Por que a Califórnia está em declínio

Nos últimos anos, intensificaram-se as manchetes sobre a fuga de empresas do estado da Califórnia. Em dezembro de 2020, a Oracle, gigante dos bancos de dados, e a Hewlett Packard (HP), precursora do Vale do Silício, anunciaram que mudariam suas sedes para o Texas. Notícias como essa revelam o infeliz declínio da Califórnia.

Além disso, muitos famosos e bilionários saíram do estado. Joe Rogan e seu podcast de 100 milhões de dólares também mudaram-se para o Texas. O rapper Kanye West foi para o Wyoming e cogita levar sua linha de moda, Yeezy, consigo. Elon Musk, empreendedor em todos os ramos imagináveis, mora agora em Austin e não descarta levar algumas de suas empresas para lá.

Longe de serem apenas anedóticas, essas manchetes são sintomáticas. Elas mostram uma tendência de anos, que inclui pessoas de todas as idades e classes sociais.

Desde 1990, a Califórnia tem perdido mais cidadãos para outros estados americanos do que ganhado. E, embora as imigrações de pessoas do exterior mantenham o crescimento populacional positivo, 5 milhões de californianos saíram do estado entre 2004 e 2013. O saldo líquido desse êxodo é de mais de 1 milhão de habitantes e US$26 bilhões em receita anual perdidos.

Uma explicação comum para esse fenômeno é o alto imposto de renda estadual, que é o maior do país. Ainda assim, essa explicação é incompleta. Como veremos, regulações trabalhistas e alto custo de vida, de maneira geral, contribuíram para o declínio do estado.

A origem da riqueza da Califórnia: do ouro ao silício

Em 1848, a corrida do ouro tornou a Califórnia um centro de atividade econômica, desenvolvendo sua infraestrutura e seu mercado. Não à toa, recebeu o apelido de Golden State.

100 anos depois, outro material foi ainda mais decisivo para o seu futuro: o silício. Foi a utilização dele em semicondutores que permitiu a explosão tecnológica que o mundo vive até hoje.

O bom ambiente de negócios à época, parcerias com universidades e incentivos do governo fizeram florescer inúmeras startups na região da Baía de São Francisco. Atualmente, elas são gigantes da tecnologia, contando com: Google, HP, Nvidia, Cisco, Intel, Facebook, Netflix, Apple, AMD, Pixar e Adobe, e constituem o Vale do Silício.

Esse boom da Engenharia rendeu frutos à Califórnia. Se fosse um país, ela seria a 5ª maior economia do mundo e a Baía de São Francisco, sozinha, a 19ª colocada. Segundo a PitchBook, só a Baía concentra 22,4% de todo venture capital investido nos Estados Unidos.

Além disso, seu setor agrícola é um dos maiores do mundo e, não esqueçamos, lá é a casa de Holywood.

Portanto, o estado ainda tem muita gordura para queimar. Acabar com ela, parafraseando o economista Marcos Lisboa, seria trabalho de profissional. Mas não se assuste se isso demorar menos do que o imaginado; os profissionais já estão trabalhando.

A falta de liberdade econômica na Califórnia

Os últimos anos viram uma onda de medidas intervencionistas pelo estado. A interferência do governo na economia inclui maior regulação trabalhista, proibição de produtos e serviços até a criação de empresas públicas. E, é claro, aumento dos impostos também, que certamente foi o principal culpado por esse declínio recente.

Fato é que a liberdade econômica proporciona o ambiente perfeito para a melhora da qualidade de vida e dos indicadores sociais. Redução da pobreza, melhores educação e saúde, maior proteção ambiental e menores índices de corrupção.

Nesse sentido, exemplos do sucesso do livre mercado não faltam: Alemanha pós-guerra, Nova Zelândia nos anos 80 e, recentemente, Estônia e Geórgia pós-União Soviética. Contudo, a Califórnia está fazendo justamente o contrário.

