutores especializados para atuarem na educação individualizada das crianças. Também há casos em que um grupo de famílias contrata um tutor para um grupo de crianças, o que acaba tendo um baixo custo financeiro às famílias. Contratar um tutor particular é uma alternativa aos pais que trabalham durante o dia inteiro e não possuem muito tempo para ficar com seus filhos. Mas quando o tempo não é um problema, pais, mães, avós e avôs tendem a assumir a responsabilidade da tutoria educacional. Na verdade, esses são a maioria dos casos.

John Taylor Gatto compartilha suas experiências no livro Dumbing us Down: The Hidden Curriculum of Compulsory Schooling, em que conta como teve que abandonar a ideia de que deveria ser um perito cujo trabalho seria preencher as cabecinhas com seus conhecimentos, e passou a explorar como poderia remover os obstáculos que impedem que o gênio inerente às crianças se desenvolvesse.

Gatto adotou práticas que renderam excelentes frutos para a aprendizagem de sua filha, Jessica. Ele narra que quando ela tinha sete anos leram juntos uma série de livros que tinham como contexto a Guerra Civil Americana, e como protagonista uma pequena escrava chamada Addy, de nove anos de idade. As histórias eram contadas a partir da perspectiva da menina, o que fascinou Jessica, que vivia cheia de perguntas, querendo aprender mais sobre o que eram escravos e quem era Abraham Lincoln. Após pesquisarem juntos a resposta para essas e outras perguntas, os dois cozinharam receitas e costuraram roupas daquele período histórico, além de irem em uma encenação da Guerra Civil que ocorria na cidade naquele momento. E o mais importante, segundo Gatto, os dois se divertiram muito. Em momento algum ele precisou ensinar nada a filha, pois eles sempre estavam aprendendo juntos. Seis anos depois, Jessica ainda se lembrava de tudo o que haviam feito, o que comprova o quão real foi aquele aprendizado[.

Cada família do ensino domiciliar possui seus próprios valores e crenças. E pensando na variedade de bases ideológicas, Ron Paul elaborou um programa didático que vem despertando o interesse de pais norte-americanos com tendências libertárias. No seu programa estão: o ensino do princípio bíblico do autogoverno e responsabilidade pessoal, a economia de livre mercado; estudo detalhado da história da liberdade, bem como dos seus rivais na civilização ocidental; e compreensão da economia da Escola Austríaca. Segundo Paul, ao final desse ciclo curricular a criança deve ser capaz de: falar em público com confiança e desenvoltura; escrever de forma eficaz; operar um site; entender matemática e ciência; saber como começar um negócio em casa; saber defender intelectualmente o sistema de livre mercado; entender a história da civilização ocidental; e entender a Constituição.

Essa é só uma pequena parte de um dos inúmeros programas curriculares existentes voltados aos pais que que decidem tornar-se tutores no ensino domiciliar. A Calvert Education é uma das empresas especializadas em fornecer apoio a essas famílias capacitando-as por meio de kits com materiais lúdicos, manuais de lições passo a passo, livros de literatura, kits científicos e ferramentas online de pesquisa e autoaprendizado.

Conhecendo os benefícios da educação domiciliar, podemos ser seduzidos a fazer a seguinte reflexão: Será que o Estado não poderia ajudar financeiramente as famílias? William A. Estrada, diretor de relações federais da Home School Legal Defense Association (HSLDA), organização sem fins lucrativos que visa defender o direito constitucional dos pais em dirigir a educação de seus filhos, representa os interesses de centenas de pais da educação domiciliar norte-americana, e discorda desse tipo de “política pública”. Para ele, os dólares vindos do governo eventualmente resultarão em algum tipo de regulamentação. Estrada fala que a HSLDA lutou por décadas para garantir que não exista direito federal ao ensino domiciliar, pois o que poderia ser criado por um Congresso amigável poderia ser regulado por um futuro Congresso hostil. Se o financiamento estatal à educação domiciliar se tornar-se um direito inalienável – lê-se: obrigação – provavelmente mais controle estatal virá em seguida, afinal, as famílias gastarão o dinheiro do governo e o Congresso busca proteger os bens públicos, ainda que ao seu próprio modo. Ele afirma ainda que “o espírito de autogoverno no coração do ensino doméstico privado levou a uma vibrante rede social de pequenos grupos e grupos estaduais que dependem uns dos outros, não do governo”[.

A maior divulgação da educação domiciliar fará com que mais famílias no Brasil descubram as possibilidades existentes e atuantes em outros lugares e, futuramente, possam lutar para tê-las aqui. Assim, elas também estarão percebendo o que de mais importante há por trás disso tudo: a existência de vida além do Estado.

Conclusão

Os pais que optam pelo modelo aqui proposto entendem que a escola se tornou ineficaz em instruir as crianças. A educação domiciliar, nesse sentido, surge para retirar do Estado o monopólio das questões educacionais. Fazendo isso, abre-se um mar de possibilidades para as futuras gerações, que crescerão tendo vivenciado o sabor, o cheiro e o toque da liberdade, o que os blindará de qualquer ameaça que queira lhes tirar aquilo que os moldou enquanto seres humanos.

Insistir na escolarização compulsória não é só algo irracional, como também imoral, pois trata-se de um genocídio de almas travestido de boas intenções. Ainda que não queira trazer a educação domiciliar para seus filhos, lutar pela sua divulgação, legalização e popularização é um dever moral daqueles que se dizem defensores da liberdade. E já é hora de fazermos isso.
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[1] RAY, Brian. Home educated and now adults: Their community and civic involvement, views about homeschooling, and other traits. Salem, OR: NHERI Publications, 2004.

Por | 2019-04-05T09:55:33-03:00 05/04/2019|Homeschooling|Comentários desativados em Entendendo melhor como funciona a educação domiciliar