A verdade sobre a cultura do cancelamento

Nos dias de hoje, o cancelamento é uma das práticas culturais mais controversas na sociedade. Quando alguém, geralmente uma figura pública ou algum grupo, é cancelado, ele tem seu apoio retirado, geralmente em forma de boicote, tendo suas apresentações e palestras suspensas e seu trabalho deixa de ser promovido. Como tudo envolve muita controvérsia e ocorre de forma espontânea, chamou-se esse fenômeno de cultura do cancelamento.

Os motivos que levam ao cancelamento podem ir dos mais banais até, de fato, os mais controversos. Geralmente algo dito, escrito ou feito pelo cancelado é recebido por alguns com maus olhos, levando, muitas vezes, a reações exageradas. Outros, no sentido contrário, têm reação diversa: para eles, o que foi dito, escrito ou feito não tem nada demais e errados são aqueles que vociferam pelo cancelamento.

De fato, muitos cancelamentos não têm pé nem cabeça, porque dizem respeito a falas absolutamente inócuas, discursos completamente mal interpretados ou tirados de contexto, ou ações que nem sequer aconteceram, sendo veiculadas por meio de fake news.

Como reação a esse fenômeno, muitos intelectuais ganharam destaque expondo suas críticas aos canceladores, como Jordan Peterson, Slavoj Zizek e Claire Lehmann. Muitos deles sentem os efeitos da cultura do cancelamento na própria pele. Esse é o caso de Alan Dershowitz, advogado americano e professor de Direito na Universidade de Harvard, que escreveu o livro Cultura do Cancelamento: A Liberdade Sob Ataque. Nele, o autor defende que esse movimento, em última instância, é um ataque direto à liberdade de expressão e ao devido processo legal.

Cancelando o devido processo legal

Para Dershowitz, no fundo, cancelar alguém é impedi-lo de exercer seu direito de expressar-se livremente. Só por isso, já seria ferido um dos pressupostos fundamentais da civilização, não se pode discutir abertamente as ideias boas e refutar as más em diálogo. Mas, além disso, a cultura do cancelamento é seletiva:

A política identitária também desempenha um papel na demanda por censura seletiva. O conceito de que uma ideia é dependente da identidade de quem fala — “a localização de alguém na cartografia política e social”, como a professora Bettina Aptheker chamou — se destaca entre os defensores da interseccionalidade, um movimento “progressista” que se tornou novamente proeminente entre as manifestações de 2020, após a morte de George Floyd.

Cultura do Cancelamento, p. 55

Assim, para os canceladores muitas vezes importa mais quem disse e menos o que foi dito. A depender de quem disse o “absurdo”, ele deixa de ser tão absurdo assim, já que sua identidade faz parte de um grupo “desprivilegiado”. Afinal, para os canceladores, manter neutralidade em face da desigualdade é, por si, uma injustiça.

Dessa forma, subvertemos a ideia fundamental do individualismo de julgar cada um pelas suas virtudes e vícios, e lançamos mão de um olhar seletivo, a considerar apenas cor de pele, religião ou classe:

A demanda por diversidade é, muitas vezes, um eufemismo para mais daqueles que os demandantes querem e menos daqueles que não querem. Na prática, o tipo de diversidade exigido pela extrema esquerda muitas vezes reduz, ao invés de aumentar, as diferenças intelectuais, políticas, religiosas e ideológicas.

Cultura do Cancelamento, p. 9

Segundo Dershowitz, a cultura do cancelamento não tem qualquer método ou processo para determinar a validade de uma acusação, a começar pela sua seletividade. Na maioria das vezes, a própria acusação é tida como história oficial, mesmo sendo comprovadamente falsa.

Portanto, o julgamento pelos canceladores busca:

eliminar qualquer aparência de devido processo legal, presunção de inocência, confronto de testemunhas ou confiança em evidências ao invés da identidade. Esse ataque ao estado de direito e às liberdades básicas é parte de um fenômeno mais amplo, que transformou nosso sistema de justiça em uma arma, de maneira a obter vantagens ideológicas e partidárias.

