O discurso de Nikita Khrushchov contra Josef Stalin

Um discurso de Nikita Khrushchov, líder da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), alterou toda a história, especialmente como Josef Stalin é visto.

Imagine o seguinte: um político do seu país decide fazer um discurso; após o falatório, um herói nacional passa a ser vilão, o nome de uma importante cidade da nação é alterado e uma onda de questionamentos históricos inunda o debate público.

Distante? Talvez, mas, após a participação de Kruschev no 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), em 1956, foi exatamente o que aconteceu. Stalin, que era visto como um herói por muitos soviéticos, virou inimigo da nação; Stalingrado, uma cidade da URSS cujo nome homenageava Josef, virou Volvogrado e o passado do país, liderado por décadas por Josef Stalin, passou a ser intensamente questionado. 

A herança totalitária de Josef Stalin 

As palavras têm poder? Não sabemos, mas no caso de Nikita Kruschev, ex-primeiro-ministro da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), os vocábulos não só tiveram poder, como alteraram todo o funcionamento de uma nação.
Foto: Stalin – Superinteressante

Após a morte de Joseph Stálin, em 1953, a União Soviética ficou em luto.  

Quando Josef assumiu o poder, por exemplo, a agricultura local ainda era dominada por pequenos proprietários de terras e marcada pela fome e ineficiência. Visando alterar esse cenário, o ditador modernizou o setor e, com muitas dificuldades, após alguns anos conseguiu aumentar a produtividade agrícola da URSS. 

Além da agricultura, a industrialização da URSS era um dos objetivos de Stalin. Em 1928, o ditador deu início a uma série de planos quinquenais, buscando o crescimento econômico de seu país. Com projetos grandiosos, como a construção de canais, represas, ferrovias e a formação de grandes indústrias, a União Soviética conseguiu, em algum nível, crescer.

Todavia, apesar de ser visto como um herói para uma parte da população soviética, Stalin foi responsável por massacres, expurgos e assassinatos, especialmente a partir das chamadas Grandes Purgas de Stalin. Historiadores afirmam que o político fez escolhas que levaram à morte de pelo menos 20 milhões de pessoas – número que pode chegar, dependendo da fonte, a 40 milhões. Estima-se que o ditador assinou de próprio punho a execução de 41 mil indivíduos.

Ainda que totalitário, Josef tinha uma certa popularidade em decorrência do crescimento econômico que havia atingido quando líder (mas sob custo de muito trabalho escravo, cerceamento de liberdades individuais e autoritarismo). Stalin desencadeou, literalmente, os extremos sentimentais, pois era amado por uns e odiado por outros. 

Os últimos anos de vida do então líder soviético foram marcados por grande culto à personalidade, uma vez que, além de seus resultados, a vitória dos soviéticos sobre os nazistas na Segunda Guerra Mundial trouxe grande popularidade.

O corpo de Stalin foi mumificado e posto ao lado do de Vladmir Lenin, uma das estrelas comunistas — que, inclusive, havia sido “chefe” de Stalin durante os primeiros anos da URSS — em um Mausoléu foi construído na Praça Vermelha, em Moscou.

Sucessão de Josef Stalin

Filho de camponeses, Kruschev nasceu numa cidade próxima à Ucrânia. Começou a trabalhar na indústria de mineração em 1909. Ingressou, em meio à realização da Revolução Russa (1917-23), no Partido Bolchevique em 1918. Trabalhou em várias funções políticas, organizando o partido comunista na Ucrânia.
Nikita Khrushchov

Com o fim da era Stalin, formou-se uma disputa interna no partido comunista soviético pela sucessão do ditador. Nikita Kruschev, como era chamado, era um comunista com histórico de liderança no partido, assumindo o cargo para liderar a União Soviética.

Filho de camponeses, Kruschev nasceu numa cidade próxima à Ucrânia. Começou a trabalhar na indústria de mineração em 1909. Ingressou, em meio à realização da Revolução Russa (1917-23), no Partido Bolchevique em 1918. Trabalhou em várias funções políticas, organizando o partido comunista na Ucrânia.