O levantamento Freedom in the 50 States, feito pelo Cato Institute em 2018, a coloca na 48ª posição dentre os 50 estados em termos de liberdade econômica. Em relação ao mercado de trabalho, está em último lugar.

Em outro indicador, do Fraser Institute, ela foi ranqueada em 47º, com a pontuação de 4,71 de 10. A melhor posição que ela ocupou, desde que o ranking foi criado, foi a 36ª (pontuação 4,61), em 1985.

É de se esperar, portanto, que os seus indicadores sociais venham piorando. Embora tenha o maior número de bilionários do país, a Califórnia também é o estado com maior índice de pobreza. Segundo o Supplemental Poverty Measure, a taxa chega a 20,6%. 

Embora cultive a cultura política do progressismo, o Golden State acaba por piorar o bem-estar de todos. As minorias, como era de se esperar, são dos grupos mais afetados com isso.

As promessas de inclusão e palavras bonitas não são suficientes para mantê-las no estado. Boas intenções não geram bons resultados e, na maioria das vezes em que são aplicadas sem embasamento, ocorre justamente o oposto.

Quem são e para onde vão os emigrantes californianos

Seguindo essa lógica, os estados que mais recebem californianos devem ser aqueles mais amigáveis ao livre mercado. E, de fato, é isso que acontece. 

Segundo dados do Census Bureau de 2018, os cinco destinos preferidos são Texas (que ganhou 86 mil pessoas), Arizona (65 mil), Washington (55 mil), Nevada (50 mil) e Oregon (43 mil). O Fraser Institute rankeia o Texas como 4º estado mais livre; Arizona, o 20º; Washington, o 33º e Nevada, o 22º. No top 5, apenas Oregon está no quartil menos livre do país, na 44ª posição.

Embora as mudanças que chamem atenção sejam das grandes empresas e celebridades, os pequenos negócios — que empregam quase 50% da força de trabalho — e cidadãos de baixa renda também emigram em massa. Em 2017, entre os emigrantes com mais de 25 anos, 87 mil não tinham ensino superior, enquanto apenas 443 eram graduados.

Segundo Carson Bruno, pesquisador do Hoover Institution:

Enquanto o quintil de renda mais alta experimenta uma emigração doméstica, os quintis de menor renda e o de média-renda representam 85% da emigração resultante. De fato, o quarto quintil — a classe média alta —, na verdade, vê uma imigração líquida. Então, embora haja uma narrativa de que os ricos fogem da Califórnia, a verdadeira fuga é da classe média.

Além disso, de acordo com levantamento do United Ways of California, minorias latinas e afrodescendentes são as que mais têm dificuldades econômicas no estado. Não é de se espantar, portanto, que quase 75 mil negros tenham se mudado só em 2018, a despeito dos esforços para inclusão e reparação histórica cultivados.

Assistencialismo e regulação trabalhista na Califórnia

Em uma pesquisa feita pela Universidade da Califórnia, 46% daqueles que consideraram sair citaram a cultura política como determinante — principalmente aqueles mais à direita, já que o estado é majoritariamente progressista.

O progressismo é implementado por meio de políticas intervencionistas e, por isso, é o culpado pelo alto custo de vida e altos impostos.

O Golden State gasta mais com assistencialismo que Texas, Arizona, South Dakota, North Dakota, Colorado, Utah, Nevada, Oregon, Idaho, Hawaii, Louisiana, Arkansas, Oklahoma, Kansas, Nebraska, New Mexico e Montana somados! Considerando os resultados, podemos dizer que não é um gasto muito eficiente.

Além disso, esse paternalismo resultou em uma série de legislações trabalhistas introduzida no estado. Um levantamento do Cato Institute descobriu que o Código de Regulamentações da Califórnia (CCR, em inglês) tem a maior quantidade de restrições legais do país: 395 mil.

Segundo o Mercatus Center, da George Mason University, demoraria mais de 29 semanas apenas para lê-las. Isso a torna o estado mais regulado do país.

