Não há defesa para o governo chinês

defender o governo chinês

Em diversos países, a esquerda e outros setores da sociedade insistem em defender o governo chinês, colocando o país como um modelo a ser seguido pelo restante do mundo. Os supostos avanços sociais e econômicos alcançados lá deveriam, assim, “servir de exemplo” aos demais líderes políticos.

Em julho de 2020, o Partido dos Trabalhadores até lançou nota em que saúda o Partido Comunista Chinês pelos 99 anos de sua fundação.

Há mais de 70 anos, desde 1º de outubro de 1949, a China é governada por um partido único. O simples apoio a um partido que pôs fim ao pluralismo e deu início ao autoritarismo na região já beira o absurdo.

Além disso, defender o governo chinês também vai na direção contrária a vários direitos, inclusive, àqueles que a esquerda ocidental diz tanto proteger.

No entanto, seja no campo social, econômico ou ambiental, a China é um exemplo negativo e deve ser frequentemente condenado por todos que prezam pelas liberdades e por princípios humanitários básicos.

Neste artigo, trazemos algumas provas de que defender o governo chinês é um ato contra a humanidade.

Liberdade de expressão e comunicação não existem

No país, há a maior censura virtual do mundo. As autoridades do país já bloquearam cerca de dez mil domínios estrangeiros. Twitter, Facebook, Instagram e YouTube são algumas das plataformas às quais os chineses não têm acesso.

Nesse âmbito, os cidadãos chineses recebem opções de origem chinesa como substitutos. Porém, estes sites são permeados por altos níveis de censura. E, a tendência é de que o controle aumente sob o governo de Xi Jiping.

Além disso, grandes grupos de direitos humanos também estão entre as entidades banidas do universo digital no país. Assim, protestos contra as autoridades têm se tornado cada vez mais difíceis de acontecer.

Acusações de imperialismo no leste asiático

Para muitos países próximos – ou não – à China, o governo chinês é um recorrente violador dos princípios de autonomia local de outras regiões, desrespeitando, inclusive, legislações internacionais. Não à toa, o país foi até acusado de um “novo colonialismo”.

Contra isso, já aconteceram protestos em vários países como: Vietnã, Camboja, Tibete, Austrália, Índia, Malásia, Tailândia e Filipinas.

A China é o país mais poluente do mundo

A poluição na China chama a atenção do mundo inteiro. Afinal, o país figura como maior emissor de CO² (gás carbônico) na atmosfera.

Nesse sentido, grande parte da poluição do país vem da produção de energia baseada em reservas de carvão, que ainda são a principal fonte chinesa.

As autoridades também violam a liberdade religiosa

Um dos casos que mais repercutiu recentemente foi o dos campos de concentração para muçulmanos sediados em Xinjiang. A ONU teria confirmado sua existência e classificado a região como “zona sem direitos”.

De acordo com as investigações, estima-se que dois milhões de uyghurs e outras minorias muçulmanas seriam vítimas da política discriminatória e criminosa, uma das piores desde o fim do Terceiro Reich.

Em 2020, um modelo uyghur conseguiu vazar um raro vídeo que mostra as condições em que os internos dos campos vivem:

Segundo reportagem da BBC, milhares de crianças muçulmanas já foram separadas dos pais e, como mostram pesquisas recentes, as mulheres são submetidas à força a métodos anticoncepcionais.

Ainda em 1999, relatórios trouxeram a público o assassinato em série de praticantes do Falun Gong, uma prática espiritual de vertente budista, para a venda de seus órgãos em hospitais chineses.

No site de apenas um centro cirúrgico, investigadores encontraram dados sobre a realização de nove transplantes de fígado em 1998, enquanto em 2005 o número foi de 2.248. Em 2015, novas investigações mostraram que esse extermínio ainda acontecia.

O cristianismo também sofre por lá: todos os anos, milhares de igrejas são destruídas, e padres e pastores são presos por realizarem seus trabalhos religiosos. Em muitos casos, substituem-se figuras sagradas por imagens do ditador Xi Jinping.

Já arquitetaram até alterações na Bíblia, buscando reescrever o cristianismo no país de forma mais alinhada aos valores e ideais do Partido Comunista.

Um caso característico de intolerância religiosa e intervenção estatal desrespeitosa foi o episódio com a atriz Ning Jing. Seu lenço religioso, de tradição islâmica, foi substituído por animações em seu aparecimento no reality show ‘’Divas Hit The Road’’.

Homofobia escancarada

Na China, apesar de a homossexualidade ter deixado de ser crime em 1997, casais LGBT ainda não podem se casar, tampouco adotar crianças. Estes dois processos são proibidos pela Constituição do país.

Via de regra, também há um grande empenho por parte das autoridades governamentais para interferir em programas televisivos e outras manifestações por meio de censura.