Em 1931 transferiu-se para Moscou e, em 1935, tornou-se primeiro secretário do comitê do partido da cidade de Moscou. No ano de 1938, tornou-se o primeiro secretário da sigla na Ucrânia. Nikita atuou na Segunda Guerra Mundial e também participou das decisões econômicas da ditadura de Stalin, se envolvendo ativamente na planificação agrícola da União Soviética.

Com a morte do então líder, Kruschev tentou e conseguiu, em 1953, chegar ao topo do partido, ocupando o cargo de secretário-geral. Ao assumir, todavia, ele enterrou todas es expectativas. 

O novo secretário-geral iniciou um período conhecido como desestalinização. No ano em que assumiu, 1953, Kruschev declarou os crimes cometidos por Josef quando líder da URSS, concedeu anistia para diversos prisioneiros políticos; anunciou corte de preços; pôs fim ao trabalho forçado nos ‘gulags’, entre várias medidas de liberalização do regime.

Em poucas horas, o herói virou vilão.

Kruschev, uma ruptura histórica 

Os anos de liderança Kruschev foram responsáveis pela ruptura histórica da União Soviética. Conhecido por sua ‘desestalinização’, Nikita fez de tudo para tirar Stalin da mentalidade dos russos. As medidas tomadas contra a herança do ex-líder foram graduais. Os russos foram percebendo, em doses homeopáticas, uma guinada na condução do país.
John F. Kennedy e Nikita Khrushchev, em 1961 

Os anos de liderança Kruschev foram responsáveis pela ruptura histórica da União Soviética. Conhecido por sua ‘desestalinização’, Nikita fez de tudo para tirar Stalin da mentalidade dos russos. As medidas tomadas contra a herança do ex-líder foram graduais. Os russos foram percebendo, em doses homeopáticas, uma guinada na condução do país. Até que, em 1956, tudo mudou. 

No início do ano, o partido comunista soviético convocou o 20° congresso da sigla. O evento, entre outros temas, visava tratar de assuntos internos. Cerca de 1500 pessoas foram convidadas para os 10 dias de cerimônia. Ainda que as reuniões comunistas fossem periódicas e conhecidas, todos os presentes haviam sido informados de que a imprensa não poderia participar. Além disso, de acordo com o partido soviético, nada poderia ser gravado. A iniciativa do partido, segundo historiadores, era manter tudo em segredo.   

No último dia de congresso, na noite de 24 de fevereiro, Nikolai Bulganin, chefe do Conselho de Ministros da União Soviética, subiu ao palco, abriu a sessão e chamou ao microfone o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Nikita Kruschev. 

Nikita Kruschev: ‘Culto da Personalidade e suas Consequências’ 

Durante quatro horas, que foram transcritas em mais de 57 páginas, Kruschev surpreendeu o mundo comunista ao denunciar seu antecessor, Josef Stalin, como um torturador e assassino. Batizado de “O culto à personalidade e suas consequências”, o discurso da então atual liderança soviética criticou a idolatria em torno dos líderes soviéticos, denunciou Stalin e condenou as práticas autoritárias soviéticas de anos anteriores. 

O falatório, em seu início, frisou o perigo no culto à personalidade humana (não só de Stalin). Além de considerar a prática como um absurdo, Kruschev argumentou que a idolatria em torno de Stalin não tinha fundamento algum no pensamento de Karl Marx e Vladimir Lenin (responsáveis pela formação da União Soviética).  

“Camaradas, estamos preocupados com uma questão que tem imensa importância para o Partido agora e para o futuro. O culto da pessoa de Stalin foi gradualmente crescendo, o culto que se transformou em um certo estágio específico a fonte de um todo série de perversões extremamente sério e grave de princípios do Partido, da democracia partidária, da legalidade revolucionária”, afirmou Nikita. 

Kruschev também denunciou Joseph Stalin como um criminoso brutal. De acordo com o secretário, o governo de seu antecessor havia praticado, por meio de uma ditadura totalitária, “medo e terror” sobre os soviéticos. 

Nikita também relatou que, no intuito de conhecer aos crimes de Stalin, havia criado uma comissão para investigar, principalmente, os campos de trabalho forçado, conhecidos como Gulags. 

