O que o coronavírus ensinou sobre o Bitcoin

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O que o coronavírus ensinou sobre o Bitcoin

A crise do coronavírus evidenciou que o Bitcoin não é mais o dinheiro mágico digital, como foi rotulado há muito tempo. Não há forças das trevas fazendo com que ele se comporte ao contrário dos mercados tradicionais. Não existe um algoritmo que o force a fazer zigue quando o resto do mundo faz zague.

Em grande parte, existem alguns esquisitos, alguns indivíduos perseguidos, ou de países com bancos centrais não confiáveis, fazendo coisas que os investidores tradicionais acham loucura.

Do lado de fora, todos esses antigos proprietários de Bitcoins, davam uma impressão de que o Bitcoin não estava correlacionado com os mercados tradicionais ou até com refúgios como o ouro.

Afinal, quando o S&P 500 caiu, o Bitcoin disparou. Quando os bancos em Chipre entraram em colapso, o Bitcoin foi reforçado. E foi uma narrativa que os puristas de Bitcoin propagaram. 

Se as pessoas normais, em países com moedas estáveis, começassem a comprar, isso só poderia elevar o preço do ativo escasso, ou era isso o que se achava.

O coronavírus mudou a percepção sobre o Bitcoin

Então veio o coronavírus, causando estragos nas finanças globais, e aí tudo mudou. Ou, para ser mais preciso, as pessoas começaram a ver o que o Bitcoin de fato é. 

A partir de 11 de março, quando as preocupações com o coronavírus aumentaram, começou o colapso de tudo: desde algumas das maiores empresas do mundo, como Apple e Tesla, até o Bitcoin.

O preço do S&P 500 e outros mercados globais caiu em 10%, levando o Bitcoin junto. 

Muitos alertaram que se o Bitcoin estivesse correlacionado com os mercados tradicionais, seu uso e valor desapareceriam.

Existem alguns problemas com essa narrativa. Se o valor do Bitcoin estivesse sendo impulsionado por ser um ativo não correlacionado com o mercado tradicional, no momento em que ele se correlacionou, seu valor deveria ter caído para zero. 

No entanto, o preço do Bitcoin já começou a se recuperar, junto com os mercados tradicionais. Se a não correlação era essencial para o valor do Bitcoin, por que estava aumentando junto com os mercados tradicionais? 

Segundo, as pessoas estavam comprando, e mais importante, usando Bitcoin muito antes de os investidores tradicionais começarem a falar sobre ele estar ou não correlacionado com o mercado tradicional.

Origens do Bitcoin

Os primeiros usuários de Bitcoin compraram a moeda por razões puramente ideológicas.

Desconfiança de governos ou de bancos centrais, compras em mercados negros, preferência pela economia cashsless, são alguns dos motivos pelos quais os primeiros usuários investiram no Bitcoin.

Não se falava em hedge naqueles primeiros dias. Não se falava em diversificar uma carteira. Naquela época, esses usuários nem eram realmente “investidores”. Eles eram “holders”. 

Certamente, fortunas foram feitas e perdidas devido à falta dessas considerações. Milionários acidentais foram criados, assim como completa devastação financeira de outros.

Então, o mercado de balcão de criptomoedas nasceu. A Grayscale abriu o caminho em 2015, segurando o Bitcoin e outras criptomoedas, permitindo investidores credenciados a tocar nesse tipo de ativo. 

Em seguida, instituições financeiras tradicionais como Fidelity e CME Group se envolveram, não apenas facilitando a participação de investidores tradicionais nessa economia nascente, mas potencializando certos tipos de comportamentos exibidos pelas pessoas que possuem Bitcoin. 

Estes eram os hedgers, os day traders. Em parte, o frenesi causado por esse interesse ajudou a elevar o valor do Bitcoin para quase US$ 20.000 no final de 2017, antes de cair para US$ 4.000. Em junho de 2019, o valor havia se recuperado para US$ 13.000.

Então, no final de 2019, algo aconteceu. Por algum motivo ainda desconhecido, muitos investidores começaram a comprar Bitcoin, de acordo com a CoinMetrics

Muito pouco se sabe sobre essa onda de gastos, mas de setembro a dezembro, esses investidores encheram seus cofres de criptomoedas. 