A fim de reforçar noções tradicionais de masculinidade, o governo decretou guerra a brincos, piercings e joias em homens, por exemplo. O objetivo é “incutir valores socialistas fundamentais” na população, eliminando conteúdos que exaltem “individualismo” ou “hedonismo”.

Em um exemplo característico, o estado chinês inseriu um boné de joaninha na estrela pop Jiang Yaojia para cobrir seu cabelo rosa:

Mas, o combate não para por aí. Representações LGBT são censuradas de forma ampla na televisão como forma de repressão a “conteúdo vulgar, imoral e prejudicial à saúde”, de acordo com as autoridades chinesas.

Um caso emblemático foi a proibição da transmissão de “Addicted”, drama popular que mostra o relacionamento de dois homens homossexuais.

Para o governo, tal prática é comparável à “perversão sexual, agressão sexual, abuso sexual, violência sexual e assim por diante”.

Não à toa, segundo uma pesquisa de 2013, apenas 21% da população chinesa era a favor da homossexualidade.

O país também não é muito acolhedor com mulheres

Na China, as autoridades têm licença para prender participantes de protestos feministas e censurar discussões sobre gênero na internet.

A introdução de Sônia Bridi, ex-correspondente em Pequim, para o livro “Enfrentando o dragão” é bem esclarecedora:

A violência contra as mulheres também se destaca. No país, agredir a esposa era uma prática legal até 2015. Apenas após 66 anos, o atual regime aprovou a primeira lei que visa proteger as vítimas de agressão física.

De acordo com estudo da Federação de Mulheres de Toda a China, um quarto das mulheres sofreu violência dentro de seus casamentos, com “denúncias aquém do ideal”. Além disso, uma lista da Forbes ainda indicou um índice de machismo em 56% na população chinesa.

Por fim, leis que proíbem decotes, casos extraconjugais e “transas de uma noite” na televisão também podem ser encontradas no país como forma de combate à liberdade sexual feminina, associada a “pornografia” pelas agências oficiais.

Professoras? O governo prefere professores homens

Em 2016, os órgãos estatais responsáveis pela educação foram em busca de professores homens para substituir as mulheres na docência. De acordo com o governo e a imprensa, “as escolas precisam de uma masculinidade selvagem”.

Inclusive, até bolsas integrais foram oferecidas a homens em algumas escolas do país. 

Defender o governo chinês também é defender o controle da cultura musical

Consideradas vulgares pelas autoridades, cantoras como Lady Gaga, Katy Perry, Beyoncé e Britney Spears, que são famosas em todo o mundo, foram banidas pelo governo.

O cantor Justin Bieber também já foi proibido de fazer shows no país pelo Escritório Municipal de Cultura de Pequim. E o gênero hip-hop também é alvo de censura, considerado uma “subcultura” e “imoral”.

Em 2018, os artistas Wang Hao e Zhou Yan foram punidos por não estarem de acordo com os valores do Partido Comunista, sendo banidos do programa “The Singer” do qual faziam parte.

Além disso, a campanha pela limpeza na cultura também pretende interferir nos videogames, no streaming online e nas artes performáticas. Isso tudo a fim de eliminar o que não esteja compatível com “os valores socialistas”.

Pela lógica da esquerda brasileira, a desigualdade na China seria culpa do neoliberalismo

Quanto à desigualdade chinesa, até Thomas Piketty concorda: a China não é exemplo nenhum de igualdade.

Em seu livro “Capital e Ideologia”, lançado em 2019 e bastante lido e referenciado no Brasil, o autor e estudioso da desigualdade teceu diversas críticas ao crescimento rápido da desigualdade chinesa e, claro, foi censurado por lá.

Segundo um relatório da World Wealth and Income Database (WID), a fatia de riqueza do país detida pelo 1% mais rico dos chineses viu seus números dobrarem em duas décadas. Se em 1995 o 1% mais afortunado do país possuía 15% da renda nacional, esse número chegou a 30% em 2015.

Portanto, seguindo a lógica da esquerda brasileira, a China deveria estar entre um dos exemplos de fracasso do neoliberalismo.

Na China, presos não têm direitos

De acordo com autoridades internacionais, o governo chinês mata mais prisioneiros anualmente do que o resto do mundo somado.

Além disso, destaca-se a alta taxa de extração de órgãos sem autorização e à força dos prisioneiros, muitos deles ainda enquanto estão vivos.

Um tribunal internacional chegou a condenar o país pela prática: o país teria vendido os órgãos para um mercado ilegal de transplantes que movimenta US$ 1 bilhão por ano no país. A prática de extração, ao que tudo indica, parece não ter terminado.

Defender o governo chinês é defender violência étnica

Há outras acusações de que o governo chinês coage “centenas de milhares de tibetanos” a campos de trabalho forçado atualmente.

O relatório da Fundação Jamestown, juntamente com a agência de notícias Reuters, denuncia a prática que, segundo as autoridades locais, seria com fins de “educação”, “reciclando” os trabalhadores rurais.

