Democratização do mercado financeiro: uma faca de dois gumes

O mercado de capitais no Brasil vive um paradoxo da informação: se, no passado, a falta de referências disponíveis representou um impeditivo para um melhor desenvolvimento desta indústria, atualmente o excesso delas atrapalha. A questão traz reflexões sobre até que ponto que o digital limita ou liberta.

Com a internet alguns paradigmas foram rompidos, permitindo o acesso e o compartilhamento de conhecimento. Em larga medida, isso se deve ao fato de se tratar de um ambiente em que predomina a informalidade e a horizontalização da rede, resultando em participação social no acesso e produção de informações. Assim, houve maior acessibilidade no tocante a, por exemplo, balanços de empresas, cartas de gestores de fundos de investimentos e a própria divulgação sobre diferentes classes de ativos.

A tecnologia também tornou mais fácil investir. Em um passado recente, era preciso lidar com diversos intermediários, burocracias, fazer ligações interestaduais a fim de dar ordens de compra e venda, além de inseguranças inerentes à falta de informações dos ativos. Esse conjunto de fatores tornava os investimentos inacessíveis para grande parcela dos brasileiros. Hoje, tudo isso está na palma da mão, bastando fazer o download do aplicativo de alguma corretora, criar uma conta e, em poucos segundos, investir nos ativos desejáveis.

Com facilidades operacionais e mais conhecimento à disposição, mais indivíduos passaram a, dentro de seu egoísmo racional, realizar planejamento financeiro: facilitou-se a preservação de patrimônio, sua rentabilização e a busca pela tão sonhada autonomia financeira — o que ajuda no exercício da liberdade individual.

Desenvolvimento do mercado de capitais

Vale ressaltar que esse processo impulsiona o mercado de capitais, com as empresas passando a ter mais recursos a fim de se capitalizar e financiar seu próprio crescimento, o que gera investimentos, inovação e criação de empregos.

Não à toa, há muitas evidências acadêmicas que mostram que quão mais desenvolvido e eficiente é o mercado de capitais de uma região, melhor tende a ser a prosperidade, progresso e o desenvolvimento da economia de mercado desta. É o que concluiu o estudo Finance and Development: A Tale of Two Sectors, que contou com pesquisadores das universidades da Califórnia, Washington, Chicago e Saint Louis. E, todo esse processo é suportado a partir da iniciativa individual dos poupadores.

Os problemas do excesso de informações

Porém, o digital também trouxe um excesso de informações sobre investimentos que podem gerar efeitos nocivos. Nesse sentido, o Executivo do Google Eric Schmidt projetou que, se fosse gravada toda a comunicação humana desde o início dos tempos até 2003, seria necessário aproximadamente 5 bilhões de gigabytes para armazená-la. Em contraposição, hoje essa mesma quantidade de dados é produzida em menos de 48 horas. 

Essa explosão informacional passou a gerar dificuldades para o público encontrar informações relevantes sobre muitos assuntos. Não se trata de algo exclusivo ao universo de investimentos, mas o mote de que “informação nunca é demais” se mostra equivocado especialmente no mercado financeiro. Como observou ainda no início do século o acadêmico e especialista em Gestão Informacional Marcello Bax, “o excesso de informação está associado à perda de controle sobre ela e à inabilidade em usá-la efetivamente”. Afinal, conhecimento de baixa qualidade pode influenciar em decisões que resultem na ruína das economias de famílias inteiras.

Boa parte do que é publicado sobre investimentos em redes sociais é feito por “influenciadores” que se vendem como “gurus de investimentos”, mas não possuem nenhuma expertise técnica. Isso inclui a recomendação de ativos a partir de análises superficiais — algo, inclusive, vetado por órgãos de controle. Muitos deles, na falta de conhecimento, acabam por vender fantasias, causando prejuízos aos seguidores.

O digital também trouxe maior dinamicidade aos ativos listados em bolsa. Em parte, isso pode refletir um problema na medida em que notícias, boatos e memes a respeito de, por exemplo, ruídos e especulações políticas, passam a se proliferar rapidamente e influenciar no preço de ações. Há diversas investigações em aberto por suspeitas de manipulação de mercado, em que alguns agentes induzem propositalmente milhares de seguidores em determinada direção a fim de lucrar às custas dos prejuízos destes.

Informações ruins, má-fé e fraudes

Esse fenômeno passa a ser particularmente mais delicado porque além da tecnologia, a melhoria de indicadores macroeconômicos no Brasil trouxe um cenário de juros em patamares historicamente baixos para os padrões brasileiros. Isso resultou na busca por investimentos mais sofisticados, mas também na procura de fórmulas mágicas a fim de se elevar os ganhos.

Há uma oferta grande de informações de baixa qualidade, incluindo quem atua de má-fé e de forma ilícita ou fraudulenta. Apenas em 2020 foram identificadas pela Comissão de Valores Mobiliários mais de duas centenas de pirâmides financeiras atuando no país, algo que é tipificado como crime contra a economia popular.

Há ainda os poupadores que passam a fazer operações consideradas altamente arriscadas, como o daytrade: trata-se de uma modalidade em que se busca ganhar dinheiro com as oscilações do preço de um ativo ao longo do pregão do dia. Porém, estudo da Fundação Getúlio Vargas indicou que 97% dos traders amargam prejuízos. Muitos, inclusive, operam alavancados, perdendo recursos que nem sequer possuem.

Considerações finais

Por conseguinte, a democratização do mercado financeiro representa uma faca de dois gumes: caso não se faça um processo de curadoria entre essas informações caoticamente dispersas na rede, pode-se levar a uma sequência de tomadas de decisões baseadas em ilusões que, em última análise, podem reduzir a liberdade do indivíduo a partir de sua falência financeira.

Por outro, desde a ascensão do dinheiro, nunca se teve tantos mecanismos na história que permitissem ao indivíduo maximizar sua liberdade ao realizar trocas voluntárias em busca da autonomia financeira. E, claro, há bons profissionais que atuam nesse segmento e podem ajudar nesse processo. Como ensina o historiador Niall Ferguson, os mercados são como espelhos que refletem como valorizamos a nós mesmos: para o gume ser bem utilizado, depende exclusivamente da responsabilidade individual.

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Head de Conteúdo do Ideias Radicais, além de atuar no mercado financeiro na Apex Partners e assinar na Folha Vitória uma coluna diária com cenários da política e economia brasileira.

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