A comissão, de acordo com Kruschev, concluiu, por exemplo, que dos 139 membros e candidatos do Comitê Central que haviam sido eleitos no 17º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, realizado em 1934, 98 pessoas, ou seja, 70%, foram presas e mortas a tiro. Além disso, de 1.966 delegados que participaram daquele evento, 1.108 pessoas foram presas sob a acusação de crimes antirrevolucionários (uma espécie de “conspiração” contra Stalin). 

“Stalin fez com que nossos cidadãos virassem escravos. O ditador humilhou e perseguiu os oficiais e membros do partido comunista. Mais de uma centena de integrantes da nossa sigla foram assassinados por Josef”, disse. 

A reação ao discurso de Nikita Kruschev

Em decorrência da imagem heroica construída pelos soviéticos sobre Stalin, a recepção do discurso de Nikita foi impactante. Há relatos de casos de infarto e desmaios entre os espectadores enquanto o então secretário-geral discursava, por exemplo.

A plateia, abalada, também ficou sem reação com o que ouviu. As palavras ditas causaram choque em todos os presentes. No dia seguinte, a mídia internacional repercutiu o discurso; pouco tempo depois, o Partido Comunista passou a distribuir cópias do que fora dito. 

Enquanto alguns viam verdade naquilo que Kruschev falara, outros observaram uma tentativa de retirar a culpa e apagar os erros do partido e colocar apenas em Stalin. A polarização aconteceu: houve quem apoiasse o primeiro-ministro e quem decidiu por continuar exaltando o ex-ditador soviético. 

Kruschev e a desestalinização da União Soviética

A partir do discurso de Nikita, a imagem de Stalin começou a ser transformada radicalmente no ideário popular soviético. Além do ataque, o governo Kruschev atuou de outras formas para “desestalinizar” a União Soviética.  

“A traição de Stalin ao legado da União Soviética, o abuso de poder por ele empreendido, a repressão em massa contra cidadãos soviéticos honestos tornam inaceitável manter o caixão que contém seu corpo no Mausoléu de Lenin“, afirmou um comunicado do governo soviético na época.

Ainda no ano de 1956, o congresso pediu “para remover total e inteiramente o culto do indivíduo, estranho ao marxismo-leninismo… em todos os aspectos do partido, da atividade governamental e ideológica”. 

Cidades mudaram de nome, como Stalingrado (hoje Volgogrado), imagens foram retiradas e, entre tantas mudanças, o corpo do líder soviético foi removido do Mausoléu de Lenin.

O culto à Stalin ainda vive 

Foto: Stalin – Construindo História Hoje

Apagar várias décadas da história de um país é uma tarefa difícil (quiçá impossível). No caso de Nikita Kruschev, mesmo que relativamente “bem sucedida”, sua tentativa, atualmente, encontra resistência.  

Uma pesquisa feita pela BBC em 2019 revelou que, atualmente, 51% dos russos gostam de Stalin. O número aumenta quando questionados sobre o papel do soviético na história russa — 70% alega que a atuação do líder foi “positiva”. Entretanto, 47% dos jovens disseram não saber sobre os expurgos cometidos pelo tirano, políticas que assassinaram e encarceraram milhares de pessoas. 

Muitos dizem que respeitam Stalin por ter derrotado os nazistas durante a 2ª Guerra Mundial. Segundo a pesquisa, Stalin vem retomando sua popularidade em decorrência da nova política educacional do governo do presidente Vladimir Putin. Os livros didáticos destacam o papel dos soviéticos na 2ª Guerra Mundial, deixando de lado as atrocidades cometidas pelo regime. 

De acordo com o levantamento da BBC, para especialistas, a imagem de um “Stalin todo-poderoso” continua a ser bastante difundida, uma vez que a Rússia quer se projetar como uma superpotência novamente. 

Esquecer jamais

Mesmo que uma parte dos russos ainda lembre de Josef Stalin com bons olhos, não podemos esquecer dos males que o comunista causou. Foram milhões de vidas ceifadas, propriedades destruídas e liberdades cerceadas. 

Jamais esqueçamos do ditador que foi Josef Stalin. 

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Pedro Costa

Por:

Estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Participou da fundação da CNN no Brasil. Atualmente, direto da capital federal, cobre política e economia em O Brasilianista e na Arko Advice.

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