Nos últimos dois anos, uma lei em especial causou bastante debate. Trata-se da Assembly Bill 5 (AB5), que determinou que empresas contratassem seus trabalhadores independentes como funcionários. Propostas assim também são frequentemente levantadas no Brasil.

O texto da AB5 afirma que autônomos, sendo funcionários, poderiam reivindicar benefícios previstos na legislação, como o seguro desemprego. Na prática, ao invés de favorecê-los, jogaria muitos deles para o desemprego. Isso porque reconhecê-los como funcionários elevaria os custos de operação das empresas. Apenas para a Uber, isso representaria um custo adicional de até US$500 milhões anuais.

Após muita insistência — e uma campanha de US$200milhões —, grandes empresas como Uber e Lyft conseguiram se isentar da lei, através da aprovação da Proposition 22.

Mas a AB5 ainda afeta milhões de californianos, que trabalham como zeladores, faxineiros, jardineiros, caminhoneiros, escritores freelancer e trabalhadores do varejo.

Maior custo de vida, menor qualidade de vida

O custo de vida na Califórnia, de maneira geral, é um dos maiores do país. Um estudo da GOBankingRates de 2017 a elegeu como o estado mais caro, 41% a mais que a média nacional.

Se compararmos o Índice de Custo de Vida — que considera preços de energia elétrica, comida, saúde, moradia e transporte, entre outros — das maiores cidades californianas com as arizonenses, ele é consideravelmente maior.

Fonte: Salary.com

O maior agravante desse índice é o preço médio das moradias, 2º maior do país — a Califórnia perde apenas para o Hawaii —, estimado em US$522 mil. O que torna-os notoriamente altos são as diversas dificuldades impostas pelo governo do estado para construção, regularização e aluguel de residências.

O Código de Padrões de Construção da Califórnia é a seção do CCR com maior número de regulações: 75.712. Além disso, a seção de Habitação e Desenvolvimento Comunitário tem mais 12.204.

Ou seja, apenas no CCR, são quase 88 mil regras ditando como deve ser o setor imobiliário no estado. Aí entram controle de aluguéis, controle de preços em vendas e regulações sobre uso da terra e sobre construções.

Essa crise de moradias levou ao aumento do número de moradores de rua. O Golden State tem mais moradores de rua do que qualquer outro estado americano, segundo dados do US Interagency Council of Homelessness.

Isso se tornou uma reclamação constante entre os moradores, principalmente porque levou a problemas graves de fezes humanas espalhadas pela cidade (confira este mapa).

O que o futuro guarda para a Califórnia?

Californianos têm duas escolhas: continuar o caminho traçado pelo seu progressismo ou reavaliar os maus resultados e tomar outro curso de ação. Pelo andar da carruagem, as tendências apresentadas nesse artigo continuarão no futuro, já que a primeira opção parece ser a mais escolhida.

Pela primeira vez na história, é estimado que o venture capital investido no Vale do Silício caia abaixo dos 20%.

A pandemia também é outro fator que parece acelerar a emigração do estado. O lockdown imposto no estado foi dos mais restritivos do país, mas gerou resultados questionáveis. Ainda mais se compararmos com estados, como a Flórida e o Arizona, que tiveram poucas restrições e resultados semelhantes.

Além disso, a prática do home office permite trabalhar para uma empresa californiana estando em outro estado. De repente, a localização passou a ter menor importância.

Talvez, o futuro da Califórnia passe pelo que o economista Walter Williams escreveu ainda em 2012:

Considerando o desprezo generalizado pela liberdade individual e pelos valores constitucionais, talvez haja uma maneira dos políticos resolverem essa bagunça fiscal. Eles podem impedir que pessoas ricas saiam do estado ou … limitar a quantidade de ativos que um cidadão pode tirar do estado.

Claro que Williams fazia uma piada, mas ele mal esperava que o estado realmente cogitasse medidas malucas como essa e como outras que, infelizmente, virão.

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Estuda e trabalha com Engenharia Eletrônica e de Telecomunicações em Belo Horizonte.

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