Cultura do Cancelamento, p. 59

Os precursores da cultura do cancelamento: macarthismo e stalinismo

O autor identifica na cultura do cancelamento duas características que já estavam presentes em dois fenômenos de décadas passadas: o stalinismo e o macarthismo. Stalinismo refere-se ao regime comunista instaurado pelo ditador Josef Stalin, marcado pela ampla perseguição de opositores, dezenas de milhões mortos de fome pela coletivização dos campos na Rússia, na Ucrânia — com o Holodomor — e na China — com o Grande Salto Adiante — e uma sensação de desconfiança generalizada na população.  

O macarthismo, por sua vez, refere-se à prática de perseguição e repressão de grupos e indivíduos esquerdistas incentivada pelo senador americano Joseph McCarthy na década de 1950. Muitas vezes, os acusados não tinham qualquer associação com espionagem russa, comunismo ou até com a “esquerda”, tanto que, mais tarde, a maioria dos punidos foi inocentada, sendo os julgamentos anulados, as leis declaradas inconstitucionais e as demissões reconhecidas como ilegais.

Antes de tudo, devemos estar cientes das diferenças de grau entre ser cancelado no século XXI e ser perseguido pela máquina soviética do século XX, por exemplo. Ainda assim:

Existem muitas semelhanças entre os fanáticos da atual geração “desperta”, os stalinistas dos anos 1930 e os macartistas dos anos 1950. Nenhuma dessas ideologias tolera divergências. Elas sabem o certo e o errado. Elas podem distinguir a Verdade da Grande Mentira, sem necessidade de debate. Elas são puristas, e julgam os impuros.

Cultura do Cancelamento, p. 21

Entretanto, uma diferença fundamental entre esses precursores e a cultura do cancelamento é que esta é feita informalmente por fontes privadas e muitas vezes anônimas. Isso implica que vítimas falsamente canceladas não têm acesso a um sistema judicial e à possibilidade de reparação legal:

Embora não use o poder do governo como tal para censurar, exige que outras instituições poderosas — como a grande mídia, a academia, a igreja, escritórios de palestrantes, entre outros — neguem àqueles que foram cancelados o direito de falar, e neguem a seu público-alvo o direito de ouvir suas opiniões.

Cultura do Cancelamento, p. 42

A cultura do cancelamento é uma forma de liberdade de expressão

Nada obstante tudo isso, Dershowitz alerta que esse fenômeno ainda constitui uma instância da liberdade de expressão:

Em sua essência, a cultura do cancelamento é, em si, uma forma de liberdade de expressão. Na minha opinião, é um discurso errado, um discurso ruim, um discurso perigoso, um discurso antilibertário e um discurso perverso. Muitas vezes, é motivado por considerações político-partidárias, bem como por políticas identitárias. Eu odeio a cultura do cancelamento, mas, parafraseando Voltaire, vou defendê-la como um direito constitucional, enquanto a condeno por uma questão de moralidade e princípios.

Cultura do Cancelamento, p. 43

A pressão social feita de forma privada, em princípio, não é inválida. O que critica-se é o uso abusivo, completamente parcial e sem noção dessa ferramenta. Tendo isso em mente, o autor mostra como ela pode ser utilizada de forma justa, comentando as posições anti-Israel tomadas pelo movimento Black Lives Matter, que, imagina-se, deveria se preocupar com questões raciais e não com o conflito Israel-Palestina:

Aqui está um exemplo onde o cancelamento poderia produzir um resultado positivo: o Black Lives Matter deveria cancelar seu ataque antissemita, mentiroso e singular ao estado-nação do povo judeu. Caso recuse, as pessoas de boa vontade deveriam cancelar o Black Lives Matter como organização, mas não como conceito, e continuar a apoiar a justiça racial através de outras organizações não fanáticas.

Cultura do Cancelamento, p. 114

Portanto, o cenário que se desenha é esse: o debate acerca da cultura do cancelamento, como todo debate em uma sociedade livre, deve ser decidido preservando-se a liberdade de expressão. Quem quiser acabar com a cultura do cancelamento, deverá enfrentá-la no mercado das ideias:

Não será fácil cancelar a cultura do cancelamento porque, como todas as “culturas”, é difusa; não tem home-office ou sede; ninguém está no comando; a bola não para em lugar nenhum. A cultura do cancelamento deve ser contestada no mercado de ideias. … Devemos cancelar a cultura do cancelamento agora, antes que se torne a cultura americana.

Cultura do Cancelamento, p. 164

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Por:

Estuda e trabalha com Engenharia Eletrônica e de Telecomunicações em Belo Horizonte.

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