O preço passou de US$ 10.000 para US$ 7.100 no mesmo período. Um movimento relativamente pequeno, especialmente para traders de Bitcoin, já acostumados com esse tipo de variação de preço.

Atual situação

No entanto, não aprenderíamos sobre essa nova geração de investidores até 11 de março de 2020, naquele dia fatídico em que os medos sobre o coronavírus começaram a atingir novo patamar. 

Naquele dia, 281.000 bitcoins mantidos por seus proprietários por meros trinta dias foram vendidos, de acordo com a CoinMetrics, enquanto apenas 4.131 bitcoins que ficaram inativos por um ano ou mais foram movidos. Isso indicou que a grande maioria da volatilidade era quase certamente proveniente de novos traders.

No dia seguinte, essas ações alinharam os movimentos do bitcoin com o S&P 500, com base no cálculo da CoinMetrics da correlação de Pearson, que mostra a semelhança entre duas variáveis.

Uma análise da empresa de serviços financeiros Unchained Capital descobriu que, durante um período mais longo, de 11 a 15 de março, a maior parte da volatilidade, ou cerca de 458.000 Bitcoins, veio de contas com idade entre um mês e um ano.

Para deixar claro, não sabemos nada sobre os investidores que desencadearam a venda ou quais foram seus motivos. 

Tudo o que sabemos é que suas contas eram novas, todas começaram a vender quase ao mesmo tempo, correspondendo ou desencadeando a correlação mais estreita do mercado com o Bitcoin S&P 500 já experimentado. 

Mesmo enquanto eles estavam fazendo suas negociações, sussurros de “compre na baixa” já podiam ser ouvidos entre os holders mais antigos de Bitcoin. 

Na verdade, a exchange de criptomoedas Kraken registrou um aumento de 83% na quantidade de assinaturas de contas durante a semana do colapso, em comparação com a semana anterior – pessoas que buscam capitalizar com o baixo preço.

Na crise em torno do coronavírus, os bancos mais uma vez começaram a imprimir dinheiro para criar liquidez e “manter as engrenagens da economia global lubrificadas”. 

Após o coronavírus, qual o futuro do Bitcoin?

Mas a oferta limitada de Bitcoin ainda pode ser um antídoto para esse tipo de política? Ou será que o Bitcoin pode evoluir para algo completamente diferente? Para uma moeda de código aberto, constantemente sendo recriada pelas pessoas que a possuem.

Tudo é possível. Até lá, porém, não se surpreenda quando o Bitcoin se comportar exatamente da maneira que seus proprietários.

Então, se o Bitcoin não é mágica, o que é? No fundo, sua tecnologia blockchain é apenas a capacidade de provar que um item digital está apenas em um lugar por vez. 

Essa capacidade lançou as bases para que, um dia, possivelmente adquirisse valor que ela possui. Mas, diferentemente de outros ativos, é também um trilho de pagamento, uma maneira de mover esse valor. 

Quanto vale essa tecnologia? No momento, vale US$ 6.700 por Bitcoin, com um valor total de mercado de US$ 113 bilhões. Isso sem contar a vasta infraestrutura existente para apoiá-lo. 

Em comparação, a Visa e a Mastercard juntas valem cerca de US$ 500 bilhões.

Na verdade, o que torna o Bitcoin diferente é que foi a primeira inovação financeira já adotada pelos investidores individuais. 

E quando os investidores tradicionais, acostumados a ver sua própria imagem refletida na inovação, viram outra coisa, eles assumiram que o Bitcoin era como mágica, mas esse castelo de cartas caiu com o coronavírus. 

Quando tudo o que o Bitcoin realmente era, é um sistema de pagamento e, ouso dizer, uma reserva de valor, que permite às pessoas serem donas do ativo e da infraestrutura. Todo o resto é incerto.

Michael del Castillo escreve sobre Criptomoedas e Blockchain para a Forbes.

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Por | 2020-03-26T23:28:18-03:00 27/03/2020|Economia, Tecnologia|Comentários desativados em O que o coronavírus ensinou sobre o Bitcoin