Lobsang Sangay, presidente exilado do Tibete, já havia alegado que os campos de trabalho e centros de treinamento estariam sendo usados.

O relatório estima que, cerca de 500 mil pessoas, a maioria agricultores de subsistência e pastores estariam envolvidos no programa de treinamento. Segundo os órgãos de governo, este visa desenvolver “a disciplina de trabalho, a língua chinesa e a ética no trabalho”.

Jornalistas estrangeiros não têm permissão para entrar na região, como reportado nesta página da BBC.

Equipe sendo abordada pela polícia ao tentar capturar a extensão da construção em que ficam os alojamentos de “reeducação”.

Outra prática em pauta é a tentativa de erradicação da cultura dos mongóis no norte da China.

Há acusações de que Pequim tem promovido um genocídio cultural na Mongólia Interior, com o objetivo de conquistar uma suposta “unidade étnica”.

Racismo sem fim

O mundo civilizado deveria se chocar com os absurdos raciais na China, não ignorá-los.

No programa de intercâmbio que conecta alunos chineses a escolas dos EUA, a maioria dos candidatos solicita que seus filhos não sejam enviados para casas de famílias negras.

Além disso, a polícia chinesa persegue militantes negros depois que eles escrevem sobre racismo na internet.

Darasa, uma mulher que morava em Uganda, foi a trabalho para a China, onde sofreu casos de racismo. Em seu Facebook, postou um vídeo no dia 23 de abril denunciando o caso de racismo vivenciado. Logo depois, policiais a abordaram em seu hotel, exigiram a exclusão do vídeo, tiraram dezenas de fotos suas e telefonaram para amigos envolvidos.

Durante todo o ano de 2020, diversos estabelecimentos, como lojas, hotéis e até hospitais, impediram negros de frequentá-los na China. Por exemplo, os responsáveis por um Mc Donald’s do país colocaram uma placa proibindo a entrada de negros no local:

Diplomatas e outros agentes políticos vêm debatendo a questão desde então. A prática do racismo no país, no entanto, vem de décadas e de forma amplamente disseminada na cultura da população.

Além disso, a chamada “Blackface”, tão polêmica em muitos países do mundo, é comum na televisão estatal chinesa. Em 2016, durante uma propaganda de sabão em pó, um ator negro foi “higienizado” para virar chinês.

No ano seguinte, em 2017, um museu no país chegou a comparar negros com macacos.

Diante deste cenário, diversos diplomatas africanos protestaram contra o racismo na China em 2020.

Assim, governos de diversos países, como Nigéria, Gana, Quênia e Uganda, convocaram embaixadores chineses para receber protestos formais sobre os incidentes de racismo no país.

defender o governo chinês

Vários países se opõem ao governo chinês

Estas denúncias em relação a China não são “conspirações dos Estados Unidos” e da “direita reacionária”.

Na ONU, diversos países condenam os abusos aos direitos humanos praticados pelo governo chinês, desde os sociais-democratas da Suécia até os trabalhistas da Nova Zelândia.

Em 2020, democracias que melhor protegem os direitos humanos no mundo, como Alemanha, Austrália, Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Holanda, Noruega e Suíça condenaram a China na ONU.

Junto destes, o governo da Espanha, do Partido Socialista Operário Espanhol, até a Esquerda Verde da Islândia fazem oposição ao regime chinês.

Além disso, mais de 300 grupos de direitos humanos – da Anistia Internacional à Human Rights Watch – de mais de 60 países – do Azerbaijão à Malásia – também pressionaram a ONU durante 2020 para enfrentar com rigor as violações dos direitos humanos por parte do governo chinês.

Mas, as autoridades chinesas não estão nem aí

Em geral, os chineses dão de ombros às denúncias e usam uma expressão depreciativa para ridicularizar os progressistas: Bái zuǒ (白左; “esquerda branca”).

Para muitos chineses, a esquerda ocidental busca apenas “satisfazer seu próprio sentimento de superioridade moral”.

O apoio de progressistas à China não faz sentido

Apesar de todos os fatores apresentados, sobram progressistas pelo Brasil e em outros lugares do mundo dispostos a tomar as dores de uma ditadura que persegue a população LGBT, feministas e minorias étnicas; que impede protestos, explora presos e operários; que censura todas as formas de arte e ONGs de direitos humanos, enquanto ridiculariza os próprios progressistas.

Em suma, o comportamento de manada e a falta de conhecimento são uma das explicações para tal situação. Portanto, a informação e o compartilhamento de conhecimento devem ser os principais remédios para elucidar parte da população que desconhece as atrocidades que o século XXI ainda enfrenta na potência do outro lado do globo.

*Este texto é o desenvolvimento de uma thread de Twitter elaborada originalmente por Rodrigo da Silva.

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